Descrição de chapéu
Depoimento

Hong Kong vive entre necessidade de conter vírus e de alimentar economia

Há mais distância social e rotina foi virada do avesso, mas de certo modo ficamos mais próximos

Raquel Carvalho
Hong Kong

A convite da Folha, seis pessoas que moram na Ásia contam como a região está enfrentando a pandemia de coronavírus.

Depoimentos de Coreia do Sul, Japão, Taiwan, Tailândia, China e este, de Hong Kong, descrevem os diferentes controles adotados pelos governos locais e como os moradores estão tentando manter a rotina sob as novas regras.

Hong Kong, capital financeira da Ásia, está presa entre a necessidade de conter o novo coronavírus e de alimentar a economia, depois de mais de seis meses de protestos pró-democracia.

Com 7 milhões de habitantes, prédios altos, avenidas cheias de gente e apartamentos apertados, a metrópole enfrenta agora uma segunda onda de casos de Covid-19, que o governo da região semiautônoma tenta conter por meio de medidas mais restritivas.

Depois de uma primeira fase de quarentena em fevereiro, algumas empresas pediram aos funcionários que retornassem aos escritórios em março. Muitos, entretanto, continuam trabalhando de casa.

Segurança com máscara em shopping certer geralmente lotado em Hong Kong
Segurança com máscara em shopping geralmente cheio em Hong Kong - Anthony Wallace - 31.mar.20/AFP

O número de contágios começou a crescer a dois dígitos diários, com uma taxa elevada de infectados vindos do exterior. Até sexta (3), foram registrados 845 casos na ex-colônia britânica.

Os vagões de metrô percorrem Hong Kong meio vazios, mas existem muitos automóveis privados a circular nas estradas.

Nas ruas, quase todos usam máscara cirúrgica. Alguns utilizam máscaras de gás, daquelas de manifestantes nos protestos, ou ainda chapéus com viseira de plástico que cobre completamente o rosto.

Grifes internacionais, que ocupam espaços caríssimos no centro de Hong Kong, continuam de portas abertas, embora poucos se aventurem por lá.

Encontrar papel higiênico já não é mais o drama do início da pandemia. Desinfetantes, antes esgotados, tomam agora lugar central em supermercados e lojas de conveniência.

Mas alguns alimentos escasseiam, como massa importada da Itália, e outros produtos, como azeite, estão mais caros.

No domingo passado (29), a fila num supermercado se estendia como uma serpente abraçando as prateleiras. Dezenas de pessoas fizeram dessa a sua única atividade diária fora de casa.

Reuniões públicas com mais de quatro pessoas foram proibidas, e cinemas, caraoquês, boates, saunas e ginásios, obrigados a fechar, enquanto restaurantes removeram algumas mesas para criar distanciamento social.

Espaços públicos, como parques para crianças e campos desportivos, estão envoltos em fitas de plástico e barreiras metálicas.

A ansiedade coletiva acaba preenchendo os espaços vazios —alguns já receberam a notícia de que sofrerão redução salarial, e outros esperam um e-mail de demissão.

Durante essa crise, vi alguns dos meus vizinhos do prédio da frente pela primeira vez –rostos com os quais nunca tinha cruzado em seis anos.

Antes da epidemia, as cortinas de seus apartamentos estavam quase sempre fechadas. Agora, semiabertas e por vezes escancaradas.

Uma mulher que mora no quarto andar faz exercício na sala ao final do dia, e o homem do sétimo piso demora-se pela tarde à janela, enquanto admira a rua onde uma pizzaria e uma cafeteria continuam a atrair clientes.

Há mais distância social, e a rotina de quase todos foi virada do avesso. Mas de certo modo ficamos mais próximos. Estamos juntos nisto.

Jornalista portuguesa baseada em Hong Kong, reporta sobre a Ásia há mais de uma década

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