Descrição de chapéu The New York Times

Imprensa da Índia perde liberdade sob o governo de Modi

Controle da mídia se intensificou no país com pandemia de coronavírus

Vindu Goel Jeffrey Gettleman
Nova Déli | The New York Times

Vinesh Kunhiraman, âncora da Media One, foi ao ar como de hábito no último 6 de março, preparando-se para informar os 5 milhões de espectadores da estação no Estado de Kerala sobre o aniversário da morte de um humorista popular e as notícias mais recentes sobre a pandemia de coronavírus.

Alguns minutos depois de a transmissão começar, ele viu o editor gerente entrar no estúdio correndo, fazendo gestos nervosos. “Percebi que havia algum problema”, recordou Kunhiraman.

De repente a estação saiu do ar. A imagem do âncora se dissolveu numa tela azul. Uma mensagem apareceu na tela, dizendo aos espectadores que não havia sinal. “Lamentamos o inconveniente”, dizia a mensagem.

Mas não se tratava de um problema técnico. A estação fora tirada do ar por ordem do Ministério da Informação, Televisão e Rádio. O governo decidira bloquear o canal por 48 horas porque ele havia coberto a maior notícia da sexta-feira —os ataques de turbas enfurecidas contra muçulmanos em Nova Déli, que acabaram se disseminando mais amplamente— de uma maneira que parecia “crítica em relação à polícia de Déli e ao RSS”, segundo a ordem.

O RSS é um movimento social nacionalista hindu com vínculos estreitos com o primeiro-ministro Narendra Modi e seu partido, o Bharatiya Janata (BJP).

“O fato de o governo central ter tomado essa decisão foi chocante”, comentou R. Subhash, um editor da Media One. “Foi um ataque à liberdade de imprensa.”

A imprensa livre indiana vem exercendo papel crucial na proteção da democracia nacional desde que a Índia se tornou independente da Grã-Bretanha, em 1947. Hoje, porém, os jornalistas indianos se sentem assediados.

Eles dizem que desde que Modi chegou ao poder, em 2014, seu governo vem tentando controlar a imprensa do país, especialmente as emissoras de rádio e televisão, mais que qualquer outro premiê em décadas. Modi tem manipulado a mídia astutamente para construir à sua volta um culto à personalidade que o retrata como o altruísta salvador da pátria.

Ao mesmo tempo, altos funcionários do governo pressionam os veículos de imprensa –criticando editores, cortando anúncios, ordenando investigações fiscais— para que façam vista grossa para o lado mais brutal da campanha do BJP para transformar a Índia de um país tolerante, religiosamente diverso, em uma nação assertivamente hindu.

Com a pandemia de coronavírus, Modi passou a agir mais abertamente para controlar a cobertura da mídia. E, como tem sido o caso com outras notícias deprimentes ou preocupantes, alguns executivos de imprensa indianos parecem estar dispostos a fazer o que o primeiro-ministro quer.

Logo antes de anunciar o maior “lockdown” do mundo devido ao coronavírus, proibindo 1,3 bilhão de pessoas de saírem de suas casas, Modi se reuniu com altos executivos de veículos de imprensa e os exortou a publicar “reportagens positivas e inspiradoras” sobre os esforços do governo.

Então, quando o lockdown deixou mais de meio milhão de trabalhadores migrantes sem ter para onde ir, com alguns deles morrendo à beira de rodovias, seus advogados convenceram a Suprema Corte esta semana a ordenar que toda a imprensa “publique a versão oficial” dos fatos relativos ao coronavírus, embora os veículos ainda estejam autorizados a realizar reportagens independentes.

Uma associação das maiores emissoras elogiou a decisão da corte, que, para muitos intelectuais, constituiu mais um ataque à liberdade de expressão consagrada na Constituição indianana.

Falando por meio de um assessor, o ministro indiano da Informação, Televisão e Rádio, Prakash Javadekar, concordou inicialmente em discutir as políticas de mídia do governo.

Mas, nas duas semanas passadas desde então, Javadekar vem se recusando a responder a qualquer pergunta, inclusive uma lista de perguntas por escrito que lhe foi enviada por email. Seu assessor justificou a recusa citando a sobrecarga de trabalho decorrente da crise de coronavírus.

Primeiro-ministro indiano, que tem cabelo e barba brancos, está sendo em frente à tela conversando com líderes
Primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, discute pandemia de Covid-19 em videoconferência com líderes do G20 - AFP

O universo de mídia indiano é imenso, possivelmente o maior do mundo: abrange mais de 17 mil jornais, 100 mil revistas, 178 canais de televisão dedicados ao jornalismo e inúmeros sites em dezenas de línguas. Milhares de páginas do Facebook se descrevem como publicadoras de notícias, e o YouTube está cheio de boletins noticiosos locais sobre tudo, desde tendências do mercado imobiliário até operações policiais.

Mas os ministros de Modi vêm fazendo pressão sobre empresários para que cortem o apoio à imprensa independente, sufocando suas operações aos poucos. Seu governo pressiona os donos de veículos de imprensa para demitirem jornalistas que criticam o primeiro-ministro e os manda parar de publicar seções que causam constrangimento ao partido de Modi, como as seções que contabilizam os crimes de ódio.

Modi tem o apoio de um exército de aliados online que assediam jornalistas independentes e procuram desacreditá-los. Jornalistas mulheres, em especial, são alvos de enxurradas de insultos e ameaças de estupro. E a polícia diz que nacionalistas hindus estiveram por trás do assassinato em 2017 de Gauri Lankesh, editora de jornal que era saudada como uma das jornalistas mais politicamente engajadas do país.

Como outros líderes populistas, Modi e seus ministros reagem mal a qualquer crítica pública, quer venha de empresários, líderes estrangeiros ou até mesmo crianças em idade escolar.

E os veículos de imprensa indianos têm, na maioria, se sujeitado às restrições, concluindo que, como boa parte da população apoia o primeiro-ministro, eles devem fazer o mesmo. Mesmo jornalistas céticos se autocensuram, com medo de serem tachados de antinacionais por um governo que equaciona o patriotismo com o apoio a Narendra Modi.

Seu governo também vem impondo as restrições mais rígidas em décadas a jornalistas estrangeiros, repentinamente e sem explicações. A concessão de vistos a eles foi dificultada, e jornalistas estrangeiros têm sido impedidos de chegar a áreas conturbadas como o nordeste do país e a região de Jammu e Caxemira, de maioria muçulmana, que em agosto do ano ano passado foi destituída da condição de Estado e submetida a forte repressão.

A história da Caxemira foi sísmica, mas muitos jornalistas indianos, olhando em retrospectiva, acham que seguiram a linha imposta pelo governo e passaram por cima de graves violações dos direitos humanos.

O modelo econômico vigente na Índia não ajuda. Desde muito antes de Modi se tornar primeiro-ministro, em 2014, jornais e emissoras de TV dependem da publicidade governamental, permitindo que os políticos recompensem veículos que os tratam bem e punam os que seguem uma linha crítica.

E os publishers de mídia frequentemente também comandam outros negócios para os quais precisam estar nas boas graças do governo. Com isso, relutam em enfrentar quem está no poder.

Com o coronavírus prejudicando os anúncios e levando à queda da circulação de jornais, as organizações de imprensa estão entrando em crise. Um dos veículos mais independentes da Índia, The Indian Express, acaba de tomar a decisão de reduzir os salários de seus profissionais.

Apesar de Narendra Modi constantemente apresentar a Índia como sendo a maior democracia do mundo, ela ocupa a 140ª posição no índice de liberdade de imprensa da entidade Repórteres Sem Fronteiras, de um total de 180 países.

Nenhum canal de TV tem sofrido mais pressão do governo de Modi do que a NDTV, uma rede influente que vai ao ar em inglês e hindi. O rancor de Modi em relação à emissora remete a 2002, quando ele era ministro-chefe do Estado de Gujarat, e jornalistas da NDTV noticiaram que seu governo se absteve de agir enquanto centenas de muçulmanos eram massacrados em atos de violência de motivação religiosa.

Quando Modi se tornou o primeiro-ministro, seu governo lançou um ataque frontal à NDTV. O governo a acusou de lavar dinheiro por meio de um acordo com a rede de TV americana NBC. As acusações se arrastam há anos. A NDTV nega ter cometido qualquer irregularidade.

“A questão é que na Índia você pode mover uma ação e só ganhá-la dez anos mais tarde”, disse um dos fundadores da emissora, Prannoy Roy. “O próprio processo é o castigo.”

O esforço para retratar a NDTV como sendo antipatriótica tem sido devastadoramente eficaz. Em um e-mail enviado em novembro de 2016, a Daimler, fabricante de automóveis de luxo, disse à emissora que não levaria adiante uma campanha de marketing com ela “porque há pessoas associadas ao canal que o grande público vê como estando ligadas a ações contra a Índia”.

Uma porta-voz da Daimler disse na sexta-feira que o e-mail não reflete a posição da empresa e que a campanha publicitária foi rejeitada por razões econômicas.

Com o dinheiro secando, a emissora demitiu centenas de jornalistas. Hoje boa parte da publicidade veiculada na NDTV vem de governos estaduais, muitos dos quais controlados por partidos oposicionistas.

“Permanecer firmes do lado do governo nacional”

Muitos atores do universo da imprensa indiana abraçaram Modi, percebendo que a opinião popular se afastou muito do secularismo fundador do país e se aproximou do estridente nacionalismo hindu promovido por Modi. Âncoras de TV de direita, liderados por Arnab Goswani, da Republic TV, competem para superar um ao outro como os partidários mais declarados de Modi.

Quando o governo anunciou a repressão na Caxemira, M.K. Anand, diretor gerente da Times Network, enviou uma diretiva a seus editores.

“Somos a maior emissora de jornalismo da Índia”, ele escreveu numa mensagem de WhatsApp à qual o New York Times teve acesso. “É importante permanecermos firmes ao lado do governo nacional neste momento, em vez de buscar apontar suas falhas.”

O governo de Modi se preocupa especialmente com a televisão e o rádio, que alcançam todos os cantos do país. Ele aprovou muito poucos novos canais de TV, e mesmo a gigante americana Bloomberg não conseguiu obter uma licença para operar no país, apesar de ter investido milhões de dólares em sua parceira indiana.

Nesse ambiente, qualquer crítica acirrada feita a Modi é capaz de assinalar o fim da carreira de um jornalista. Quando um apresentador do canal de jornalismo em hindi ABP questionou os resultados de uma das iniciativas do premiê para ajudar agricultores pobres, a transmissão por satélite do programa passou a ser interrompida cada vez que ia ao ar, segundo várias pessoas que trabalharam na emissora. Os proprietários da emissora pressionaram o apresentador em questão, Punya Prasun Bajpai, a pedir demissão.

Assim que ele deixou seu cargo, as transmissões deixaram de ser interrompidas, disseram os ex-funcionários. E quando outro âncora da ABP, Abhisar Sharma, fez críticas a Modi na televisão ao vivo sobre questões de segurança pública, ele foi tirado do ar no mesmo dia. Sharma disse que também ele foi pressionado a pedir demissão.

Jornalistas de cidades menores também são atacados pelo governo

Em agosto, Pawan Kumar Jaiswal, jornalista em regime de tempo parcial e gerente de uma pequena loja de acessórios para telefones celulares, publicou um furo de reportagem revelando que alunos pobres de uma escola próxima a Varanasi, a base eleitoral parlamentar de Modi, estavam recebendo apenas pão e sal como merenda escolar –uma violação clara das normas nutricionais do governo.

Depois que seu vídeo curto viralizou, um funcionário do departamento de Educação do Estado registrou uma queixa contra Jaiswal, acusando-o de conspiração, evidência falsa e fraude, crime que pode ser punido com até sete anos de prisão.

A fonte do jornalista na escola foi presa imediatamente. Temendo ser o próximo a ser detido, Jaiswal fugiu para Nova Déli, onde passou semanas escondido.

“Houve momentos em que tive vontade de cometer suicídio”, contou.

Uma investigação acabou confirmando o teor de sua reportagem, e a polícia arquivou as acusações contra ele, mas Jaiswal disse que ainda é perseguido por pessoas ligadas à escola.

Ele tem razões para ter medo. Vários jornalistas indianos foram assassinados nos últimos anos, desde o editor de um jornal da Caxemira baleado diante de seu local de trabalho até um jovem jornalista de Chhattisgarh encontrado amarrado numa floresta.

“Essa é a vida de um repórter local”, disse Jaiswal.

Tradução de Clara Allain

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