Descrição de chapéu Coronavírus

Mais de 5.000 brasileiros ainda aguardam repatriação no exterior

Na Itália, há turistas sem poder sair da 'zona vermelha' e outros com Covid-19 dentro de navio

Viçosa (MG)

Mais de 5.000 brasileiros ainda aguardam no exterior a possibilidade de voltar ao Brasil em meio à pandemia de Covid-19. Segundo o Itamaraty, 13.100 pessoas já foram repatriadas desde o dia 21 de março e 5.500 continuam retidas, espalhadas por 80 países.

Fronteiras fechadas e voos cancelados são os principais impedimentos. Na Itália, por exemplo, um dos países com mais casos e mortes por coronavírus no mundo, 260 brasileiros não residentes pediram ajuda do consulado e da embaixada para conseguir retornar.

Ainda há voos comerciais partindo de lá para o Brasil, com escalas em Amsterdã e Frankfurt, mas as companhias aéreas não garantem a viagem, e muitos que já tiveram seus voos cancelados temem que aconteça novamente.

Outros não têm mais dinheiro para comprar uma nova passagem, e há ainda os que estão em cidades menores, sem aeroporto, e não conseguem sair delas devido ao lockdown.

A brasileira Ligia Cossina, que está em quarentena com o marido no navio Costa Victoria
A brasileira Ligia Cossina, que está em quarentena com o marido no navio Costa Victoria - Arquivo pessoal

Um grupo de 17 brasileiros decidiu arriscar e comprar novas passagens passando por Frankfurt. “Vamos sem nenhuma garantia de que vai dar certo”, diz a jornalista Beatriz Campilongo, 26.

“O que queríamos não era voltar de graça. Era um suporte do consulado, uma garantia de que conseguiríamos sair em um voo para o Brasil. Mas eles sempre dão as mesmas respostas, pedem para a gente preencher formulários e dizem que ainda tem voos operando. Só que estão todos sendo cancelados.”

O Itamaraty afirma que segue buscando soluções para os brasileiros no exterior e que aqueles que comprovarem carência de recursos podem solicitar ajuda ao consulado ou à embaixada em sua região.

Sobre a Itália, informou que está ciente das “severas restrições de movimentação no interior do país e normas estritas de isolamento social em vigor, o que reduz o leque de opções disponíveis para a repatriação”.

“A situação está sendo considerada e continuamos a explorar todas as possibilidades que permitam a repatriação dos brasileiros.”

Um dos que enfrentam essa dificuldade é o engenheiro Érico Zini, 41, que está com a esposa em Medicina, cidade na chamada “zona vermelha”, onde o lockdown é rigoroso. Desde meados de março eles tentam voltar, mas tiveram vários voos cancelados.

Um dos voos conseguiu decolar, mas eles não embarcaram porque, na véspera, a cidade foi fechada.

“É um lockdown total, com exército, polícia. O voo aconteceu, mas perdemos por não conseguir ir até o aeroporto.”

A quarentena, que iria até 3 de abril, agora deve durar até ao menos 3 de maio. O consulado afirmou a ele que não conseguiu autorização para que o casal fosse liberado para sair da cidade e ir ao aeroporto.

Érico diz que a esposa toma remédios que estão no fim e que os dois precisam voltar ao trabalho. O visto de turismo deles também está para vencer. “Toda essa incerteza está trazendo muitos prejuízos para nós.”

Também na Itália, há quatro brasileiros em quarentena há mais de 20 dias dentro do navio Costa Victoria atracado em Roma. Dois deles acabaram contraindo Covid-19 nesse período.

Outros seis, cujos testes para a doença foram negativos, conseguiram voltar. Uma passageira saudável ainda não pôde desembarcar, e uma outra aguarda o resultado do exame.

Com testes positivos, apesar de assintomáticos, a arquiteta de tecnologia Lígia Cossina, 36, e o marido estão isolados em duas cabines diferentes, por ordem da equipe médica.

O casal diz ter questionado várias vezes a empresa do cruzeiro sobre a segurança da viagem. “Eles informaram que estavam tomando todas as medidas de cunho sanitário e que garantiriam as paradas nos destinos. Isso nos encorajou a seguir adiante”, diz Lígia.

Para ela, passar o dia todo confinada na cabine tem sido “um pesadelo”. “Estamos sob estresse intenso. Não nos deixam sair para nada, não nos disseram quantos dias mais ficaremos aqui.”

Segundo ela, as três refeições fornecidas por dia pela empresa são colocadas no chão, em frente à porta do quarto, expostas, num corredor onde há lixo e passagem de pessoas. "Já recebemos talheres sujos, com resíduos de comida, fios de cabelo. Achamos que veio daí nossa contaminação."

Lígia reclama de que os brasileiros só foram testados para Covid-19 no 17º dia de quarentena, quando já estavam havia muito tempo expostos ao contágio.

“Eles foram priorizando grupos: os neozelandeses, por exemplo, foram testados no dia 28 de março. Pessoas de muitas nacionalidades foram desembarcadas e nós fomos sendo deixados para trás”, diz.

“Tivemos que fazer muitos apelos para a embaixada vir até nós. O Itamaraty tem se isentado da responsabilidade de nos repatriar, deixando tudo para a empresa de cruzeiros.”

O Itamaraty afirmou que o consulado em Roma está em contato com os passageiros brasileiros e que no último dia 3 um diplomata esteve no porto para conversar com eles. Informou ainda que buscou melhores condições para a quarentena no navio e que solicitou a agilização dos testes para os brasileiros.

“Cabe frisar que a repatriação de passageiros de navios é de responsabilidade da empresa de cruzeiros, que tem colaborado com o governo brasileiro”, diz a nota.

A Costa Cruzeiros afirmou que tem trabalhado com autoridades italianas e com representantes diplomáticos para obter um retorno seguro para os hóspedes.

"Precisamos seguir as diretrizes fornecidas pelas autoridades de saúde italianas, que realizam exames de saúde constantes a bordo, juntamente com a equipe médica a bordo", diz a nota.

Sobre o caso de Ligia e Thiego, diz que segue os protocolos das autoridades e os procedimentos de saneamento indicados por diretrizes internacionais.

"Os dois brasileiros estão isolados em cabines com varanda e serviço de quarto e estão sendo monitorados e atendidos pela equipe médica a bordo."

Não foi informado quando os infectados poderão sair do navio.

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