Burocracia atrapalha milhares de voluntários que se dispõem a ajudar em hospitais de NY

Cadastros confusos e falta de respostas são comuns a quem quer trabalhar na pandemia de coronavírus

Nicole Hong
The New York Times

Em março, quando o governador Andrew Cuomo pediu que profissionais médicos de todo o país viessem a Nova York para participar da luta contra o coronavírus, Bevin Strickland se dispôs a ajudar.

Ex-enfermeira de uma UTI pediátrica em High Point, na Carolina do Norte, Strickland passou horas tentando se cadastrar online como voluntária. Enviou e-mails a vereadores e deputados. E nunca teve um retorno.

Frustrada, ela entrou em contato com o hospital Mount Sinai Queens, em Nova York. Um gerente a orientou a procurar uma agência particular de recrutamento que o hospital usa há anos para contratar funcionários temporários.

Em dois dias, Strickland, 47, recebeu seu chamado ao trabalho. Ela começou nesta semana a trabalhar na emergência do hospital, ganhando US$ 3.800 (R$ 19.500) por semana por três turnos semanais de 12 horas cada, em vez de trabalhar gratuitamente, como tinha sido sua intenção original.

“Não me parece certo eu estar ganhando dinheiro nesta situação”, disse Strickland, que é doutoranda em anestesia em enfermagem. “Não quero que o hospital pague a agência de recrutamento por meu trabalho.”

Funcionários transportam corpo de paciente para um caminhão refrigerado no Brooklyn - David Dee Delgado/Getty Images/AFP

Até quarta-feira (8), mais de 90 mil profissionais médicos aposentados e ativos haviam se cadastrado online para trabalhar como voluntários no epicentro da pandemia, informou o gabinete do governador, incluindo 25 mil de fora do estado.

Mas colocar todos esses voluntários para trabalhar vem sendo outra história.

Até quarta, os hospitais de Nova York haviam chamado apenas 908 voluntários para trabalhar, segundo autoridades de saúde da prefeitura.

A necessidade urgente de profissionais bate de frente com a burocracia intransigente dos regulamentos hospitalares e de um sistema de saúde sobrecarregado. Vários voluntários descreveram um processo confuso que envolveu demoras em obter respostas e cadastramento em sites com problemas.

O gabinete do governador disse que reuniu uma equipe de 175 advogados e outros profissionais para verificar as licenças e o histórico disciplinar dos voluntários antes de encaminhá-los para hospitais.

Funcionários do governo estadual disseram que o portal de voluntários, criado especialmente para esse fim, ficou sobrecarregado com o volume de respostas, mas que, em duas semanas, já colocou cerca de 10 mil voluntários em contato com hospitais do estado de Nova York.

Jim Malatras, reitor do SUNY Empire State College, está ajudando Cuomo no esforço para mobilizar o pessoal médico. Ele pediu paciência aos voluntários. Segundo ele, alguns estão tão ansiosos por ajudar que comparecem a hospitais sem terem recebido tarefas ou orientações específicas.

“Apreciamos profundamente as pessoas que estão fazendo mais do que seria seu dever para colaborar”, disse Malatras. “Mas isto é uma maratona, não uma corrida de velocidade. Talvez não os chamemos nesta semana, mas daqui a três semanas podemos precisar de pessoal para ajudar.”

Malatras disse que, de um total de 90 mil voluntários potenciais, apenas algumas centenas foram excluídas por problemas disciplinares.

O prefeito de Nova York, Bill de Blasio, disse na semana passada que “relativamente poucos” dos voluntários já haviam começado a trabalhar em hospitais porque muitos deles não estão qualificados para atuar nas UTIs, que transbordam de pacientes com coronavírus.

Ele pediu um esforço de recrutamento nacional de médicos, dizendo que a cidade precisa de mais 45 mil profissionais.

Depois que o estado coloca hospitais em contato com voluntários, as instalações médicas passam a ser responsáveis pelo treinamento e credenciamento.

A dificuldade de fazer a triagem de tantos profissionais médicos abriu uma oportunidade para as dezenas de agências particulares já conhecidas que colocam enfermeiros e médicos temporários em hospitais de todo o país —como a agência à qual Bevin Strickland recorreu.

Essas agências de profissionais terceirizados, um setor que movimenta US$ 18 bilhões (R$ 92 bi), disseram que, diferentemente do estado, já possuem tecnologia e infraestrutura prontas para verificar rapidamente as credenciais dos profissionais de saúde.

Em tempos normais, os hospitais contratam esses profissionais terceirizados para suprir carências de curto prazo, como por exemplo durante a temporada normal de gripe.

“Por mais que seja ótimo que o estado esteja querendo ajudar, a colocação de um profissional médico é um processo muito complexo”, disse Alexi Nazem, executivo-chefe da Nomad Health, agência de recrutamento de saúde sediada em Nova York. “Há dezenas de documentos que precisam ser verificados.”

Nazem contou que na semana passada um hospital de Nova York pediu à sua agência para providenciar 300 enfermeiros imediatamente —30 vezes mais que um pedido normal.

Para garantir a segurança dos pacientes, os novos funcionários de hospitais geralmente precisam cumprir uma longa lista de requisitos que incluem exames para averiguar uso de drogas, referências de trabalho, histórico de práticas inadequadas e certificação de habilidades.

Para acelerar o processo, Cuomo abriu mão de alguns dos requisitos, por exemplo autorizando profissionais de saúde licenciados em qualquer estado a trabalhar temporariamente em Nova York sem uma licença local.

Os hospitais pagam às agências recrutadoras, que descontam uma comissão e remuneram o restante aos profissionais médicos. As agências geralmente pagam diárias de alojamento e transporte aos temporários, além de seu seguro-saúde e contra negligência médica.

Agora, alguns hospitais estão oferecendo pagar “honorários de crise” de até US$ 130 por hora (R$ 667) a enfermeiros, mais que o dobro do valor normal, disseram recrutadores.

Os hospitais públicos da cidade de Nova York haviam usado agências particulares para conseguir 3.600 profissionais médicos novos até o final da semana passada e, segundo o prefeito, queriam contratar outros 3.600.

Os funcionários regulares dos hospitais dizem estar gratos pelos reforços, mas alguns médicos residentes e enfermeiros manifestaram frustração com as disparidades salariais.

Uma enfermeira no hospital NewYork-Presbyterian contou que ela e outros enfermeiros pediram um adicional de risco além de seu salário normal de US$ 56 (R$ 287) por hora, porque estão trabalhando com um número crescente de pacientes com Covid-19. O hospital anunciou na semana passada um abono único de US$ 1.250 (R$ 6.415).

“É melhor do que nada, mas ainda parece pouco em comparação com o que ganham os enfermeiros das agências”, disse a enfermeira, que pediu anonimato.

Enquanto mais profissionais da linha de frente adoecem, os hospitais vêm fazendo tudo que podem para preencher essas vagas. Estão reencaminhando outros médicos para trabalhar nos setores de emergência. Estudantes de medicina estão se graduando antes do tempo previsto para ajudar.

Mesmo assim, dezenas de milhares de voluntários aguardam ansiosamente para cooperar.

Julia Ruiz, enfermeira num consultório particular de cirurgia plástica, vive no Upper East Side de Manhattan, a dez minutos a pé do hospital mais próximo.

Ela respondeu a três e-mails do governo estadual de Nova York com o mesmo questionário para voluntários. Voltou a se cadastrar na semana passada, quando o prefeito enviou um alerta a celulares na cidade, pedindo profissionais médicos.

Na quarta, quase três semanas depois de ela ter se voluntariado inicialmente, um representante estadual telefonou para lhe perguntar sobre suas qualificações, incluindo se ela sabe intubar pacientes.

Ruiz ainda não recebeu uma colocação como voluntária.

Ela disse que agências particulares a estão inundando com ofertas de trabalho remunerado, à medida que os valores pagos em todo o país vêm subindo e que cresce a concorrência por profissionais qualificados. Uma agência lhe disse que, por motivos fiscais, a empresa lhe pagaria mais se ela fosse trabalhar longe de casa em um estado como o Tennessee, em vez de Nova York.

“Estou tentando não fazer isto para lucrar em cima”, disse Ruiz, 38. “Me deem trabalho. Eu não poderia estar mais perto. O que eu faço, simplesmente me apresento num hospital?”

Bevin Strickland chegou a Nova York na noite de domingo. Ela contou que em seus dois primeiros dias no hospital, duas outras enfermeiras de fora do estado se demitiram, sentindo-se sobrecarregadas.

Antes de deixar a Carolina do Norte, ela tentou reconfortar seus filhos gêmeos de 16 anos. Um deles disse ter medo que ela morra. Strickland disse que, se isso acontecer, ela quer que seus filhos saibam que ela já viveu uma vida plena e abençoada.

“Acredito que esta vida não se resume a fazer o que é bom para nós mesmos”, explicou. “Penso em todos os enfermeiros que não têm escolha senão comparecer ao trabalho. Se eu puder ajudá-los a não ficarem tão esgotados, terá valido a pena vir para cá.”

Tradução de Clara Allain 

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