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Latino América 21 Coronavírus

O coronavírus e a globalização

Vírus obrigou sociedades a refletir sobre a responsabilidade coletiva e a apreciar cada momento fugaz de vida

Julio Echeverría
Latino América 21

O coronavírus é um fenômeno mundial e atua como agente que contamina o conjunto do sistema, e se transmite com muita eficiência e com uma taxa e crescimento exponencial. O que inicialmente foi uma epidemia localizada na região de Wuhan, China, progressivamente se expandiu e se converteu em pandemia de difícil controle para os sistemas nacionais de saúde pública.

O lugar de origem do vírus diz muito sobre a globalização: uma sociedade onde convivem a maior dinâmica econômica do planeta e práticas tradicionais das populações em seu relacionamento com os bosques e espécies silvestres; mercados onde essas espécies são vendidas, situados em cidades com milhões de habitantes e interconectadas com o planeta.

Wuhan, o ponto de origem do vírus, é um alerta sobre a explosão incontrolável de efeitos que resulta de práticas de relacionamento com os bosques primários, e com a caça de animais silvestres que no passado podia ser sustentável, mas hoje, impelida pela urbanização acelerada e pela concorrência exacerbada, gera desastres mundiais.

O sistema hierárquico de autoridade que caracteriza a civilização tradicional chinesa se reordenou em sua forma atual, um regime disciplinador que combina autoridade e mercado em uma lógica de concorrência agressiva com as economias ocidentais, o que catapultou a China ao posto de segunda maior economia do planeta, abaixo dos Estados Unidos, na corrida geopolítica da economia mundial. Mas a lógica do autoritarismo vem sendo eficiente para o crescimento exponencial da economia chinesa e, se esta foi a plataforma ideal para a expansão da pandemia, também o foi na hora de enfrentá-la: grande capacidade de comandar as operações de reclusão e confinamento de vastas áreas geográficas, e de cidades imensas; grande capacidade de resposta, em termos de construção de infraestrutura e da disciplina que esse tipo de operação requer.

Os últimos números quanto a contágios e mortes retratam a China como vencedora da luta contra o coronavírus. Enquanto isso, em seu avanço pelo planeta, outros Estados encontraram sérias dificuldades no combate à epidemia.

A Europa, o continente que consolidou os estados de bem-estar social, agora caiu vítima de seu desmantelamento e, com eles, dos sistemas sanitários de prevenção e controle que eram parte do aparato. Os fortes vínculos entre a Europa e a China estão por trás da velocidade com que a epidemia chegou, sem ser percebida, a países como Itália, Espanha, França e Alemanha, e se estendeu deles ao restante do planeta.As estratégias menos dirigistas tampouco se provaram bem sucedidas, diante desse desafio.

Distanciando-se cada vez mais da Europa, o Reino Unido tentou inicialmente medidas que deixavam mais espaço para a liberdade e responsabilidade individual, com o fim de não afetar o funcionamento da economia e dos mercados, mas posteriormente adotou uma virada radical na direção de restrições mais vigorosas, quando o país se conscientizou da magnitude da ameaça.

Do outro lado do oceano, a estratégia americana demonstrou sérias ambiguidades; com uma eleição presidencial iminente, o governo perdeu tempo valioso antes de tomar medidas contundentes, permitindo que os estados e municípios mais afetados agissem de maneira desesperada e sem respaldo do governo federal. Se somarmos a isso o acesso limitado da população ao sistema de saúde e a exclusão de uma porção ampla da população, que vive no país ilegalmente, um desenlace catastrófico é previsível.

O vírus demorou a chegar à América Latina. Enquanto o foco da infecção estava na China, não apareceram casos na região A situação mudou quando o vírus se ativou nos países europeus com os quais a região mantém intenso intercâmbio. A multiplicação acelerada de casos confirmados forçou a implementação progressiva de medidas de restrição à entrada de pessoas vindas do exterior, e de reclusão domiciliar para segmentos importantes da população.

A opção por essas medidas radicais pode ser atribuída ao temor de colapso de sistemas de saúde pública historicamente frágeis e afetados pelos ciclos fiscais restritivos das últimas décadas. Essas condições extremas estão obrigando os países a combinar estratégias de “distanciamento social” a uma identificação mais fina de territórios nos quais o fenômeno apresenta maior incidência e as medidas de contenção podem ser mais eficazes.

Mais que erradicar o vírus, os sistemas de saúde terão de tomar por foco a observação da evolução da enfermidade, governar sua presença e orientar comportamentos coletivos que reduzam seus efeitos nocivos. Afinal, a humanidade sempre conviveu com vírus e bactérias, e deve continuar a fazê-lo, mas agora a dimensão mundial dos intercâmbios sociais exige mais ciência e conhecimentos para interagir com eles, mais solidariedade e capacidade de acordo, tanto dentro dos Estados quanto entre eles, com o objetivo de potencializar verdadeiros sistemas de governança local e mundial.

É possível que a estratégia dirigista chinesa se afirme progressivamente, na luta contra a pandemia. Ainda assim, isso não deveria nos levar a esquecer que as verdadeiras causas da produção de pandemias estão nos modelos predatórios e insustentáveis de relacionamento com os ecossistemas.

A pandemia se provou capaz de deter o ritmo desenfreado de atividade econômica que a sobrevivência da humanidade requer, mas seus efeitos sobre a capacidade cotidiana de produção de grandes grupos populacionais foram fome e pobreza. O coronavírus obrigou sociedades e indivíduos a se reposicionarem dolorosamente, e a refletir sobre a responsabilidade coletiva de viver em mundo frágil, e apreciar cada momento fugaz de vida. Estamos seguramente diante de uma transformação radical de nosso entendimento da vida individual e coletiva, e com isso do destino mesmo da globalização.

Tradução de Paulo Migliacci

Julio Echeverría é sociólogo e professor da Universidade Central do Equador (Quito). Doutor em sociologia pela Università degli Studi di Trento, Itália. Especialista em análise política e institucional, sociologia da cultura e urbanismo.

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