Por que os novos controles de coronavírus adotados na Ásia devem preocupar o mundo

Por medo de aumento nos casos, países voltaram a introduzir restrições a viagens

Motoko Rich
The New York Times

Os voos internacionais foram tão fortemente reduzidos na China que estudantes chineses no exterior não sabem se conseguirão voltar a seu país.

Em Singapura, cidadãos que retornaram recentemente são obrigados a compartilhar com as autoridades os dados de localização geográfica de seus telefones, diariamente, para provar que estão cumprindo a quarentena imposta pelo governo.

Em Taiwan, um homem que viajara ao sudeste da Ásia foi multado em US$ 33 mil (R$ 173,4 mil) por ter saído para um clube quando deveria estar em isolamento em casa. Em Hong Kong, uma garota de 13 anos, flagrada num restaurante usando uma pulseira de monitoramento de pessoas em quarentena, foi seguida, filmada e posteriormente humilhada online.

Em toda a Ásia, países e cidades que parecem ter controlado a epidemia do coronavírus estão de repente intensificando os controles de suas fronteiras e impondo medidas de contenção mais rígidas, temendo uma onda de novas infecções importadas de outros lugares.

Passageiro usa máscara e traje protetor para fazer check-in no aeroporto internacional Incheon, em Seul, na Coreia do Sul
Passageiro usa máscara e traje protetor para fazer check-in no aeroporto internacional Incheon, em Seul, na Coreia do Sul - Jung Yeon-je - 17.mar.20/AFP

As iniciativas são um indício preocupante para os Estados Unidos, Europa e o resto do mundo, que ainda combatem uma pandemia crescente: o êxito de qualquer país na contenção da pandemia pode ser tênue, e o mundo pode permanecer em uma espécie de quarentena por tempo indeterminado.

Mesmo quando o número de casos novos começar a cair, as barreiras ou proibições de viagem vão continuar presentes em muitos lugares enquanto não for encontrado um tratamento ou uma vacina contra o coronavírus. Se isso não for feito, há o risco de a infecção ser reintroduzida nesses países, especialmente em vista do grande número de pessoas assintomáticas, que podem ser portadoras do vírus sem saber.

Nos últimos dias, após um aumento recente nos casos ligados a viajantes internacionais, China, Hong Kong, Singapura e Taiwan proibiram por completo a entrada de estrangeiros em seu território. O Japão barrou a entrada de viajantes da maior parte da Europa e estuda a possibilidade de estender a medida para outros países, incluindo os Estados Unidos.

A Coreia do Sul impôs controles mais rígidos, obrigando estrangeiros que chegam ao país a fazer 14 dias de quarentena em instalações do governo assim que chegam.

“Os países já vêm tendo dificuldades em implementar suas próprias soluções domésticas, e soluções domésticas são insuficientes para um problema de saúde transnacional”, explicou Kristi Govella, professora assistente de estudos asiáticos na Universidade do Havaí em Manoa.

“Mesmo no caso dos países que vêm tendo relativo sucesso no controle da pandemia, sua segurança é vulnerável ao elo mais fraco do sistema”, disse ela, explicando que, na ausência de cooperação entre os países, “o fechamento das fronteiras é uma das maneiras em que os governos individuais conseguem controlar uma situação”.

O coronavírus emergiu na Ásia e se propagou para o Ocidente, mas agora corre o risco de voltar à Ásia. Quando se viram em novos epicentros da pandemia, cidadãos preocupados com o coronavírus na Europa e nos Estados Unidos correram de volta a seus países de origem.

Quase imediatamente, países e cidades da Ásia começaram a assistir a um novo aumento dos casos, frequentemente detectando passageiros infectados quando passavam pelas verificações de saúde dos aeroportos. Hong Kong, onde os novos casos haviam caído para menos de dez por dia, de repente viu esse número subir para até 65 em um dia.

No Japão, onde as infecções estavam relativamente controladas, os casos de coronavírus começaram a aumentar em Tóquio quando viajantes retornaram do exterior no mês passado.

Para tentar frear o fluxo de infecções, os governos fecharam suas fronteiras.

A Coreia do Sul, elogiada mundialmente por ter achatado a curva rapidamente após um explosivo pico inicial nas infecções, inicialmente exigiu que os passageiros vindos de alguns países fizessem quarentena. Esta semana o país ampliou sua lista para abranger passageiros de todo o mundo.

O Japão começou a obrigar viajantes a fazer quarentena, mas agora passou a proibir simplesmente a entrada de passageiros vindos de quase toda a Europa. O país discute a possibilidade de emitir mais proibições, incluindo viajantes dos Estados Unidos.

China, Hong Kong, Singapura e Taiwan simplesmente fecharam suas fronteiras a virtualmente todos os estrangeiros.

“Acreditamos que, sob a situação atual da epidemia, minimizar as atividades desnecessárias de entrada e saída do país é uma medida responsável e necessária para proteger a vida, segurança e saúde física de todos chineses e estrangeiros”, disse Liu Haitao, diretor-geral de controle de fronteiras da Administração Nacional de Imigração chinesa.

Mesmo alguns residentes nesses países vêm tendo dificuldade em voltar para casa. Na China continental, onde os líderes estão ansiosos por declarar o fim do pior da pandemia que começou em seu território, os novos controles de fronteira obrigaram a maioria das companhias aéreas estrangeiras a reduzir seus voos para um por semana. Os preços das passagens subiram vertiginosamente, e as reservas são canceladas constantemente.

Alex Fei, estudante chinês em uma universidade do Canadá, está tendo dificuldade em retornar. Seus voos foram cancelados duas vezes –uma quando Hong Kong proibiu escalas em seu território e outra vez quando a companhia aérea suspendeu o voo direto de Vancouver a Xangai.

Fei disse que talvez não tenha escolha senão permanecer no Canadá. “Não há nada que estudantes estrangeiros possam fazer no momento”, disse ele.

Os cidadãos que retornam à Ásia muitas vezes são postos sob vigilância estreita enquanto cumprem suas quarentenas. Em alguns casos, os governos vêm usando ferramentas do sistema penal para implementar as quarentenas.

Cidade chinesa semiautônoma, Hong Kong conseguiu conter seu surto inicial de coronavírus com a adoção imediata de medidas como o fechamento das escolas e repartições públicas e a imposição de restrições à entrada de chineses do continente.

Mas quando estudantes e cidadãos no exterior se apressaram para voltar da Europa e dos Estados Unidos, em março, as autoridades avisaram que uma nova onda de casos importados de coronavírus estava sobrecarregando os hospitais. Em 19 de março a líder de Hong Kong, Carrie Lam, proibiu a entrada de qualquer não residente na cidade, e os residentes que retornam são testados ao desembarcar.

Eles têm que fazer quarentena de 14 dias em casa, usando pulseiras de monitoramento, e seus deslocamentos são monitorados com um app de smartphone. Lam disse que mais de 200 mil pessoas estão nessa situação.

A tecnologia é uma ferramenta fundamental para implementar as quarentenas.

Na China, as pessoas que retornam ao país passam 14 dias em hotéis designados pelo governo e duas vezes por dia transmitem a medição de sua temperatura a comitês de bairro através do serviço de mensagens WeChat.

Em Taiwan, o governo utiliza o rastreamento geográfico de celulares, somado a um pouco de trabalho policial à moda antiga: se as pessoas saem de casa ou desligam o telefone, policiais as procuram em casa.

Filia Lim, 50, disse que as medidas de quarentena em Singapura são “uma dor de cabeça”, porque ela costuma circular extensamente para realizar seu trabalho na área de recusos humanos. Mas disse que fica grata pelo fato de Singapura monitorar tão fortemente as pessoas que retornam.

“O vírus se propagou principalmente porque as pessoas não percebem que têm sintomas ou, em alguns casos, porque simplesmente optaram por ignorar esses sintomas e interagiram com muita gente, apesar das recomendações de autoisolamento dadas pelo governo”, disse ela.

Para quem descumpre a quarentena, os castigos podem ser pesados. Um cidadão de Singapura de 53 anos que infringiu a ordem teve seu passaporte cancelado, disseram no domingo as autoridades de imigração.

O Japão afirma oficialmente que quem infringe a quarentena pode cumprir até seis meses de prisão ou pagar multa de até 500 mil ienes –cerca de US$ 4.600, ou R$ 24.148.

Mas o governo japonês confia na palavra das pessoas em quarentena. Quando japoneses retornam de países que estão na lista dos proibidos, eles assinam uma promessa comprometendo-se a permanecer no mesmo lugar por 14 dias e não usar os transportes públicos. Se precisam sair de casa para comprar comida, são orientados a usar máscara e “ir rápido”.

Sean Sierra, 30, oficial subalterno da Marinha americana na base naval de Yokosuka, no Japão, diz que não vê quando as medidas podem acabar. Depois de ser enviado recentemente para um navio em Singapura, foi obrigado a fazer 14 dias de quarentena quando voltou ao Japão.

Ele já cumpriu seu período de isolamento, mas agora todos os militares da base receberam ordens de se autoisolar onde estão. “Vamos ficar parados aqui por um bom tempo”, comentou Sierra. Ele contou que sua sogra faria uma visitar em 15 dias, mas que a quarentena “acabou com quaisquer planos”.

Tradução de Clara Allain

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