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Depoimento

Primavera na Coreia do Sul atiça jovens a burlarem regras de distanciamento

Parques lotados e filas em restaurantes têm causado apreensão a agentes públicos do país

Thiago Mattos Moreira
Seul

A convite da Folha, seis pessoas que moram na Ásia contam como a região está enfrentando a pandemia de coronavírus.

Depoimentos de Japão, China, Taiwan, Hong Kong, Tailândia e este, da Coreia do Sul, descrevem os diferentes controles adotados pelos governos locais e como os moradores estão tentando manter a rotina sob as novas regras.

A chegada da primavera na Coreia do Sul, normalmente uma época de celebração pelo fim do rigoroso inverno e pelo desabrochar das cerejeiras, tem causado grande apreensão aos agentes públicos do país.

Devido ao clima mais ameno, número cada vez maior de sul-coreanos, especialmente jovens, têm burlado as recomendações de quarentena e distanciamento social estabelecidas pelo governo, lotando parques e fazendo fila em restaurantes.

Muitos são estimulados pelo quadro razoavelmente otimista apresentado pelo país nas últimas semanas.

Jovem posa para foto próximo a cerejeita em Seul, capital da Coreia do Sul
Jovem posa para foto próximo a cerejeira em Seul, capital da Coreia do Sul - Kim Hong-Ji - 1.abr.20/Reuters

Pelo 22º dia consecutivo, a Coreia do Sul, elogiada em todo o mundo por sua política de testes em grande escala e de transparência na divulgação de informações sobre a doença, registrou números de novas infecções diárias na faixa de 100 pacientes ou menos.

O feito é impressionante, ainda mais considerando que a Coreia do Sul chegou a identificar mais de 900 casos do vírus em um único dia no início de março.

Além do controle do aumento de novos pacientes da Covid-19, a taxa de letalidade se mantém inferior a 1,7%. Até o momento, 174 já morreram no país devido ao vírus, segundo dados compilados pela Universidade Johns Hopkins até o fim da tarde de sexta-feira (3)

As autoridades de saúde, no entanto, temem uma nova ascensão brusca no número de infecções, uma vez que o coronavírus ainda não teve ondas expressivas na maior parte dos principais centros urbanos da Coreia do Sul, tais como Seul, que abriga a maior população do país.

De um total de 10 mil pacientes, mais da metade dos casos registrados estão localizados na cidade de Daegu e redondezas, que abriga menos de 30% do número de habitantes da capital.

Desde o começo da pandemia, o governo optou por não realizar bloqueios, nem ordenar o fechamento de estabelecimento comerciais, nem a reclusão forçada de indivíduos saudáveis, confiando na participação voluntária dos cidadãos na prevenção, campanha que teve abrangente apoio e coordenação popular. Ao menos até então.

Dentre as medidas estatais tomadas para o prolongamento do distanciamento social está a implementação mandatória de aulas virtuais no ensino público do nível fundamental ao médio, uma forma de adiar o retorno presencial de jovens às escolas.

Famílias de renda baixa terão computadores para as aulas fornecidos por uma parceria público-privado entre o Ministério da Educação e empresas de tecnologia sul-coreanas.

Viajantes internacionais, tanto locais quanto estrangeiros, estão obrigados desde 1º de abril a realizar quarentena domiciliar durante 14 dias —a desobediência acarretará em punições que vão de multa de US$ 2.000 (R$ 10,6 mil) a prisão.

Até as flores de cerejeiras, tão queridas pelos sul-coreanos, tornaram-se alvo das medidas públicas de prevenção.

Para evitar a aglomeração de visitantes, o governo da cidade de Jeju, ilha turística ao sul do país, anunciou que podaria árvores do tipo em alguns de seus principais cartões postais para não provocar as habituais multidões nesta época do ano.

Pós-graduado em políticas públicas pelo Korean Development Institute, Thiago Mattos Moreira é consultor do departamento de promoção comercial da embaixada do Brasil em Seul

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