Racista, postagem de Weintraub é negativa para relação com Brasil, diz embaixada da China

'Instamos que alguns indivíduos do Brasil corrijam imediatamente os seus erros', diz nota

São Paulo

A embaixada da China reagiu no início da madrugada desta segunda-feira (6) à manifestação do ministro da Educação, Abraham Weintraub, que associou a origem da Covid-19 ao país.

"Deliberadamente elaboradas, tais declarações são completamente absurdas e desprezíveis, que têm cunho fortemente racista e objetivos indizíveis, tendo causado influências negativas no desenvolvimento saudável das relações bilaterais China-Brasil", diz nota divulgada pela embaixada nas redes sociais.

"O lado chinês manifesta forte indignação e repúdio a esse tipo de atitude."

No sábado (4), em postagem em uma rede social, o ministro usou o personagem Cebolinha, da Turma da Mônica, para fazer chacota da China.

"Geopolíticamente, quem podeLá saiL foLtalecido, em teLmos Lelativos, dessa cLise mundial? PodeLia seL o Cebolinha? Quem são os aliados no BLasil do plano infalível do Cebolinha paLa dominaL o mundo? SeLia o Cascão ou há mais amiguinhos?", escreveu o membro do gabinete do presidente Jair Bolsonaro, trocando a letra "r" por "l", assim como na criação de Mauricio de Sousa.

O ministro da Educação, Abraham Weintraub, participa do primeiro culto de Santa Ceia de 2020 da Frente Parlamentar Evangélica do Congresso Nacional - Marcelo Camargo 19.fev.20/Agência Brasil

A mudança das letras ridiculariza o sotaque de muitos asiáticos ao falar português. Junto à postagem, Weintraub colocou a capa de um dos gibis da Turma da Mônica cujo enredo se passa na China.

Depois, o ministro apagou a postagem de sua conta no Twitter.

Em resposta, a embaixada da China acrescentou ainda que a pandemia da Covid-19 está se espalhando globalmente e traz um desafio que nenhum país consegue enfrentar sozinho.

"A maior urgência neste momento é unir todos os países numa proativa cooperação internacional para acabar com a pandemia com a maior brevidade, com vistas a salvaguardar a saúde pública mundial e o bem-estar da humanidade", diz a nota.

A embaixada reforça ainda que a OMS (Organização Mundial da Saúde) e a comunidade internacional se opõem à associação do coronavírus a um país ou região, combatendo a estigmatização.

Na manhã desta segunda o embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, publicou mensagem no Twitter na qual diz que "o lado chinês aguarda uma declaração oficial do lado brasileiro sobre as palavras feitas pelo ministro da Educação, membro do governo brasileiro".

"Nós somos cientes de que nossos povos estão do mesmo lado ao resistir às palavras racistas e salvaguardar nossa amizade."

Esse não é o primeiro ataque de uma pessoa ligada ao presidente Jair Bolsonaro contra o país onde se registrou o começo da pandemia e que, por isso, é acusado de ter gerado a crise mundial da Covid-19.

Wanming já havia feito duras críticas ao deputado federal Eduardo Bolsonaro após o filho do presidente, também em uma rede social, comparar a pandemia do coronavírus ao acidente nuclear de Tchernóbil, na Ucrânia, em 1986.

As autoridades, à época submetidas a Moscou, ocultaram a dimensão dos danos e adotaram medidas de emergência que custaram milhares de vidas.

"A culpa é da China [pela crise da Covid-19] e liberdade seria a solução."

O episódio gerou crise diplomática entre os países. Com a repercussão do caso, o deputado federal afirmou no dia seguinte às declarações que jamais quis ofender o povo chinês e ressaltou que o embaixador chinês não refutou seus argumentos sobre o surgimento do coronavírus.

Entre membros do Planalto, o vice-presidente Hamilton Mourão disse que o filho de Bolsonaro não falava em nome do governo, enquanto a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, afirmou que a "posição do governo brasileiro é de amizade com a China".

A China é o maior parceiro comercial do Brasil. Em 2018, 26,7% das exportações brasileiras tiveram o país asiático como destino —Pequim lidera o ranking de compradores dos produtos brasileiros, segundo o Ministério da Economia. Entre 2003 e 2019, investiu US$ 79 bilhões no Brasil.

A crise fez com que o presidente brasileiro telefonasse para o dirigente da China, Xi Jinping, para aparar as arestas criadas pelo filho.

Ao comentar a ligação, também em uma rede social, Bolsonaro disse que ele e o líder chinês reafirmaram "nossos laços de amizade, troca de informações e ações sobre a Covid-19 e ampliação de nossos laços comerciais".

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