Descrição de chapéu Coronavírus Venezuela

Sem água, gás e internet, brasileiros retidos na Venezuela aguardam repatriação

Brasil fechou embaixada no país; voo buscará funcionários, mas não se sabe se incluirá visitantes

Viçosa (MG)

Um grupo de brasileiros que ficou retido na Venezuela após a proibição de viagens aéreas e terrestres no país devido à pandemia de coronavírus aguarda há quase um mês por notícias sobre uma possível repatriação.

A situação é agravada pelo fechamento definitivo da embaixada e do consulado em Caracas no último mês, em um contexto de crise diplomática entre os dois países.

Além disso, a alta no preço de alimentos durante a quarentena, a falta de gás, energia elétrica e até água —o que impede a higienização recomendada para proteção contra o vírus— e o racionamento de combustível que fez o produto praticamente desaparecer do mercado tornam a rotina país, já precária por causa da crise econômica, ainda pior durante a pandemia.

O analista de sistemas Thawler Santos em uma rua vazia de Caracas durante a quarentena
O analista de sistemas Thawler Santos em uma rua vazia de Caracas durante a quarentena - Arquivo pessoal

“Quando cheguei aqui, o dólar equivalia a 72 mil bolívares. Em menos de duas semanas, foi para 127 mil. A comida é vendida em dólar, então o preço quase dobrou”, conta o analista de sistemas Thawler Santos, 31.

“Além disso, a gente só tem água uma hora na parte da manhã e uma hora na parte da noite. Tem que ir ao supermercado na hora em que tem água, ou não conseguimos higienizar as mãos depois.”

Natural de Minas Gerais, o brasileiro, que passou dois meses fazendo trabalho voluntário em Caracas em 2015, juntou dinheiro para voltar à cidade pela primeira vez e visitar a família que o hospedou.

Chegou no dia 8 de março, com voo de volta marcado para 3 de abril. Não conseguiu mais sair. O ditador venezuelano, Nicolás Maduro, decretou uma quarentena rígida a partir de 16 de março, prorrogada por 30 dias neste domingo (12).

“Eu sabia que a embaixada ia fechar, então entrei em contato o antes que pude, mas não conseguia uma resposta. Estou buscando formas de ir embora por terra, mas seria muito burocrático conseguir viajar e não achamos gasolina suficiente. Se por ventura ficássemos sem, no meio da estrada, seria pior ainda do que ficar aqui”, diz Thawler.

Caso consigam chegar até a fronteira com Roraima, os brasileiros poderão atravessar, pois a entrada de cidadãos está autorizada. O problema é chegar até lá, já que entradas e saídas das cidades estão fechadas.

Durante a quarentena, Maduro anunciou um racionamento e atribuiu o problema ao bloqueio naval dos EUA, que estaria impedindo a chegada de insumos necessários para a produção do combustível.

Apesar de ter as maiores reservas de petróleo do mundo, a Venezuela enfrenta escassez de gasolina há algum tempo, com filas enormes de veículos nos postos para abastecer.

Entre as explicações, estão a deterioração da infraestrutura das refinarias, que trabalham com baixíssima capacidade, a falta de investimento e a corrupção na empresa estatal que cuida do setor.

O Itamaraty informou que são nove os brasileiros visitantes na Venezuela que procuraram o ministério buscando repatriação. Outros 32 brasileiros que vivem no país vizinho também procuraram o órgão pedindo auxílio governamental, que está sendo avaliado.

Começou a circular entre esses brasileiros a notícia de que um voo da FAB (Força Aérea Brasileira) sairá da Venezuela no dia 17, levando funcionários do Itamaraty que ainda estão lá, mas não há confirmação de que haverá espaço para os visitantes que querem a repatriação.

Questionado, o Itamaraty confirmou que enviará uma aeronave para buscar seus funcionários e que, em um primeiro momento, não havia sido planejada a inclusão dos brasileiros não residentes retidos, pois estavam sendo buscadas outras soluções para eles.

“Não tendo frutificado as outras soluções, estamos negociando junto à FAB a inclusão desses nacionais no voo que trará os funcionários do governo brasileiro, em data ainda a ser definida e que depende da finalização de sua missão em Caracas”, diz a nota.

​A falta de informações é uma queixa comum a brasileiros nessa situação. Um deles é o internacionalista Frank Padilha, 23, que mora em Manaus e no dia 11 de março foi visitar a mãe, a irmã e a tia na cidade de Valencia, no norte venezuelano.

Seu voo de volta foi adiado duas vezes —na última, para 2 de maio, mas esse também foi cancelado.

“Contatei o Itamaraty várias vezes, preenchi três vezes os formulários deles e da Anac, tentei ligar várias vezes para o número do plantão consular, falei com números em Brasília. Até agora não sei se vou conseguir voltar.”

A família está há uma semana sem água e não consegue encontrar no mercado álcool em gel nem gás --um fogareiro elétrico permite que continuem cozinhando. Eles também estão há três semanas sem internet.

Thawler também está sem internet e paga US$ 10 (R$ 52) para usar a de um vizinho. É o único jeito de continuar trabalhando a distância, já que suas férias acabaram há mais de uma semana. “Consegui uns dias a mais, mas não posso abandonar o trabalho. Precisamos de um jeito de sair daqui.”

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