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Cinema

Sérgio Vieira de Mello é retratado como quase perfeito em cinebiografia

Em filme da Netflix, Wagner Moura interpreta diplomata brasileiro, morto no Iraque em 2003

Sergio

  • Onde disponível na Netflix
  • Classificação 16 anos
  • Elenco Wagner Moura e Ana de Armas
  • Direção Greg Barker

Sérgio Vieira de Mello (1948-2003) foi o diplomata brasileiro de maior projeção internacional dos últimos 50 anos.

Filho de um embaixador que teve a carreira interrompida pela ditadura militar, nasceu no Rio de Janeiro e estudou na Universidade de Paris, a Sorbonne, de onde saiu doutor em filosofia, letras e ciências humanas.

Sem jamais ter cursado o Instituto Rio Branco, ingressou na Organização das Nações Unidas em 1969, aos 21 anos. Toda a sua carreira se desenrolou no órgão, no qual chegou a alto comissário para os direitos humanos.

Participou de missões espinhosas no Líbano, no Kosovo e em Ruanda. Quando morreu, em 2003, em um atentado a bomba em Bagdá, era cotado para substituir o então secretário-geral, Kofi Annan, no comando da ONU.

O ator Wagner Moura, no papel do diplomata Sérgio Vieira de Mello, em filme lançado pela Netflix
O ator Wagner Moura, no papel do diplomata Sérgio Vieira de Mello, em filme lançado pela Netflix - Divulgação

Vida e morte dessa figura admirável renderam dois filmes com o mesmo nome, “Sergio” (sem acento mesmo), ambos dirigidos pelo americano Greg Barker e disponíveis na Netflix.

O mais antigo é um documentário, lançado em 2009. Já o segundo marca a estreia do cineasta na direção de longas de ficção e chega nesta sexta (17) à plataforma.

O ator brasileiro Wagner Moura (“Tropa de Elite”) encarna Sérgio Vieira de Mello e também é um dos coprodutores do filme. O papel não é dos mais fáceis, até porque o roteiro retrata o diplomata como um homem quase sem defeitos. Sua fama de mulherengo, por exemplo, é totalmente ignorada.

Essa aura de perfeição só se desfaz em dois momentos. Em um deles, percebemos que Vieira de Mello era algo distante dos filhos adolescentes. No outro, comete um erro fatal: para conquistar a simpatia dos iraquianos, manda afrouxar a segurança em torno da sede da missão da ONU em Bagdá.

O filme começa e termina com o atentado. Enquanto o diplomata agoniza sob os escombros, passagens de sua vida são contadas em flashback. Muita ênfase é dada ao período em que o brasileiro administrou o Timor Leste, então em processo de independência da Indonésia, entre 1999 e 2002.

Mais ênfase ainda recebe seu romance com a economista argentina Carolina Larriera (a bela atriz cubana Ana de Armas, de “Entre Facas e Segredos”). Há até uma tórrida cena de sexo entre os dois, lindamente fotografada e totalmente dispensável.

O fato é que, mesmo com um personagem que não permite grandes arroubos dramáticos, Wagner Moura se sai muito bem. O ator capta a simpatia e o autocontrole que Sérgio Vieira de Mello exercia em tempo integral.

O genuíno interesse do diplomata pelo destino das pessoas comuns transparece em uma cena tocante em um mercado timorense. Em outra sequência, ambientada no Camboja, Sérgio se livra de uma enrascada graças à sua própria biografia cosmopolita: ele e o líder guerrilheiro de quem é refém foram colegas de faculdade na França.

O único quesito em que Wagner Moura desliza é na pronúncia de idiomas estrangeiros. Falando inglês, francês e espanhol, o ator, se não comete erros, não demonstra muita intimidade com nenhuma dessas línguas.

“Sergio” é um filme correto, talvez um pouco aquém da grandeza de seu biografado. Mas funciona bem no streaming, ainda mais nesses tempos de confinamento.

E levanta uma questão interessante: será que a diplomacia brasileira atual, comandada por despreparados e contaminada pela ideologia, seria capaz de produzir um novo Sérgio Vieira de Mello?

Erramos: o texto foi alterado

O diplomata Sérgio Vieira de Mello foi morto em 2003, e não em 2002. O texto foi corrigido.

 

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