Teoria da conspiração sobre coronavírus provoca incêndios em torres 5G no Reino Unido

Ideia falsa de que onda de rádio facilita contáfio ganhou impulso nas redes sociais

Davey Alba Adam Satariano
Londres | The New York Times

Em 2 de abril, uma torre de celular foi incendiada em Birmingham, no centro da Inglaterra. No dia seguinte, um incêndio foi relatado às 22h em uma caixa de telecomunicações em Liverpool (noroeste).

Uma hora depois, uma ligação de emergência avisou que outra torre de celular em Londres (sudeste) estava em chamas.

Em todo o Reino Unido, mais de 30 incêndios criminosos e atos de vandalismo ocorreram contra torres de telefonia celular e outros equipamentos de telecomunicações neste mês, segundo relatório da polícia e um grupo do setor de telecomunicações.

Em aproximadamente 80 outros incidentes no país, técnicos da área foram importunados enquanto trabalhavam.

Os ataques foram instigados pela mesma causa, segundo autoridades do governo: uma teoria da conspiração na internet que liga a disseminação do coronavírus a uma tecnologia sem-fio ultrarrápida chamada 5G.

Torre de 5G danifica por fogo em Birmingham, na Inglaterra - Carl Recine -6.abr.2020/Reuters

De acordo com essa ideia falsa, que ganhou impulso em grupos do Facebook, mensagens no WhatsApp e vídeos no YouTube, as ondas de rádio emitidas pela tecnologia 5G estão causando pequenas alterações no corpo das pessoas que as fazem adoecer com o vírus.

Os incidentes demonstram claramente que as teorias da conspiração sobre o coronavírus assumiram um viés sombrio ao vazar para o mundo real. Em apenas algumas semanas, a pandemia deu a ideias radicais já existentes na internet uma nova urgência, ao jogar com o medo das pessoas.

Antes do coronavírus, raramente essas teorias causavam um dano tão visível e tão rápido, disseram pesquisadores da desinformação.

Nos Estados Unidos, uma pessoa morreu depois de se automedicar com cloroquina, que foi chamada na internet de cura milagrosa para o coronavírus, apesar de sua eficiência não estar comprovada.

E o doutor Anthony Fauci, chefe do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos EUA, teve sua segurança reforçada neste mês, depois que teorias infundadas espalharam que ele fazia parte de um grupo secreto que trabalhava para boicotar o presidente Donald Trump.

"A maioria das conspirações fica online, mas esta está tendo impacto no mundo real", disse Alexandre Alaphilippe, diretor-executivo do DisinfoLab da União Europeia, grupo baseado em Bruxelas que rastreia teorias de conspiração sobre vírus.

Ele chamou a desinformação sobre a pandemia de "um novo problema", porque a doença é global e pessoas de todo lugar estão em busca de informações.

A falsa teoria que liga o 5G ao coronavírus ganhou destaque porque foi ampliada por celebridades como os atores americanos John Cusak e Woody Harrelson nas redes sociais.

Ela também foi propalada por um ruidoso contingente contrário ao 5G, que pediu às pessoas para tomar medidas contra equipamentos de telecomunicações para se protegerem.

A ideia tem raízes profundas na internet. Uma análise do The New York Times descobriu 487 comunidades no Facebook, 84 contas no Instagram, 52 perfis no Twitter e dezenas de outras postagens e vídeos que promovem a conspiração.

As comunidades do Facebook ganharam quase um milhão de seguidores nas últimas duas semanas. No Instagram, uma rede de 40 contas quase duplicou sua audiência neste mês, com 58.800 seguidores.

No YouTube, os dez vídeos de conspiração 5G-coronavírus mais populares postados em março tiveram mais de 5,8 milhões de visualizações. Hoje, a conspiração pode ser encontrada no Facebook em mais de 30 países, incluindo Suíça, Uruguai e Japão.

Políticos britânicos disseram que a teoria da conspiração e os atos de violência que ela está causando são inaceitáveis.

"Isto é um absurdo da mais alta categoria", disse Julian Knight, deputado britânico relator de uma comissão que investiga a desinformação online relacionada ao coronavírus. Ele disse que o Facebook e o YouTube precisam "controlar" a situação ou correr o risco de minar a reação à crise.

Knight acrescentou que a disseminação de conspirações sobre o 5G disparou o alarme sobre como a informação sobre uma futura vacina contra o vírus seria divulgada.

"Se conseguirmos uma vacina para a Covid-19, podemos confiar nas empresas de redes sociais para garantir que as mensagens certas sejam publicadas sobre essa vacina?", perguntou ele. "Isso poderia ser uma questão de vida ou morte para muita gente."

O Facebook, que também é dono do Instagram e do WhatsApp, disse que está "começando a retirar falsas afirmações de que a tecnologia 5G causa os sintomas ou a contração da Covid-19".

O YouTube afirmou que vai reduzir as recomendações de vídeos ligando o coronavírus ao 5G, enquanto o Twitter declarou que tomou medidas contra conteúdo enganoso e prejudicial sobre a doença.

Afirmações malucas sobre o 5G não são novidade. A tecnologia tem uma enorme importância política porque pode dar aos países uma vantagem competitiva, com a velocidade maior das comunicações wireless permitindo um desenvolvimento mais rápido de carros sem motorista e outras inovações.

Provocações na internet aproveitaram o 5G e suas implicações políticas para semear o medo, levando a protestos nos EUA e em outros lugares contra a tecnologia nos últimos anos.

Os russos promoveram alegações de que o sinal 5G está ligado a câncer de cérebro, infertilidade, autismo, tumores cardíacos e doença de Alzheimer, tudo isso sem apoio científico.

Em janeiro, enquanto o coronavírus varria Wuhan, na China, e outras cidades, ele forneceu mais matéria-prima para invenções contra o 5G.

Em 19 de janeiro, um post no Twitter especulava sobre uma ligação entre o 5G e a doença, segundo a empresa de mídia Zignal Labs, que estudou 699 mil menções à conspiração neste ano, até 7 de abril.

"Wuhan tem mais de 5.000 estações bases de 5G hoje, e terá 50 mil até 2021 —é uma doença ou o 5G?", dizia o tuíte.

Em 22 de janeiro, um artigo em um site de notícias da Bélgica continha um comentário de um médico afirmando que o 5G é danoso à saúde das pessoas.

Embora não mencionasse especificamente o coronavírus, o médico citou uma "possível ligação com os acontecimentos atuais". O artigo, mais tarde deletado pelo editor, alcançou cerca de 115 mil pessoas, segundo o CrowdTangle, ferramenta que analisa interações nas redes sociais.

Homem caminha em frente a muro com a pixação "Pare o 5G" - Russell Boyce 8.abr.2020/Reuters

No mês passado, as afirmações sobre 5G e coronavírus na web e na televisão aumentaram, segundo a Zignal Labs. Um vídeo no YouTube que conectava o vírus ao 5G, no mês passado, teve quase 2 milhões de visitas antes que o site o deletasse.

E a cantora Keri Hilson, além de Cusak e Harrelson, fez postagens sobre a conspiração.

"Muitos amigos meus estão falando sobre os efeitos negativos do 5G", escreveu Harrelson no Instagram para seus 2 milhões de seguidores na semana passada, compartilhando um print de tela de um artigo que traçava ligações entre o surto em Wuhan e o desenvolvimento do 5G lá.

Representantes de Harrelson e Cusak, cujos posts sobre 5G foram depois deletados, não quiseram comentar. O empresário de Hilson disse que seus posts foram removidos porque "achamos que nesta época é importante enfocar as coisas que sabemos serem 100% precisas".

A conspiração repercutiu especialmente no Reino Unido. Em janeiro, o primeiro-ministro Boris Johnson havia dado à companhia de tecnologia chinesa Huawei autorização para montar a infraestrutura de 5G no país.

Nas últimas semanas, teóricos da conspiração começaram a dizer que a falta de transparência da China sobre a Covid-19 era uma prova de que a Huawei não é confiável para instalar o 5G na Grã-Bretanha.

Alguns foram além e pediram a destruição de equipamentos sem-fio.

"Precisamos derrubar o 5G", disse uma pessoa no grupo do Facebook Stop 5G UK, que tem mais de 58.600 membros.

Depois que o governo britânico emitiu ordens de isolamento social em 23 de março, alguns teóricos da conspiração comentaram que era um truque para construir secretamente torres de 5G sem que o público visse.

Em 2 de abril, em um dos primeiros incidentes de 5G-coronavírus, equipamento de telecom em um bairro de Belfast, na Irlanda do Norte, foi incendiado, segundo autoridades locais.

"Eu não podia acreditar", disse Carl Whyte, vereador de Belfast. "Eles veem essas teorias da conspiração nas redes sociais e saem para destruir as torres."

A notícia do incêndio se espalhou por toda a área de Belfast. Richard Kerr, ministro na igreja presbiteriana Templepatrick, em Ballyclare, nas proximidades, disse: "Eu fiquei abismado que a coisa chegou ao nível de as pessoas estarem dispostas a causar incêndios".

Outros incêndios de torres de telecomunicações se seguiram em Birmingham, Liverpool e adjacências. Vídeos de equipamento queimando foram compartilhados e comemorados no Facebook. Alguns vídeos também mostravam técnicos de telecom sendo assediados.

"Vocês sabem que quando ligarem isso vai matar todo mundo", disse uma mulher sobre o 5G em um vídeo recente no Twitter, ao confrontar técnicos que instalavam cabos de fibra óptica em uma cidade britânica não identificada.

Mark Steele, um importante ativista anti-5G na Grã-Bretanha, disse que os incêndios são consequência da frustração das pessoas porque suas preocupações com segurança não são levadas a sério. Perguntado se acreditava que o 5G estava causando o coronavírus, ele disse: "Parece um pouco suspeito, você não acha?".

As companhias de telecomunicações, que aumentaram a segurança e estão trabalhando com a polícia, disseram que os ataques contra seus funcionários e equipamentos foram generalizados, ameaçando as redes de telecomunicações durante a crise.

A empresa Vodafone disse que sofreu pelo menos 15 incidentes, enquanto a BT teve pelo menos 11. As empresas disseram que em muito casos vândalos danificaram infraestrutura existente e não equipamento 5G novo.

As polícias de Belfast, Liverpool e Birmingham disseram que continuam investigando os incidentes, revisando gravações de câmeras de segurança e pedindo que a população dê pistas.

Grupos anti-5G continuam ganhando centenas de membros. Um usuário do Facebook compartilhou fotos nesta semana de uma torre sem-fio sendo construída em uma área não identificada da Grã-Bretanha.

"Fogo nela", comentou um leitor.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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