Descrição de chapéu Coronavírus

Tóquio, Osaka e Seul são as únicas metrópoles globais a não adotar isolamento em massa

Mais de 30 grandes cidades do mundo determinaram quarentenas para conter avanço do coronavírus

São Paulo

Em cerca de duas semanas, quase todas as grandes metrópoles do mundo reduziram suas atividades ao mínimo possível. Uma das exceções é justamente a maior delas, Tóquio, cuja área metropolitana abriga 35 milhões de pessoas.

Além da capital japonesa, Osaka (19 milhões) e Seul (9 milhões) não adotaram restrições amplas, mas apenas ações pontuais e recomendações para tentar conter o coronavírus.

pessoas andam na calçada
Seul é uma das poucas grandes cidades que mantém a rotina durante a pandemia do coronavírus - Heo Ran/Reuters

O Japão e a Coreia do Sul apostaram na identificação e no isolamento de áreas com focos de coronavírus. Na Coreia, a realização de testes é feita inclusive por meio de drive-thru, e o país soma mais de 400 mil testes realizados, o que representa 0,8% da população. No Japão, foram cerca de 40 mil (0,3%). No Brasil, não há dados sobre quantos testes já foram feitos, segundo o Ministério da Saúde.

Na capital japonesa, algumas redes de comércio e serviços resolveram parar por conta própria até meados de abril, como uma empresa que controla 200 locais de caraoquê.

A Folha conferiu a situação de 38 megacidades, em um recorte que levou em conta o total de população e sua relevância internacional. Assim, foram analisadas as 32 cidades com mais de 10 milhões de habitantes e mais seis áreas metropolitanas de grande simbolismo: Wuhan, Seul, Teerã, Londres, Madri e Nova York.

A restrição de atividades começou na China, em janeiro, e foi adotada em efeito dominó a partir da segunda metade de março, em uma sequência de anúncios quase diários: em Madri (no dia 15), Paris (17), Bancoc (18), Buenos Aires (19), São Paulo (20), Nova York (22) e Londres (23).

Em seguida, a Índia decidiu por uma paralisação abrupta, que fechou algumas das cidades mais cheias do mundo no dia 25, como Nova Déli, Mumbai e Calcutá. E no dia 30, dois países reticentes, México e Rússia, também determinaram medidas de restrição, que atingiram a Cidade do México e Moscou.

Istambul, na Turquia, entrou em quarentena à meia-noite deste sábado (4). Apenas trabalhadores de serviços essenciais poderão circular, e há uma ordem para que menores de 20 e maiores de 65 anos fiquem em casa. A adoção da medida foi marcada por uma disputa entre o prefeito Ekrem Imamoglu, que defendia um lockdown, e o presidente Recep Tayyip Erdogan, que preferiu adotar primeiro restrições mais pontuais.

Para Valter Caldana, professor de urbanismo do Mackenzie, esse movimento deixou clara a articulação internacional cada vez maior entre prefeitos e governadores. "Em menos de 15 dias, uma rede de cidades parou o mundo, não uma rede de chefes de Estado", avalia.

As ações tentam retardar a propagação do coronavírus, para ganhar tempo de preparar o sistema de saúde e evitar que haja um número explosivo de casos em poucos dias, o que levaria ao colapso dos sistemas de saúde.

As cidades adotaram estratégias praticamente idênticas: restringem a saída de casa, com exceção para comprar comida e remédios, ir ao médico ou trabalhar em funções essenciais. Os serviços de transporte público ficam reduzidos e surgiram hospitais de campanha em lugares como centros de convenções e estádios.

O que varia são a intensidade das medidas e a forma de exigir seu cumprimento. Na China e na Rússia, são usados apps para rastrear os movimentos. Na Índia, policiais nas ruas foram flagrados batendo nas pessoas com pedaços de pau para obrigá-las a voltar para casa. No Paquistão, há relatos de que moradores ignoraram os policiais e seguiram com a vida normal, porque os agentes estavam em menor número e não tinham como reagir.

A maior parte dos governos disse que pretende retomar a rotina em meados de abril, embora haja grandes chances de o prazo ser estendido, pois não está claro quando será atingido o pico da pandemia.

Na China, as cidades vão retomando as atividades aos poucos. Informações oficiais apontam que houve estabilização no número de novos casos no país, mas o comércio enfrenta problemas.

Mesmo com o relaxamento das restrições no fim de março, lojas e restaurantes não voltaram ao faturamento de antes da crise. Em cidades como Xangai e Pequim, menos gente tem se animado a ir às compras ou sair para comer fora, apesar dos apelos do governo, relataram comerciantes ao jornal South China Morning Post.

Outro ponto é saber se a reabertura será para valer. Cinemas, bares e restaurantes que haviam reaberto foram fechados de novo em algumas cidades, por ordem das autoridades. Em Xangai, atrações turísticas baixaram as portas pouco após retomarem as atividades.

"A China é a primeira sociedade que está tentando reabrir, e não tem exemplos para se inspirar, então faz isso de forma muito mais conservadora. Quando for a nossa vez, poderemos aprender com o que foi feito lá", comenta Renato Cymbalista, professor de urbanismo da USP.

Para ele, a quarentena deverá trazer modificações profundas para os deslocamentos diários e o comércio de rua. "As pessoas perceberam que muitas atividades que faziam presencialmente podem ser feitas à distância, e isso vai mudar a cara das cidades como conhecemos hoje. Das milhões de lojas fechadas, milhares provavelmente não voltarão a abrir".

Caldana, do Mackenzie, projeta que a volta à normalidade poderá ser um tanto abrupta. "Muitas demandas das pessoas estão represadas e uma retomada repentina pode gerar um tranco. Mas a capacidade de adaptação das cidades é maior do que a gente imagina."

Erramos: o texto foi alterado

Versão anterior desta reportagem afirmou incorretamente que Istambul não havia adotado isolamento massivo de seus moradores, mas a medida foi anunciada na noite de sexta (3) e entrou em vigor à meia-noite de sábado (4). No infográfico, a cidade de Dacar (3 milhões de habitantes), no Senegal, foi citada de forma incorreta no lugar de Daca (20 milhões), em Bangladesh. Ambas adotaram quarentenas. O levantamento considerou apenas metrópoles com mais de 6 milhões de pessoas. As informações foram corrigidas.  

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