Descrição de chapéu

Trump conta com vírus para cumprir promessa eleitoral contra imigrantes

Muro do presidente americano na fronteira mexicana não se materializou como ele previa

São Paulo

Se tempos desesperados pedem medidas desesperadas, como dita o aforismo tornado clichê barato, não seria de se estranhar um país duramente castigado pela pandemia do novo coronavírus fechar suas fronteiras.

O cálculo preciso de quando isso seria possível é o maior drama para governantes, lidando com uma doença nova e algo imprevisível. A até aqui bem-sucedida experiência em Singapura mostra que atos mais draconianos são necessários quando chega uma segunda onda da Covid-19.

Trump fala durante entrevista coletiva sobre a crise do coronavírus, na Casa Branca
Trump fala durante entrevista coletiva sobre a crise do coronavírus, na Casa Branca - Mandel Ngan - 15.abr.2020/AFP

Os chineses continentais adotaram a ideia a partir do momento em que disseram ter controlado a epidemia autóctone, virtualmente fechando o país a estrangeiros, mesmo aqueles com visto de residência.

O problema nessa joint-venture entre a Ceifadora e o Tinhoso é que o último adora os detalhes. Quando o presidente que anuncia a suspensão de toda a imigração para os Estados Unidos é Donald Trump, é natural que sinais de alarme soem.

O coronavírus, afinal, poderá fazer para o presidente o que seu fracassado muro não fez: dar a impressão de que os EUA estão fechados, ensimesmados no delírio nativista do "America First". A Covid-19 não acabará com a globalização, mas ela inevitavelmente sofrerá danos.

Afinal de contas, a eleição é logo ali, em novembro, e um acuado Trump faz o que pode: apoia, a exemplo de seu seguidor Jair Bolsonaro no Brasil, a "população comum" contra a "ditadura dos governadores" e suas medidas de distanciamento social.

Não que as políticas antiimigratórias do americano tenham sido inócuas, já que a concessão de vistos caiu 25% do 2016 antes de sua posse até 2019. No ano passado, 462,4 mil pessoas foram autorizadas a morar nos EUA, para trabalhar ou estudar.

Mas essa conta não inclui os irregulares, alvo da retórica presidencial. O propalado muro na fronteira com o México, símbolo máximo de sua xenofobia, até aqui não passou da troca de estruturas defensivas já existentes.

Não se nega a eficácia dessas barreiras em áreas menores. Jerusalém viu cair a violência política desde que a Cisjordânia começou a ser encaixotada nos anos 2000.

Outro arauto do populismo nacionalista encarnado em Trump, o húngaro Viktor Orbán, reduziu a entrada de imigrantes em seu país em 2015 com uma cerca: de 4.500 casos diários, a média caiu para 15.

Orbán, como se sabe, ganhou poderes extraordinários do Parlamento enquanto a crise durar. Seus defensores sugerem que isso não o torna um ditador, já que a licença pode ser cassada (por um Parlamento servil?) e que a pandemia uma hora irá arrefecer, encerrando o período de exceção.

Pode ser, mas exatamente como Trump ou os arroubos golpistas de Bolsonaro, o histórico inspira vigilância redobrada sobre a eternização de práticas que venham de encontro ao que o candidato a autocrata da vez defenda.

​Se a ditadura de Pequim é o modelo para o qual se deve olhar em termos de pandemia, basta ver a onda de abusos discriminatórios contra estrangeiros na hora em que o vírus deixou de ser apenas um problema da província de Hubei e, no discurso oficial, virou algo que cidadãos chineses que voltam ao país podem carregar.

Olhando para o lado político, basta ver a onda de prisões de líderes dos protestos anti-China que dominam a paisagem política do território especial de Hong Kong desde meados do ano passado.

Ativistas oposicionistas veem Pequim aproveitando o clima de restrições na região para garantir o pulso de ferro que vinha sendo contestado.

Isso sem contar toda a discussão acerca do futuro do controle social por meio de tecnologias usadas para combater a Covid-19.

Com tudo isso, parecem justificadas as preocupações com o porvir do trato americano a estrangeiros, ao menos enquanto Trump estiver no poder.

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