Considerada exemplo, Singapura vê casos de coronavírus dobrarem em 2ª onda

Maioria dos novos casos ocorreu em dormitórios superlotados onde vivem trabalhadores migrantes

Hannah Beech
The New York Times

Singapura parecia ter feito quase tudo como manda o figurino.

Depois de registrar seu primeiro caso de coronavírus em 23 de janeiro, a próspera cidade-estado rastreou meticulosamente as pessoas que tiveram contato estreito com cada paciente contaminado e, ao mesmo tempo, conservou um ambiente de normalidade em suas ruas.

As fronteiras foram fechadas a pessoas que poderiam trazer o contágio, mas as empresas permaneceram abertas. Testes e tratamento eram amplamente disponíveis e gratuitos para os habitantes.

Nos últimos dias, porém, o número de casos de coronavírus em Singapura mais que dobrou, com mais de 8.000 casos confirmados até a segunda-feira (20) –o maior número no sudeste asiático. ​

Trabalhadores migrantes fazem fila para o café da manhã em abrigo declarado como área de isolamento em Singapura - Edgar Su - 21.abr.20/Reuters

A maioria dos novos casos de contágio ocorreu nos dormitórios superlotados onde vivem trabalhadores migrantes, longe das vistas dos habitantes mais ricos do país e, como se descobriu, do próprio governo.

A propagação do coronavírus nessa cidade-estado ordeira e limpa sugere que pode ser difícil para os Estados Unidos, à Europa e ao resto do mundo voltarem à vida como era antes no futuro próximo, mesmo quando as curvas virais aparentem estar achatadas.

Embora os países possam rastrear os contatos dos doentes estreitamente para tentar prevenir um surto, como fez Singapura, o coronavírus está adoecendo e matando pessoas e se disseminando a cada dia que passa, deixando cientistas e líderes políticos correndo para acompanhar seu avanço implacável e os novos perigos que se apresentam.

Na realidade, as dificuldades passadas neste país intensamente urbano e hiperinternacional apontam mais para um futuro global em que viajar será tabu, as fronteiras ficarão fechadas, as quarentenas se prolonguem e setores econômicos como o do turismo e do entretenimento sejam dizimados.

Casamentos, funerais e festas de formatura terão que aguardar. As populações vulneráveis, como as de migrantes, não podem ser ignoradas.

“Outra coisa que vai acontecer é que vamos nos adaptar cada vez mais à nova normalidade”, comentou Josip Car, eminente especialista em ciências da saúde populacional na Universidade Tecnológica Nanyang, em Singapura.

“Este é o nosso futuro provável pelos próximos 18 meses no mínimo, sendo esse o prazo previsto para que a primeira vacina seja disponibilizada em grande escala.”

Com os casos do vírus proliferando, Singapura abandonou sua estratégia de conservar uma aparência de vida normal. As escolas foram fechadas em 8 de abril, e hoje os habitantes são obrigados a usar máscara em espaços públicos.

Centenas de milhares de trabalhadores estrangeiros foram postos em quarentena em seus alojamentos superlotados. Testes realizados entre eles estão trazendo à tona centenas de novos casos da doença por dia.

Nesta terça (21), o primeiro-ministro de Singapura, Lee Hsien Loong, anunciou uma extensão no bloqueio que estava previsto para terminar em 4 de maio. As restrições, agora, devem ser mantidas até 1º de junho.

“Estou muito assustado, é claro”, comentou Monir, trabalhador de Bangladesh que não está autorizado a sair de seu alojamento, apesar de precisar de assistência médica.

Ele não deu seu nome completo porque seu empregador não o autorizara a falar com a imprensa. “Temos o vírus aqui e não podemos sair.”

Apesar da reputação de Singapura de ser uma cidade-estado ajardinada que acabou com o lixo e criou uma força de trabalho altamente instruída, esse pequeno país insular depende há anos de mais de 1 milhão de trabalhadores mal pagos que constroem seus arranha-céus, cuidam da faxina e operam seu porto movimentado.

Mas esses migrantes estrangeiros, que têm poucas chances de obter a cidadania de Singapura, foram deixados de fora da rede de assistência social do país, apesar de uma série de regulamentos lhes assegurar salários e assistência médica mínimos.

Esse contingente revelou ser um grande ponto cego na pandemia do coronavírus, expondo as experiências totalmente diferentes vividas por estrangeiros ricos residentes em Singapura e os estrangeiros pobres, numa cidade-estado onde 40% dos habitantes nasceram no exterior.

Os primeiros trabalhadores estrangeiros mal pagos receberam diagnóstico de coronavírus em fevereiro, e as pessoas com quem haviam tido contato mais próximo foram testadas e colocadas em quarentena, segundo as autoridades.

Agora há surtos de Covid-19 em dezenas de alojamentos e dormitórios. Núcleos de infecções também apareceram em obras de construção e em um parque industrial.

Na segunda-feira (20), Singapura registrou 1.426 novos casos do vírus, em sua maioria ligados aos testes realizados com migrantes. Foi uma alta recorde para um país que um mês atrás tinha tido apenas cerca de 300 casos ao todo.

Parece que as autoridades singapurianas não levaram em conta o alto grau de contagiosidade do vírus.

A maioria dos casos de Covid-19 é leve ou assintomática, e nenhuma até agora exigiu atendimento médico crítico, segundo o governo, fato que talvez explique por que a disseminação da doença entre a população de trabalhadores estrangeiros não foi flagrada antes.

Os dormitórios de trabalhadores estrangeiros, em que até 20 trabalhadores se comprimem em cada cômodo sufocante, já foram palcos de surtos de outras doenças anteriores, como a tuberculose.

Os moradores se queixam de infestações de insetos e problemas no encanamento. Três trabalhadores disseram que seus quartos não foram desinfetados depois da chegada do coronavírus, não obstante as promessas de que as condições iam melhorar.

O ministro dos Transportes de Singapura, Khaw Boon Wan, disse em um post no Facebook no domingo que os operários de construção estrangeiros estão recebendo “atendimento de primeiro nível”.

“Sei que nossos trabalhadores estrangeiros apreciam nossos esforços”, disse. “Eles sabem que estão mais seguros em Singapura que em qualquer lugar, mesmo em seus países de origem.”

Como a maioria dos novos pacientes está ligada a núcleos conhecidos de infecção, muitos deles de migrantes, os epidemiologistas esperam que a quarentana obrigatória ajude a controlar a transmissão local.

Onze pessoas até agora morreram em Singapura de Covid-19, a doença causada pelo coronavírus –um índice de mortes relativamente baixo. Os hospitais não estão sobrecarregados.

As autoridades destacam que uma vez que a transmissão local esteja controlada –o governo consegue rastrear até 4.000 pessoas por dia que estiveram em contato com pacientes—, as ruas da cidade devem recuperar alguma aparência de normalidade.

As escolas devem poder ser reabertas, com horários escalonados. A atividade manufatureira local poderá recomeçar, e o fluxo de bens e serviços pode ser retomado, mesmo que isso não aconteça com a circulação de pessoas.

Quando visitantes da China trouxeram o vírus a Singapura, em janeiro, as autoridades rapidamente proibiram a chegada de voos das áreas afetadas.

A polícia ajudou a localizar os contatos mais próximos das pessoas que testaram positivo. As pessoas que retornaram de férias na Europa ou Nova York fizeram quarentena em hotéis de luxo.

Quando uma segunda onda de casos importados surgiu, vinda da Europa e América do Norte, Singapura proibiu a entrada de todos os estrangeiros em visitas curtas.

Todos que retornam à ilha têm que passar por uma quarentena obrigatória. Houve apenas um caso importado de coronavírus nos últimos sete dias.

Mas a propagação rápida do vírus entre os trabalhadores estrangeiros foi um lapso evidente do planejamento rígido para epidemias, fortalecido depois de Singapura ser fortemente atingida em 2003 pelo vírus causador da síndrome respiratória aguda grave.

“Há anos a gente vem avisando que esses dormitórios densamente habitados representam um risco de incêndio ou transmissão viral”, disse Alex Au, vice-presidente da organização de defesa dos migrantes Transient Workers Count Too.

“Optamos como sociedade seguir adiante com condições de vida que representam um modo de risco para infecções, porque isso reduz os custos.”

Na segunda-feira (20), Singapura impôs uma quarentena de 14 dias sobre cerca de 180 mil trabalhadores estrangeiros na construção e suas famílias.

Entidades de direitos humanos não sabem como alguns trabalhadores que vivem fora dos alojamentos do governo vão obter alimentos.

Confinado em seu quarto num dormitório do governo em que centenas de trabalhadores estrangeiros já estão infectados com o coronavírus, Monir disse que tem um desejo apenas. “Quero voltar para casa.”

Tradução de Clara Allain 

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