Descrição de chapéu Financial Times Coronavírus

Apesar de pedido de trégua, pandemia não consegue atenuar conflitos armados

Brasil está entre países que ignoraram apelo da ONU e aumentaram hostilidades

Michael Peel
Bruxelas | Financial Times

A pandemia de coronavírus não conseguiu, em sua maioria, produzir uma redução nos conflitos armados em todo o mundo, não obstante o apelo da ONU para que a crise fosse aproveitada para promover um cessar-fogo global. É o que revelam novas investigações e outros especialistas.

As partes em guerra reagiram ao apelo da ONU em apenas dez dos 43 países pesquisados pelo Projeto de Dados sobre Localização e Eventos de Conflitos Armados (Acled, na sigla em inglês), e em apenas dois desses casos houve uma pausa significativa na violência.

As conclusões divulgadas na quarta (13) pela ONG americana deram um banho de água fria nas esperanças de que a emergência sanitária pudesse frear conflitos prolongados e impulsionar iniciativas de paz.

Soldado israelense usando máscara de proteção durante um protesto de palestinos na Cisjordânia - Jaafar Ashtiyeh - 15.mai.20/AFP

O esforço malogrado também ressaltou divergências de longa data no Conselho de Segurança da ONU, em que Washington, na semana passada, rejeitou uma resolução de apoio à trégua global porque desaprovou o fato de o texto da resolução pedir apoio à Organização Mundial da Saúde.

O presidente americano, Donald Trump, suspendeu o financiamento da OMS pelos EUA e qualificou a agência como sendo “centrada na China”, acusação que ela rejeita.

“Em grande medida devido à confusão no Conselho de Segurança, a campanha da ONU por um cessar-fogo está perdendo força”, disse Richard Gowan, diretor na ONU do think tank International Crisis Group.

“Houve algumas instâncias em que pareceu que alguns grupos armados estavam assumindo alguns compromissos concretos, mas, infelizmente, em vários desses casos esses grupos deram de ombros, disseram ‘não estamos recebendo nenhum retorno’ e voltaram às ações violentas.”

A Acled concluiu em seu relatório que o apelo por um cessar-fogo global lançado pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, em 23 de março foi em grande medida ignorado em 43 países que sofreram pelo menos 50 eventos denunciados de violência organizada neste ano.

Em 31 desses países, os participantes nos conflitos não apenas ignoraram o apelo como também, em muitos casos —incluindo no Iraque, México, Moçambique e Brasil— intensificaram as hostilidades.

Entre os países em que se viram “respostas positivas” ao apelo lançado pela ONU, algumas foram meras declarações de apoio, disse a Acled, e outras não foram correspondidas por outras partes nos conflitos.

Nos casos raros em que foram adotadas tréguas, os participantes tiveram dificuldade em prorrogar esses acordos.

“Falando de modo geral, o chamado por um cessar-fogo global não alcançou o resultado almejado”, disse a Acled. “Em muitos dos conflitos em que identificamos uma redução na violência, essa redução teve uma causa alternativa.”

Os defensores da proposta de cessar-fogo global argumentam que, nas palavras de Guterres, “só deve haver uma luta em nosso mundo hoje: nossa batalha comum contra a Covid-19”, em vista da ameaça que a pandemia representa a todos.

Especialistas em conflitos também disseram que o impacto potencialmente debilitante da crise sobre as forças armadas, as milícias e as populações dos territórios que elas controlam pode acelerar o processo de desgaste que muitas vezes contribui para levar partes em guerra há anos para a mesa de negociações.

Enquanto algumas zonas de conflito podem levar mais tempo a serem atingidas pela onda global de contaminação pela Covid-19 porque poucas pessoas entram ou saem delas, o efeito de um surto da doença nessas regiões pode ser muito forte em função da falta de assistência médica.

E a superlotação em ambientes como quartéis e campos de refugiados também os tornam altamente vulneráveis à propagação acelerada da doença.

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha avisou que a pandemia “pode devastar algumas das comunidades mais vulneráveis do mundo” e exortou que sejam tomadas medidas de preparo para o vírus “antes que ele se instale em zonas de conflito”.

Participantes em conflitos responderam ao apelo por um cessar-fogo em Afeganistão, Camarões, Colômbia, Índia, Indonésia, Mianmar, Filipinas, Síria, Ucrânia e Iêmen, segundo a Acled, mas na maioria dos casos o número de incidentes violentos não caiu significativamente, sendo que em outros chegou a subir.

As partes na guerra civil da Líbia e na insurgência de longa data no sul da Tailândia também tomaram medidas em direção a um cessar-fogo independentemente do chamado da ONU.

Um dos dois casos mais animadores foi o da Indonésia, onde a Acled disse que não houve incidentes registrados desde que, em 11 de abril, rebeldes na região de Papua Ocidental anunciaram a busca por um cessar-fogo com o governo.

No outro exemplo inicialmente mais positivo, a Colômbia, embora rebeldes esquerdistas do Exército de Libertação Nacional tenham anunciado e em grande medida observado um cessar-fogo unilateral de um mês a partir de 1º de abril, aparenta não ter perspectivas de uma pausa mais permanente das hostilidades.

Os resultados da Acled coincidem com observações feitas por organizações como o European Institute of Peace, organização de resolução de conflitos criada em 2014 por um grupo de governos europeus.

Michael Keating, o diretor executivo do instituto, destacou que alguns grupos armados, como o Al Shabab, na Somália, aproveitaram a onda de desinformação sobre a pandemia para fortalecer sua causa, retratando a Covid-19 como uma tentativa de seus inimigos para desestabilizá-los.

Outras organizações, como o Taleban, no Afeganistão, utilizaram a emergência sanitária para defender que a libertação de seus membros aprisionados seja acelerada.

“A primeira coisa em que elas estão pensando é como isso vai beneficiar sua agenda”, disse Keating, acrescentando que sua organização ainda está apoiando os esforços para levar partes em conflito a negociar.

“Não estão pensando ‘talvez esta seja uma oportunidade para termos um diálogo que de outro modo seria difícil’. Se há uma tendência, é que as pessoas façam uso da Covid-19 para legitimar e acelerar o que iam fazer de qualquer maneira.”

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