Descrição de chapéu Coronavírus

Aumento de casos na Índia e economia ameaçam alta popularidade de Modi

Premiê foi elogiado por decretar 'lockdown' rapidamente, mas enfrenta desafio durante a reabertura

São Paulo

Na comparação com outros líderes de direita de grandes democracias, o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, vem se saindo muito bem na resposta à pandemia do coronavírus.

Diferentemente de Jair Bolsonaro, ele não minimiza o risco da doença e não a chamou de “gripezinha”. Tampouco sugeriu a ingestão de desinfetante como tratamento à Covid-19, como fez Donald Trump.

Ao contrário, o premiê seguiu recomendações de organizações médicas e impôs à população de 1,3 bilhão de pessoas um "lockdown" draconiano que, segundo especialistas, brecou o avanço da epidemia.

Dezenas de migrantes indianos aguardam em Ghaziabad, na região metropolitana de Déli, para tomarem ônibus de volta para suas cidades
Dezenas de migrantes indianos aguardam em Ghaziabad, na região metropolitana de Déli, para tomarem ônibus de volta para suas cidades - Javed Dar - 19.mai.20/Xinhua

Os números de casos e mortes pela Covid-19 no país –150.762 e 4.349, respectivamente, segundo dados compilados pela Universidade Johns Hopkins– são muito inferiores aos registrados no Brasil e nos EUA.

A Índia teve menos óbitos por coronavírus até do que a Holanda (5.875), onde a população equivale a 1,28% da indiana. A diferença fica ainda mais latente quando comparadas as taxas de mortes por milhão de habitantes de cada país: 3 contra 342.

Mas, agora, o desempenho de Modi corre o risco de desmoronar por dois motivos. Com o início, em maio, do relaxamento do "lockdown", o número de infecções começou a aumentar, e o gigantesco êxodo de trabalhadores migrantes desempregados das grandes cidades para o interior pode exacerbar a tendência.

Favelas como Dharavi, em Mumbai —uma das maiores do mundo, com 1 milhão de habitantes—, tornaram-se focos de disseminação da doença.

Além disso, a economia indiana, mais abalada do que a maioria dos países devido à pandemia, pode entrar em recessão profunda diante das tímidas medidas de estímulo propostas pelo governo Modi.

Até o fim de abril, a Índia vivia o efeito “rally ‘round the flag” (reunir-se em torno da bandeira, em tradução livre), fenômeno de união nacional e apoio a governantes durante grandes crises ou guerras.

Enquanto Bolsonaro é um dos únicos líderes que enfrentam estagnação ou até queda na popularidade em meio à pandemia, a depender da pesquisa, a aprovação da atuação de Modi chegou a 93,5% no fim do mês passado, de acordo com levantamento do jornal The Times of India.

Em 24 de março, quando o número de casos no país não passava de 500, Modi encarou o ônus político de decretar um "lockdown" rigorosíssimo.

Todos os meios de transporte foram suspensos, bloqueando a circulação de trens, ônibus, carros, motos e aviões –exceto para profissionais de serviços essenciais e de emergência, como policiais, bombeiros e os que atuam na área de saúde.

Quem fosse pego desrespeitando a quarentena estava sujeito a pena de até um ano de prisão.

Essas medidas rígidas, segundo especialistas, surtiram efeito, além do aumento de apoio popular a Modi, visto como líder decidido e eficiente.

O premiê indiano, Narendra Modi, participa de reunião com autoridades locais do estado de Bengala Ocidental
O premiê indiano, Narendra Modi, participa de reunião com autoridades locais do estado de Bengala Ocidental - 22.mai.20/PIB/AFP

O foco na resposta à pandemia trouxe também uma trégua para o governo, alvo de duras críticas por causa da implementação de medidas favoráveis à maioria hindu do país e prejudiciais a muçulmanos, equivalentes a 14,2% da população, ou 177 milhões de pessoas, segundo o censo de 2011.

No fim de janeiro deste ano, o premiê estampou a capa da revista britânica The Economist sob o título “Índia intolerante: como Modi está colocando em perigo a maior democracia do mundo”.

A indignação da comunidade internacional vinha na esteira da onda de protestos após a aprovação, em dezembro, de uma lei que facilita a obtenção de cidadania para imigrantes de Paquistão, Bangladesh e Afeganistão —desde que não sejam muçulmanos, o que foi visto como uma ação discriminatória e mais um passo no projeto de dominação hindu do premiê.

Assim, protestos se espalharam pelo país e ameaçavam o apoio ao primeiro-ministro. Mas o combate ao coronavírus trouxe uma oportuna mudança de assunto.

“Modi tem uma capacidade excepcional de transformar crises em oportunidades, mesmo quando fracassos de seu governo são expostos”, diz Milan Vaishnav, diretor do Programa do Sul da Ásia do think thank americano Carnegie Endowment for International Peace.

Por outro lado, o isolamento e a pandemia tiveram efeitos devastadores na economia, o que criou um dilema para o governo. “O 'lockdown' foi um dos mais rigorosos do mundo, mas não conseguiu achatar completamente a curva", diz Sadanand Dhume, pesquisador residente do instituto de pesquisas conservador American Enterprise Institute.

"Agora, o governo começou uma reabertura, porque a economia não aguenta, as pessoas estão passando fome. O problema é que a doença ainda não está sob controle.”

O "lockdown" acaba oficialmente no domingo (31), mas começou a ser flexibilizado em alguns lugares ainda no início de maio. Agora, cabeleireiros, lojas de eletrônicos e pet shops reabriram, ônibus voltaram a circular e casamentos pequenos podem ser realizados.

A mudança ampliou a circulação de pessoas nas ruas e levou a um salto no número de infecções. Na sexta (22), a Índia registrou 6.000 novos casos de Covid-19, maior aumento desde o início da pandemia.

A favela de Dharavi teve aumento significativo no número de casos, que chegaram a 1.583, além de 59 mortes.

É virtualmente impossível fazer isolamento social em Dhavari, cuja densidade demográfica é de 270 mil habitantes por quilômetro quadrado —cerca de 33 vezes maior do que na cidade de São Paulo.

Manter a higiene também é um desafio na comunidade onde poucos têm acesso a água potável e muitos compartilham banheiros públicos.

Com as caravanas de migrantes para cidades do interior, a situação no país pode piorar. Entre 60 milhões e 80 milhões de migrantes internos que trabalhavam como ambulantes, operários, pedreiros e motoristas de riquixá (espécie de carroça levada por uma pessoa) ficaram desempregados durante a pandemia.

Com as restrições, saíram de grandes cidades como Déli, Mumbai e Ahmedabad para voltar a seus vilarejos no interior, onde estão suas famílias.

No início, o governo havia fechado as fronteiras entre estados e exigiu que os migrantes ficassem em abrigos nas metrópoles —escolas adaptadas, lotadas e insalubres. Alguns ficaram nas instalações por mais de um mês.

“O 'lockdown' geral, embora tenha sido eficiente, foi implacável com milhões de trabalhadores migrantes, avisados com apenas quatro horas de antecedência de que o país ficaria completamente bloqueado", diz Sumit Ganguly, professor de ciência política e civilização indiana na Universidade de Indiana (EUA).

"Os abrigos que o governo organizou eram totalmente inadequados.”

Apenas em maio o governo passou a permitir a saída dos migrantes das cidades. Assim, a mesma cena se repetiu em diversas regiões do país: milhares de pessoas em ônibus e trens lotados ou caminhando centenas de quilômetros pelas estradas na tentativa de voltar para casa.

Além do risco de contaminação durante o trajeto, os migrantes deixam cidades onde há grande número de casos da Covid-19 e potencialmente levam o vírus para suas comunidades.

A Secretaria de Saúde do estado de Bijar disse à agência de notícias Reuters que, desde o início do mês, 70% de todos os casos de coronavírus na região estão ligados a migrantes.

Por fim, o desemprego bateu em 24% em meados de maio, segundo o Centre for Monitoring Indian Economy —a cifra era de 7,4% em 2 de fevereiro—, e o Conselho Nacional de Pesquisa Econômica de Déli projeta contração de 12,5% do PIB no ano fiscal atual, a menos que haja um enorme estímulo do governo.

Mas o plano anunciado por Modi há duas semanas foi considerado insuficiente por vários economistas.

O auxílio de US$ 260 bilhões (R$ 1,39 trilhão) apresentado pelo governo, na verdade, concentra-se em estimular e dar garantias a empréstimos privados a empresas em dificuldades, além de pressionar por reformas e privatizações que só terão efeito no médio prazo.

Recursos para transferência de renda, necessária para a população pobre, são parte minoritária do plano.

Modi aumentou gastos para o programa de empregos rurais, importante suporte para a população do campo, mas economistas esperavam mais auxílios a outros trabalhadores em situação precária.

Raghuram Rajan, ex-presidente do Banco Central da Índia e ex-economista chefe do FMI (Fundo Monetário Internacional), afirma que empréstimos demoram a funcionar, enquanto a fome é um problema imediato.

“O cenário é bem desanimador: A economia indiana já não estava em pleno vapor antes da pandemia, vinha de uma desaceleração prolongada”, diz Vaishnav, do Carnegie Endowment for International Peace.

Para Dhume, caso a situação econômica e sanitária se agrave e o apoio a Modi caia, o premiê e seu partido, BJP, podem se sentir tentados a culpar o bode expiatório de sempre —os muçulmanos.

Desde março, uma série de fake news se espalhou pelas redes sociais, acusando muçulmanos de disseminarem a doença e supostamente se engajarem em uma guerra santa, batizada de "corona jihad".

Vídeos falsos, que mostrariam muçulmanos cuspindo em alimentos ou deixando cair no chão notas de dinheiro contaminadas, tiveram milhões de visualizações.

“Existe o perigo de usarem mentiras para despertar a raiva em seus apoiadores, e isso é a última coisa de que a Índia precisa neste momento. É preciso união para lidar com uma emergência sanitária e financeira", diz Dhume, que está escrevendo um livro sobre o governo Modi.

O pesquisador, no entanto, acha pouco provável que a popularidade do premiê caia, mesmo se houver aumento no número de casos. “Até hoje, Modi tem conseguido se esquivar de todos os golpes, e não acho que a pandemia irá corroer seu apoio.”

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