Descrição de chapéu Coronavírus

Cidade colombiana mais infectada por coronavírus aponta dedo para Bolsonaro

Na fronteira com Brasil, Leticia registra maior taxa de incidência da Colômbia

Tabatinga (AM)

Isolada do resto da Colômbia e colada à cidade brasileira de Tabatinga (AM), Leticia, incrustada na selva amazônica, vive a pior crise sanitária de sua história. E, para muitos ali, a culpa pelo desastre cai na conta do governo Jair Bolsonaro.

“Não quero dizer de uma forma grosseira, mas parece que o presidente Bolsonaro não deu a importância que a epidemia exigia”, disse à Folha o prefeito de Leticia, Jorge Luis Mendoza, em entrevista por telefone.

“Em nosso contexto, Leticia e Tabatinga sempre foram cidades gêmeas. O que afeta um lado afeta o outro. Ficou essa janela aberta entre nós e o restante do Brasil. Foi por esse ponto que o vírus penetrou nessa zona tão isolada.”

Militares colombianos vigiam a fronteira entre Leticia e Tabatinga (AM), fechada desde março por causa da pandemia - Fabiano Maisonnave - 19.mai.20/Folhapress

Com uma fronteira seca e só acessíveis por barco ou avião, as duas cidades funcionavam como uma só —compartilhavam até a mesma avenida principal. Até que, em 17 de março, o governo colombiano fechou as fronteiras do país.

Mas a medida não impediu a circulação de pessoas, dizem os moradores. “A fronteira não são esses dez metros de rua”, diz Anitalia Pijachi Kuyuedo, líder comunitária do povo indígena okaira-muina murui. “Aqui, na minha comunidade, o Brasil está a 15 minutos. E tudo está povoado de gente que vai e vem, vai e vem. É utopia dizer que a fronteira foi fechada.”

Ela conhece diversos casos de pessoas infectadas que chegaram de barco do Brasil e culpa Bolsonaro pela falta de medidas de controle. “Todo mundo sabe o pensamento de Bolsonaro diante dessa ‘gripinha’, como ele disse.”

Assim como Tabatinga e outras cidades brasileiras da calha do rio Solimões, que registram as maiores taxas de incidência do país, Leticia se tornou a recordista colombiana de número de casos por 100 mil habitantes.

Até este domingo (24), a maior cidade da Amazônia colombiana acumulava 49 óbitos, um caso a mais do que Tabatinga. Um dos mortos foi o ator indígena Antonio Bolívar, conhecido pelo filme "O Abraço da Serpente", de 2015, indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

No entanto, à diferença da vizinha brasileira, com situação similar a diversas outras Brasil afora, Leticia é um ponto fora da curva na Colômbia.

Com apenas 0,1% da população da Colômbia, Leticia, de 49 mil habitantes, concentra 7% das 705 mortes por coronavírus do país. É, de longe, a maior taxa de mortalidade do país de 50 milhões de habitantes.

Para o prefeito, o resultado é que Leticia está ficando de fora da reabertura gradual de várias cidades colombianas a partir da primeira semana de junho —após dois meses de restrições, essa nova etapa foi batizada de “isolamento inteligente”.

Na contramão, a cidade vem adotando medidas mais duras. Um toque de recolher decretado em 14 de maio permite apenas uma saída de 4 horas por semana, escalonada por gênero e pelo número da cédula de identidade. Após as 14h, ninguém pode sair às ruas, assim como aos sábados e domingos.

Por exemplo, uma mulher cuja cédula de identidade tem final 1 só pode circular entre as 6h e as 10h de segunda-feira. Já um homem com final 9 em sua cédula tem autorização para sair de casa das 10h às 14h de sexta-feira.

Há cerca de uma semana, a vigilância foi reforçada por centenas de militares que patrulham as ruas vazias com macacões brancos, máscaras faciais pretas, viseiras, cassetetes e armas longas, em uma cena digna de filme de ficção científica.

Na linha fronteiriça com o Brasil, os soldados apoiam o controle da polícia.

A rotina é bem distinta do lado brasileiro. Embora apenas o comércio essencial funcione, as pessoas podem circular livremente, e há aglomerações diante da Caixa Econômica Federal e da lotérica, comuns em várias cidades do país.

Pelas ruas, há algumas feiras de alimentos. Em uma delas, os indígenas queimavam uma caixa de abelhas para se proteger do novo coronavírus. Nas esquinas, ambulantes vendem garrafas de refrigerante de 2 litros com gasolina contrabandeada do Peru, separado pelo rio Solimões.

“Na Colômbia, é mais rígido. A partir das 14h, ninguém está na rua. Aqui, não, a gente transita de dia, de noite, não tem tanta burocracia”, diz a comerciante Tamara Gomes, 23. Filha de pai colombiano e mãe brasileira, ela vai a Leticia quase todos os dias para entregar ração —uma das exceções do bloqueio.

Há permissão também para quem vive de um lado e trabalha do outro e para quem vai às farmácias, desde com receita médica. No lado brasileiro, o controle é feito pela Polícia Federal, com apoio da Força Nacional e do Exército, todos com máscaras.

"Por um lado, é bom, mas por outro, é ruim. O governo colombiano não dá a ajuda necessária de alimentos. Ontem, teve uma manifestação dos indígenas. Ninguém pode sair de casa, mas também não estão levando abastecimento”, diz Tamara.

Morador de Leticia, o padre jesuíta paranaense Valério Paulo Sartor criticou a militarização. “Vieram mil soldados armados para fechar a fronteira. Isso não resolve. Querem combater um inimigo invisível armado até os dentes.”

O missionário critica a falta de coordenação entre os três países e afirma que as decisões sobre a fronteira são tomadas nas capitais, ignorando a realidade local, em que a fronteira é “fictícia”. Citou o exemplo dos ticunas, povo indígena com populações no Brasil, na Colômbia e no Peru.

A Folha foi à prefeitura de Tabatinga, mas o prefeito Saul Bemerguy (PSD) não estava disponível para entrevista. A reportagem deixou uma solicitação de entrevista com número de telefone, mas ninguém retornou.

Sem coordenação regional

Médico da ONG Sinergias Alianzas, focada em saúde pública na Amazônia colombiana, Pablo Martínez é cauteloso em culpar o Brasil. Ele diz que o vírus pode ter chegado via turistas europeus ou de Iquitos, cidade da Amazônia peruana.

Por outro lado, ecoando a avaliação do padre Valério, ele afirma que as medidas de restrição de circulação —bem-sucedidas em outras partes da Colômbia— não surtirão o mesmo efeito na Amazônia sem uma estratégia multilateral.

“O problema deveria ser trabalhado como uma região, e não com limites nacionais. As condições em todos os países são semelhantes: poucos serviços de saúde, comunidades de difícil acesso, impossibilidade de levar pessoas às capitais”, afirma.

Assim como em Tabatinga, Leticia não dispõe de leitos de UTI, e os casos mais graves precisam de remoção aérea —um cunhado de Pijachi Kuyuedo foi transferido a Bogotá. Recentemente, chegou a faltar oxigênio nos dois hospitais da cidade.

Martínez diz que participou da elaboração de um proposta feita por especialistas em torno de um plano comum para os três países. No entanto não houve resposta de nenhum deles.

O médico ressalta que, apesar da proximidade ideológica entre Bolsonaro e o colega colombiano, Iván Duque, não houve coordenação para enfrentar a pandemia.

Para ele, os próximos dias serão críticos. “O tempo já acabou. As cidades grandes explodiram. Agora, vem a parte mais complicada, as comunidades indígenas. A doença pode significar uma catástrofe, a perda de uma grande quantidade de idosos, porque sabemos que há uma impossibilidade de resposta institucional nesses lugares.”

Questionado pela reportagem sobre o que gostaria de dizer a Bolsonaro, o prefeito de Leticia afirmou: “Que ele priorize a vida das pessoas. É preciso tomar medidas contra a propagação da doença. Com pessoas saudáveis, é muito mais fácil reativar uma economia golpeada. O principal é a vida”.

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