Colômbia vive crise institucional após revelação de rede de espionagem do Exército

Revista mostrou que Forças Armadas monitoravam jornalistas, políticos e ativistas de direitos humanos

Buenos Aires

A Colômbia vive uma crise institucional desde que, no último sábado (2), a revista Semana revelou que o Exército nacional realiza escutas ilegais para espionar as atividades de ao menos 130 pessoas.

Entre os vigiados, estão jornalistas colombianos e estrangeiros baseados no país, políticos e representantes de órgãos que defendem os direitos humanos, além de pessoas vinculadas à ex-guerrilha das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia).

O governo de Iván Duque, por meio de seu ministro da Defesa, Carlos Holmes Trujillo, negou ter conhecimento das ações e disse à imprensa local que investiga os envolvidos no caso. Ao longo da semana, 11 oficiais foram afastados de seus postos.

Membro do Exército colombiano, com helicóptero das Forças Armadas dos EUA, durante exercício militar conjunto no norte do país
Membro do Exército colombiano, com helicóptero das Forças Armadas dos EUA, durante exercício militar conjunto no norte do país - Juan Barreto - 13.mar.20/AFP

A rede criada pelos militares espiona seus alvos desde fevereiro de 2019 e produziu relatórios sobre cada um dos monitorados.

Segundo a publicação, esses informes reuniam endereços de casas, locais de trabalho e de lugares frequentados, além de contatos de amigos, familiares e, no caso de jornalistas, de fontes de informação usadas em reportagens.

Durante o período das ações secretas, o chefe do Exército era o general Nicacio Martínez, que acabou afastado do comando da força em dezembro, quando surgiram denúncias de que ele teria voltado a utilizar a estratégia dos chamados "falsos positivos" no combate ao crime organizado.

Essa prática, realizada nos anos 1990 e 2000, consistia em assassinar civis em áreas conflagradas e vesti-los com o uniforme de alguma guerrilha, declarando assim as baixas como mortos em combate.

Até hoje há processos abertos contra suspeitos de terem realizado o crime durante a gestão de Álvaro Uribe (2002-2010), inclusive o próprio ex-presidente.

A revelação provocou reação até do governo dos EUA, uma vez que há cidadãos americanos na lista de espionados.

Um deles foi o então correspondente do jornal The New York Times, Nick Casey, primeiro a revelar o caso dos supostos novos "falsos positivos".

Na terça-feira (5), o senador democrata Patrick Leahy afirmou que "o monitoramento de jornalistas e defensores de direitos humanos será examinado no momento de determinar a assistência militar dos EUA para a Colômbia". "É uma grave violação da confiança dos EUA, e os envolvidos têm de ser punidos."

A Colômbia recebe anualmente ajuda financeira e de inteligência para combater o narcotráfico.

Durante o governo de Juan Manuel Santos, o então presidente americano, Barack Obama, também se comprometeu a enviar mais ajuda para a implementação do acordo de paz com as Farc, aprovado pelo Congresso em 2016.

Já o atual líder dos EUA, Donald Trump, em encontros e conversas telefônicas com Duque, vem condicionando as novas assistências a uma política mais agressiva contra plantações de coca no país, cuja produção dobrou desde que se iniciaram as conversas sobre o pacto de paz, em 2014.

Entre os espionados está também Jorge Mario Eastman, ex-vice-ministro de Defesa de Duque, o que sinaliza que os grampos telefônicos do Exército também miravam ações do poder Executivo, e o diretor para as Américas da ONG Human Rights Watch, o chileno José Miguel Vivanco.

“As denúncias são muito graves. Espionar jornalistas, políticos e organismos de direitos humanos é um atentado contra o Estado de Direito", diz ele.

Outra pessoa monitorada foi a jornalista da rede Caracol María Alejandra Villamizar, cujo dossiê elaborado pelo Exército inclui multas de trânsito e a anotação de que "ela tem acesso às dissidências das Farc".

Já entre os jornalistas estrangeiros investigados estão Juan Forero, que reporta sobre a região para o jornal The Wall Street Journal, e John Otis, da National Public Radio (NPR), ambos veículos americanos.

O New York Times emitiu um comunicado no qual afirma se "preocupar com a notícia de que o Exército colombiano vigiou nosso correspondente no país". "Trata-se de um ato de intimidação à imprensa inconcebível e que precisa vir a público."

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