Descrição de chapéu Coronavírus Governo Trump

Texto de investidores de tecnologia impulsionou defesa da cloroquina por Trump

Obsessão do presidente americano pelo remédio nasceu em março no Twitter

Washington

Donald Trump vestiu mais uma vez seu habitual figurino transgressor e disse nesta segunda-feira (18) que está tomando hidroxicloroquina, medicamento usado no tratamento contra malária, como prevenção ao coronavírus.

Não há evidência científica de que o remédio tenha eficácia em casos de Covid-19 ou sirva de barreira contra a infecção pelo novo vírus, e órgãos de saúde americanos já emitiram alertas para que a substância não seja utilizada fora de hospitais e de estudos clínicos.

Donald Trump durante entrevista coletiva nesta segunda-feira (18)
Donald Trump durante entrevista coletiva nesta segunda-feira (18) - Brendan Smialowski/AFP

Ao contrariar sua equipe técnica, porém, Trump insiste na estratégia de tentar convencer apoiadores de que a realidade é o que ele profere na Casa Branca —e não o que afirmam especialistas.

"Tenho tomado [o medicamento] há cerca de uma semana e meia. Uma pílula por dia", disse o presidente a jornalistas, acrescentando que toma também uma dose única de azitromicina, um antibiótico destinado a prevenir infecções, além de zinco.

"Tudo o que posso dizer é que até agora parece que estou bem."

Aos 73 anos, o republicano tem sido testado diariamente para a doença e, até agora, a Casa Branca afirma que resultado foi sempre negativo.

A obsessão de Trump pela hidroxicloroquina teve origem no meio de março e seguiu um roteiro simbólico na construção do imaginário do presidente.

Nasceu no Twitter, espalhou-se rapidamente por fóruns de debate conservadores e ganhou destaque na Fox News, emissora de TV simpática a seu governo.

Em 11 de março, mesmo dia em que a OMS (Organização Mundial da Saúde) declarava pandemia global, três homens conversavam nas redes sociais sobre o remédio usado contra lúpus, malária e artrite reumatoide, mas ainda pouco explorado em casos de Covid-19.

James Todaro e Gregory Rigano, investidores do mercado de tecnologia, debatiam com o autointitulado filósofo Adrian Bye sobre tratamentos que poderiam ser eficazes para frear a pandemia.

"A cloroquina vai manter muitas pessoas fora do hospital. Os EUA ainda não sabem disso", escreveu Bye, australiano que hoje vive na cidade chinesa de Wuhan, origem do coronavírus.

Dois dias depois, Todaro e Rigano publicaram um documento no Google Docs com referência a estudos preliminares que mostravam resultados positivos do uso de cloroquina e hidroxicloroquina contra a Covid-19, mas que logo tiveram seus métodos questionados por outros cientistas.

Os investidores americanos diziam-se chancelados por universidades tradicionais, como Stanford, e pela Academia Nacional de Ciências dos EUA, que posteriormente desmentiram qualquer vínculo com o texto.

O prestígio emprestado falsamente por essas instituições, porém, fez com que o documento viralizasse na internet e levasse Rigano a ser entrevistado pela Fox News.

Um dia depois, em 19 de março, Trump falava pela primeira vez da droga no púlpito da Casa Branca.

"Se não sair como o planejado, não vai matar ninguém", afirmou o presidente na ocasião.

Parceiro de Rigano na autoria do documento, Todaro é formado em medicina pela Universidade Columbia, em Nova York, com especialização em oftalmologia. Diz que não é conselheiro médico e que o texto publicado em março fazia referência a "consulta com pesquisadores" de Stanford e da Academia Nacional de Ciências.

Os estudos sobre uso da cloroquina contra o coronavírus

"Havia muito pouca investigação clínica sobre a hidroxicloroquina antes de nosso trabalho", explicou Todaro à Folha. "Uma opção acessível e amplamente disponível, com evidências preliminares de eficácia, precisava ser urgentemente explorada."

Na véspera da divulgação do documento, Rigano afirmou que o faria acompanhado de um "eminente cientista" e que o texto seria revisado por pares. Mas foi Todaro quem apareceu como co-autor.

Questionado sobre a discrepância, Todaro disse que era preciso "perguntar para Rigano".

Procurado pela reportagem, o investidor disse que não concederia entrevista porque a Folha "só publica estudos negativos" sobre cloroquina e que tinha "vidas a salvar" —ele é formado em direito.

Já o autointitulado filósofo que vive na China disse que não teve relação com a produção do documento, mas pediu que seu nome fosse incluído quando o texto veio a público. "Apareci nos agradecimentos", afirma Bye.

Ele segue defendendo o uso da substância, mas pondera que não tem formação científica.

"Minha opinião pessoal é que esse tratamento provavelmente funciona. Reuni fontes públicas e populares sobre um tratamento que foi considerado bem-sucedido na Ásia, mas, por alguma razão, foi negligenciado no Ocidente."

Não por Trump, que seguiu sua cruzada na defesa do medicamento mesmo sem apoio de sua equipe técnica. Anthony Fauci, diretor do Instituto de Doenças Infecciosas, por exemplo, foi sempre cauteloso sobre o uso do remédio, dizendo que faltavam estudos mais robustos para confirmar sua eficácia contra Covid-19.

No início de abril, o Centro de Prevenção e Controle de Doença dos EUA (CDC, na sigla em inglês), principal órgão responsável pela resposta ao coronavírus no país, retirou de seu site as orientações para médicos sobre o uso dos dois remédios, alertando que eles ainda estavam sendo pesquisados.

A pressão de Trump fez com que a FDA, agência americana que regula alimentos e remédios, autorizasse o uso limitado em caráter de emergência para a cloroquina e hidroxicloroquina. No fim de abril, porém, o órgão acrescentou ser contrário ao uso do remédio fora de hospitais ou de testes clínicos por conta dos riscos de problemas cardíacos em pacientes com coronavírus.

Enquanto nos EUA o presidente desrespeita a permissão americana apenas para uso em casos graves e em ambiente hospitalar, no Brasil o protocolo já causou a queda de dois ministros da Saúde em menos de um mês.

A recomendação dos técnicos do governo brasileiro é que a cloroquina seja utilizada também só em casos graves, mas Jair Bolsonaro quer expandir a administração da substância.

O discurso de Trump em favor da cloroquina seguiu escalando até o fim de abril, mas o presidente havia silenciado sobre o tema à medida que os estudos recentes vieram à tona sem comprovar sua eficácia.

Diversos analistas avaliavam que era o fim de mais uma obsessão do presidente, mas a realidade ecoada por Trump navega de acordo com sua conveniência de manter esperanças mesmo falsas às vésperas da eleição.


O presidente e a cloroquina

19.mar 
Trump afirma em pronunciamento que a cloroquina e a hidroxicloroquina têm mostrado “resultados muito, muito animadores”

20.mar 
Principal conselheiro de Trump para a crise do coronavírus, Anthony Fauci diz, em entrevista coletiva na Casa Branca, que não há evidências sobre a eficácia dos medicamentos. “A informação à qual você se refere especificamente é anedótica”, afirma. “Isso não foi feito em um ensaio clínico controlado. Então você realmente não pode fazer nenhuma declaração definitiva sobre isso.” Trump interrompe para dizer: “Vamos ver. Vamos saber em breve”

21.mar 
No Twitter, o mandatário fala sobre o uso combinado da hidroxicloroquina e do antibiótico azitromicina: “HIDROXICLOROQUINA & AZITROMICINA, administradas juntas, têm uma chance real de serem uma das maiores mudanças na história da medicina. A FDA [agência que regula remédios e alimentos] moveu montanhas - Obrigado!”

4.abr 
“Vou dizer de novo: o que você tem a perder?”, questionou Trump, pronunciando com cuidado hidroxicloroquina durante entrevista coletiva na Casa Branca, onde deu sua prescrição presidencial: “Tome”

5.abr
Pelo segundo dia consecutivo, o presidente se pronuncia sobre o medicamento. Ao sugerir que fala por instinto, afirma que a hidroxicloroquina está sendo testada e que “há fortes, poderosos indícios” do seu potencial. “Mas o que eu sei? Não sou médico”, acrescenta

13.abr 
Durante entrevista coletiva na Casa Branca, o presidente volta a destacar possível eficácia do medicamento: “Está tendo alguns resultados muito bons”. É uma das últimas vezes que se pronuncia sobre o assunto no mês de abril

21.abr 
O Instituto de Doenças Infecciosas, liderado por Fauci, anuncia que não há eficácia comprovada de nenhum medicamento no combate à Covid-19

22.abr 
Richard Bright, que comandava a Barda, agência do governo responsável pela produção de vacinas e medicamentos, diz ter sido demitido por pressionar por veto do uso da hidroxicloroquina no tratamento do coronavírus

24.abr 
A FDA alerta sobre os riscos da cloroquina e da hidroxicloroquina, que podem causar anormalidades graves no ritmo cardíaco, e recomenda o uso apenas em testes clínicos ou em hospitais onde pacientes podem ter risco cardíaco monitorado de perto

3.mai 
À Fox News, Trump diz que há pesquisas mostrando a eficácia da hidroxicloroquina ao ser questionado sobre estudos que apontaram problema cardíaco ligado ao remédio; o presidente destacou que foi apenas um estudo contrário​

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