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Depoimento

Coreia é lugar seguro de morar mesmo durante uma pandemia, diz brasileiro

Rotina mudou pouco, mas novos casos de contaminação em Seul acenderam alerta

Kevin Bustamante
Seul

Na Ásia, de onde a Covid-19 se espalhou pelo mundo, o auge da pandemia parece ter passado. A Folha reuniu relatos do dia a dia no Vietnã, em Singapura, na China e na Coreia do Sul, que dão pistas de como deve ser a vida pós-coronavírus.

Aqui não teve quarentena decretada pelo governo. Dá para sair na rua, os ônibus passam com a mesma frequência, as pessoas andam de transporte coletivo. Eu sempre dou um passeio pelo bairro, saio para jantar fora de vez em quando. Minha namorada é instrutora de voo e não parou de trabalhar durante todo esse período. Fiquei surpreso.

Máscaras não são obrigatórias, ninguém vai chegar para você e te dizer que não pode entrar sem nos lugares, mas é incrível como os coreanos seguem essa recomendação. No metrô, é impossível ver alguém que não use.

Garota com máscara brinca com bolhas de sabão em shopping em Gimpo, na Coreia do Sul
Garota com máscara brinca com bolhas de sabão em shopping em Gimpo, na Coreia do Sul - Kim Hong-Ji - 1º.mai.20/Reuters

Em alguns prédios públicos há mais controle: fui renovar meu visto no setor de imigração e lá tem câmera que mede temperatura, álcool em gel na entrada, eles anotam seus dados. Mas no mercado e em outros lugares não têm isso.

A tática da Coreia foi controlar a entrada de pessoas no país. Qualquer viajante que chega, coreano ou não, tem que pagar US$ 1.400 [R$ 8.200] para ficar de quarentena por duas semanas em alojamentos do governo. Estrangeiros podem fazer testes de coronavírus de graça quando quiserem, mesmo sem motivo.

O governo também é muito bom em mandar mensagens SMS para todos os residentes no país. Quando detectam que uma pessoa infectada esteve próxima a você, eles mandam avisos de onde ela passou, em qual horário, onde mora... São muito precisos nas informações.

Não é que tiram a liberdade da pessoa. Tem até gente que pensa dessa forma, mas, por outro lado, é muito seguro. Mesmo durante uma pandemia, a Coreia é um lugar seguro de morar.

Na minha vida, a única coisa que mudou é que não tenho mais aulas presenciais na universidade, são todas online.

O brasileiro Kevin Bustamante, que vive em Seul, na Coreia do Sul
O brasileiro Kevin Bustamante, que vive em Seul, na Coreia do Sul - Kevin Bustamante

Agora, em maio, teve uma segunda onda de contaminação, com o pessoal mais novo sendo afetado pela doença. Recentemente uma pessoa infectada foi a uma balada e transmitiu o vírus para muita gente.

A mesma coisa ocorreu em um bar em frente à minha faculdade: um frequentador que tinha o vírus e esteve lá e só descobriu que estava doente depois.

No caso desse clube noturno, era uma balada LGBT e muita gente não se apresentou depois para fazer o teste porque ficou com medo de que alguém descobrisse que estava nesse local.

Aqui esse ainda é um assunto tabu, muita gente não tem abertura para falar com a família. Então teve esse problema.

Depois desses episódios de contaminação, os clubes noturnos foram obrigados a fechar novamente. Já os bares continuam funcionando.

Aqui ainda é bem mais seguro que o Brasil, mas o pessoal está tomando mais cuidado agora. Porque se começarem a subir os casos na capital, vai ser difícil controlar.

Minha namorada mora fora de Seul e está superpreocupada de vir para cá.

Havia também um plano de voltar com as aulas para algumas turmas, mas, diante dessa nova onda, desistiram.

Para algumas pessoas, como para quem tem filhos pequenos, a vida mudou mais que a minha. Costumo passar por um bar e sempre vejo uma menininha, que deve ser a filha do dono, deitada em uma poltrona embaixo da mesa, sem fazer nada.

Com certeza ela antes estaria na escola ou em atividades extracurriculares, que as crianças aqui fazem muito. Agora ela está sem ter o que fazer, fico morrendo de pena.

Kevin Bustamante, 22, estuda ciência e engenharia da computação em uma universidade de Seul. Depoimento a Flávia Mantovani.

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