Descrição de chapéu Diário de Confinamento

Diário de confinamento: 'As pessoas meio que gritam entre si'

Os distanciados sociais soamos como adolescentes mutantes; ou surdos

Dia #70 – Sexta, 22 de maio. Cena: “…Y aunque los sueños se me rompan en pedazos / Resistiré, resistiré”.

Uma voz ao longe, filtrada pelo funil metálico do megafone, pede ordem na fila.

Vivo em frente ao mercadão do meu bairro. No último sábado (16), a supracitada fila dobrava o quarteirão. Controle de lotação.

uma senhora, de cabelos curtos e loiros, com blusa preta e uma máscara nas cores da bandeira espanhola, vermelho e amarelo, bate duas tampas de panela
Mulher protesta em Barcelona contra o governo espanhol, em meio ao relaxamento da quarentena de coronavírus no país - Pau Barrena - 22.mai.20 / AFP

Dois funcionários com aventais anotavam pedidos de quem esperava ao sol do meio-dia: frutas e verduras, embutidos, queijos, carnes, frutos do mar. Vinhos, conservas, moscatel. O usual, com uma diferença: as pessoas meio que gritam entre si.

A voz do Novo-Papo-a-dois-metros é mezzo esganiçada, mezzo amistosa-agressiva. Estamos provando projeções vocais nunca dantes navegadas. Os distanciados sociais soamos como adolescentes mutantes. Ou surdos. “E AÍ, JUAN, COMO ESTÁ A SENHORA?”. “BÉ, BÉ! BOM TE VER, HEIN!”

Além de esperas diligentes e interações sociais relutantes, o maior desafio do Novo Normal na Espanha é o uso obrigatório das máscaras, mesmo em áreas ao ar livre. Com esses dias fritopan de pré-verão, já tem médico na imprensa dando conselhos pro cidadão mascarado não ter um treco na rua.

A partir de segunda-feira (25), Barcelona e Madri passam finalmente à segunda etapa do desconfinamento, chamada de fase 1. Com isso, teremos 53% do país na fase 1 e 47% passando à fase 2 (de um total de 4).

De maneira progressiva, as diferentes etapas vão liberando encontros em grupos limitados e reabertura de estabelecimentos comerciais e culturais com ocupação reduzida.

O espanhol vai dando seus pulos pra se sentir Normal novamente. O calor, no último mês, aumentou em 350% a venda de piscinas desmontáveis na Espanha. E olha que as lojas físicas ainda nem abriram, é tudo online.

Cresceram exponencialmente também as consultas técnicas para instalação de piscinas ou espelhos d'água em áreas comuns de edifícios e terraços.

Em Málaga, terra natal de Picasso, já em fase 1, imagens de bares repletos de gente no passeio marítimo geraram polêmica nesta semana. O ciudadano encaixotado está ávido por socializar. Saiu até briga.

O governo já fala em pedir ao Congresso uma sexta prorrogação do estado de emergência, estendendo-o assim até o final de junho, quando se espera que termine a desescalada do confinamento.

A perspectiva é algo difícil. Esta semana termina com drásticas tensões no Congresso, depois que o Executivo tornou público na quarta (20), sem aviso prévio, o plano de agilizar a revogação da reforma trabalhista, aprovada por decreto pelo Partido Popular (PP) em 2012 (então no poder e, atualmente, principal partido de oposição).

A tal revogação é um dos grandes pontos de união da esquerda espanhola e foi um dos argumentos eleitorais da coalizão de esquerdas PSOE-Podemos atualmente no poder.

Mas a notícia vazou num péssimo momento, num contexto de crise em que as colunas dos Contra crescem tanto entre esquerdas e direitas, e a população sai às ruas instigada pela oposição (inclusive, há uma manifestação convocada pelo ultradireitista Vox para este sábado na Catalunha —todos de carro, pra manter o distanciamento social).

Não só: saiu sem conhecimento prévio de alguns membros do alto escalão.

Ficou malz pro governo. Antes do fim do dia, depois de ásperas altercações no plenário, alguém já havia corrido pra transformar a "revogação" em "recuperação de direitos trabalhistas” em uma nota oficial.

Ajustes retóricos de lado, a partir da próxima segunda, com Barcelona oficialmente em fase 1, vou finalmente poder rever os amigos. Em teoria, sem abraços. Vamos ver se serei capaz de projetar minha voz de canarinha por cima da emoción e da postura blasé obrigatória.

Saio, sim, mas com o corazón na mão. Pensando no meu país além-mar, onde demasiadas caixas se empilham, olhos marejam, e o caminho é longo.

“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui.

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