Diário de confinamento: 'Confinados por um fio'

Por 178 votos a 172, Congresso espanhol decide pela continuidade do estado de emergência

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #54 – Quarta, 6 de maio. Cena: abrindo um bom Ribera del Duero em homenagem a um amigo querido que tem um blog muy massa chamado Pisando em Uvas e segue confinado em São Paulo city.

Eu aqui tentando arrebanhar todos os pensamentos e informações sobre um dia do balacobaco cá na Península Ibérica, quando tomo um desvio de estrada e clico numa notícia sobre a perda de peso da Adele.

O premiê espanhol, Pedro Sánchez, em sessão de debate no Parlamento
O premiê espanhol, Pedro Sánchez, em debate no Parlamento - Ballesteros via Reuters

As recentes imagens esbeltas da cantora nas redes sociais atraíram a atenção moondial pra uma nova dieta estrambólica de nome igualmente estrambólico: sirtfood diet, aka dieta sirt, baseada em alimentos ricos em um troço chamado sirtuína.

(Que me faz pensar em Guimarães Rosa, cajuína cristalina em Teresina e febre suína.)

(Voltando, que esse confinamento prolongado me deixa um pouco errática:)

Nesta quarta-feira (6), entre sopapos e poucos abraços, o governo espanhol conseguiu aprovar, por 178 votos a 172 (sendo 75 contra e 97 abstenções), a quarta prorrogação do estado de emergência nacional.

A árdua vitória foi possível graças à negociação de último minuto com três partidos, incluindo o Cidadãos, quarto em presença no Congresso.

Em troca desse apoio, o governo topou, entre outras coisas, oferecer mais participação nas decisões, acelerar a transição pós-estado de emergêcia e transferir as ajudas sociais emergenciais para uma nova configuração jurídica.

"O governo tem que ter um plano B jurídico", insistiu hoje a líder do Cidadãos, Inés Arrimadas.

Com isso, o país permanece na rota da desescalada proposta originalmente pelo Executivo. Estão previstas de seis a oito semanas de desconfinamento gradual em quatro etapas, com diferentes timings conforme o território.

Foi por pouco. Em muitos momentos ao longo da última semana, as crescentes tensões políticas apontaram para uma possível desintegração de planos. Alguns analistas começaram a contemplar a hipótese de saída súbita do confinamento espanhol, com potenciais consequências catastróficas.

O mecanismo do estado de alarme precisa ser renovado a cada quinzena, com aprovação do Congresso.

O clima de união-contra-um-mal-maior do princípio da crise já é uma quimera. Para instauração do estado de emergência, em meados de março, 321 dos 350 deputados votaram a favor. Agora, com o país em compasso de contar prejuízos e mirar o futuro, crescem os antagonismos à gestão da crise.

Entre as vozes dissidentes, o líder do principal partido de oposição, Pablo Casado (PP), fez duras críticas ao governo e declarou hoje abstenção —pra não se molhar, como se diz aqui.

Já o terceiro partido do Congresso, o ultradireitista Vox, de Santiago Abascal, votou retumbantemente contra a continuidade do estado de emergência.

Não só: Abascal também convocou manifestações em todo o país (cumprindo as medidas de distanciamento social, garantiu) e sugeriu que poderá abrir uma moção de censura ao governo. Tem cadeiras suficientes pra isso, apesar de ser uma voz praticamente solitária no momento.

"A responsabilidade é do primeiro partido da oposição, mas, se ele a delega, talvez outro grupo tenha que agir", disse hoje, em indireta-direta ao PP.

Notório por suas opiniões conservadoras (vulgo, por exemplo: contra o aborto, o casamento homossexual e as “leis totalitárias de ideologia de gênero”), Abascal surpreendeu (e virou meme) ao adornar seu discurso de hoje com um: "As pessoas devem poder amar quem queiram, senhor Sánchez" (procurem o vídeo na internet e vejam a arqueada de sobrancelhas do premiê nesse curioso momento).

"Deve ser muito duro para os homossexuais que vocês continuem rendendo homenagem a seus perseguidores e assassinos (hã?). No Vox, não desprezamos ninguém por sua tendência sexual" (tuu – tuu – tuuu).

A vitória do Executivo nesta difícil quarta-feira está longe de ser o fim da treta —mais precisamente, prenuncia o tom conturbado dos próximos tempos de reconstrução.

Enquanto isso, as manchetes espanholas vão timidamente admitindo assuntos extra-coronavírus.

Por exemplo: o setor de suinocultura catalão anunciou esses dias sua preocupação com um possível surto nacional de outro vírus, a febre suína africana, que mais ou menos desde 2007 vem se alastrando pelo leste e já chegou às fronteiras alemãs.

Minha mente já divaga novamente entre vírus e revírus e pousa de leve na thread inicial da Adele. Lembrei: vinho, senhoras e senhores, entra na dieta sirt.

“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui.


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