Diário de confinamento: 'Espanha avança pela metade'

Na segunda (11), metade da população entra na fase um da desescalada, com reabertura de bares, restaurantes e pequenos comércios

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #58 – Domingo, 10 de maio. Cena: Vi “Epidemia” (1995) ontem e tive altos pesadelos epidêmicos.

Feliz dia do feeling maternal!

Gosto mais de algo assim que de FelizDiaDasMães. Chamem de sacrilégio ou pegar carona em festa alheia, eu chamo de unir-se à celebração. Que podemos ser todos mães, em inúmeros sentidos e quesitos.

E filhos, e seres queridos e querentes, e tex rex, corazones confinados com vontade de voar, voar; subir, subir; ir por onde for...

Funcionário prepara restaurante para reabertura na segunda (11), em Guadalajara, Espanha
Funcionário prepara restaurante para reabertura na segunda (11), em Guadalajara, Espanha - Sergio Perez/Reuters

O Dia das Mães espanhol foi no domingo passado. Aconteceu discretamente, com todo mundo ainda metido em casa vendo propaganda de tempero sazon na tevê.

Se a minha mãe não vivesse a um oceano de distância e eu tivesse um unicórnio voador, poderia finalmente visitá-la e abraçá-la (abraço: esse gesto-urso de tempos antigos).

Como agorita mesmo não dá, falamos por vídeochamada mesmo, toda a diáspora filial colada em janelinhas virtuais para um clássico oi-mamãe de segundo domingo de maio (por cierto, não sou a única da família morando na gringa!).

Nesta tão esperada segunda-feira (11), 51% dos espanhóis entram na tal fase um da desescalada, depois de quase dois meses de confinamento.

Isso significa uma miríade de coisas, nem todas totalmente claras a esta altura.

Primeiríssima coisa aparentemente clara e amplamente desejada: na fase um, passam a ser permitidos encontros de até dez familiares, amigos e whatevers, desde que respeitadas as regras de distanciamento social (dois metros, máscara, tossir no cotovelo, dizer “oi” de longe a um familiar que não se vê há dois meses, comportar-se como uma Gioconda pueril mascarada na próxima festinha na casa do Pepe etc. etc.).

Falô. Já veremos.

Outro exemplo de coisa-a-princípio-clara: algumas rotas aéreas e marítimas dentro das ilhas Baleares e Canárias serão reabertas, com até 50% da lotação de aeronaves e quetais.

Os dois arquipélagos fazem parte do seleto time da fase um, ao reunir requisitos sanitários e socioeconômicos adequados para assumir um relaxamento de normas. Desde sempre, estão entre os territórios menos atingidos pelo vírus.

Muitos canários têm família ou trabalho em diferentes ilhas. A abertura permitirá que eles se movimentem pelo arquipélago e, como antes da pandemia, com preços preferenciais. A comunicação com o continente permanece fechada.

Terceira novidade: negócios com menos de 400 m² nos territórios da fase um poderão reabrir com 30% (comércio) a 50% de suas capacidades, no caso de bares e restaurantes —estes, só com a parte exterior em funcionamento.

As mesas ao ar livre deverão estar separadas por dois metros entre si, e cada mesa não pode ter mais de dez pessoas. Em alguns lugares, quem não tiver terraço vai poder botar um barril ou mesinha fora.

Os problemas nascem com as minúcias práticas.

Por exemplo. Essa lotação hipotética de 10-pessoas-por-mesa funciona (matemática básica) se você tem pelo menos 20 lugares à disposição no seu bar.

Mas, considerando que 72% dos terraços de Barcelona têm capacidade para menos de 16 cadeiras, isso significa que com apenas, por exemplo, duas mesas de quatro a maioria dos negócios com mesa ao ar livre da cidade já lotaria na fase um.

Pra atenuar essa perspectiva um tanto desoladora para muitos negócios, a prefeitura de Barcelona está providenciando a ampliação das áreas ao ar livre de restaurantes e bares.

A ideia é também cortar 75% da taxa obrigatória para terraços uma vez acabe o estado de emergência —o que significará sete milhões de euros menos para os cofres públicos, mas também uma ajuda amiga para um setor que, com o turismo, sustenta boa parte da economia da cidade.

E que, nos próximos meses, nos dará também a alegria de poder sentar ao sol e pedir um vermú, umas “bravas”, um “vinito”, una “caña” (cerveja).

Aqui em Barcelona, como em Madri, a gente segue na chamada fase zero por pelo menos mais uma semana. Saindo em horários restritos. Negócios permanecem fechados. Nada de reuniões. Nada de abraços. Em breve. Fugir, meu bem, pra ser feliz...

“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui.


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