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Diário de confinamento: 'Lições da cólera em tempos de coronavírus'

No século 19, ignorância, disputas e comportamentos irresponsáveis levaram à morte de milhões de pessoas

Dia #78 – Sábado, 30 de maio. Cena: escolas reabrirão em junho na Catalunha como um “treino” para o início do ano letivo, em setembro.

Vacina, estamos todos falando de coronavacina nestes dias: 124 frentes, 10 já testando em humanos, 5 dessas, chinesas. Tremendo score contra-o-tempo.

Com um tênue fio conector, o ministério da Ciência espanhol aproveitou a deixa pra homenagear nesta semana uma das superestrelas do panteão científico nacional —mas não por seus louros mais conhecidos. E, se vamos examinar a história, tampouco sem algo de polêmica.

Cientista com doses de possível vacina que passa por testes na Tailândia - Mladen Antonov - 23.mai.2020/AFP

Santiago Ramón y Cajal, considerado o pai da neurociência, está em nome de rua, escola, hospital. O tipo de antiherói que faria sucesso nas telas tarantinescas.

Adolescente rebelde, se meteu em tanta treta que foi parar uns tempos na prisão. Ia mal em tudo na escola, só gostava de desenhar. Quando perdeu um duelo pra impressionar uma garota, resolveu se dedicar ao fisiculturismo, transformando-se num pioneiro no país. A boa forma o salvou de morrer de malária, bala e desnutrição ao lutar, do lado espanhol, na Guerra dos Dez Anos de Cuba. Aos 21 anos, era um "pibón" ("persona muy atractiva", conforme a academia espanhola).

De regresso, o pai, um pastor semianalfabeto super genius que se alfabetizou sozinho e se formou em medicina aos 50 anos (aaah, os maravilhosos prodígios anônimos), decidiu que o filho tinha que seguir o mesmo caminho.

Corta pra Cajal se transformando num dos mais brilhantes médicos pesquisadores de todos os tempos mundiais e dividindo o Prêmio Nobel em 1906 com o citologista italiano Camillo Golgi (sim, do também famoso complexo de Golgi!) por registrar nada mais, nada menos do que a existência definitiva d'Os Neurônios e suas conexões (em neon, por favor).

Que, por inspiração poética, creio, chamou de "besos" (beijos). Beijos entre nossas sinapses, olha que bonito.

E aí tu pergunta, e o que tudo isso tem a ver com vacina?

Pois Cajal também é considerado um dos pais da vacina da cólera —com o detalhe de que, ao contrário dos dentritos mentais, não costuma ser muito lembrado por esse feito.

Na primavera de maio de 1885, a província catalã de Valência estava em pânico coletivo por conta de um surto de cólera. Naquele tempo, o único tratamento conhecido era a quarentena.

Surge neste momento o segundo personagem dessa história, mas não menos importante: o também médico infectologista catalão Jaume Ferran i Clua, sumidade em sua área, que em uma de suas fotos mais famosas posa portentoso com seringa e um pobre porquinho da índia.

Ferran, outro outsider, mas por seus métodos científicos, foi chamado pra dar uma ajuda em Valência. No ano anterior, durante a epidemia de cólera na vizinha Marselha, a pedido do governo de Barcelona, já havia ido à cidade francesa para colher amostras e desenvolver uma vacina. Foi parado pelo governo espanhol na fronteira, escondeu uma amostra na meia, voltou pra casa e testou nele e na família, com sucesso.

Uma vez em Valência, injetou a tal vacina, baseada em bactérias "amortecidas", em umas 30 mil pessoas. Naquele ano, morreram na Espanha 66 mil pessoas de cólera —dos quais, somente 54 dos 30 mil de Ferran.

Talvez mais vidas pudessem ter sido sido poupadas se os métodos experimentais de Ferran não tivessem sofrido mil ataques de todos os lados, inclusive do governo, e o precioso tempo não fosse, digamos, desperdiçado em contendas mil.

Ramón y Cajal, homenageado nesta semana, foi o grande crítico dos métodos kamikase de Ferran, e (dizem as más línguas, por inveja) se dedicou a estudar um novo caminho para a imunização da população.

Em um estudo que se afundou no esquecimento porque na época saiu só em espanhol, ele propõe a inoculação dos bacilos mortos, e não vivos, como utilizava Ferran, minimizando efeitos colaterais e melhorando a eficácia da vacina.

Infelizmente, nem Ferran nem Cajal puderam impedir que a epidemia se alastrasse por todo o país.

Tampouco puderam impedir a estupidez popular. Vejam se não soa familiar: em Valência, em plena emergência sanitária, o governo convocou uma procissão da Virgem dos Desamparados, seguida da festa do patrono da cidade, Sant Vicent. Ambas aceleraram a propagação da epidemia e resultaram num catastrófico colapso sanitário dias depois.

O surto de 1895 foi apenas o quinto de seis que ceifaram a vida de 800 mil espanhóis no século 19. Cifras assustadoras da era pré-vacina, eternizadas por Mark Twain em suas crônicas reunidas em "The Innocents Abroad".

Inspirado em seu cruzeiro europeu, exatamente durante uma epidemia de cólera, o livro se transformaria em uma popular guia de viagens no princípio do século 20. Entre outras aventuras, o escritor escapou de uma quarentena a bordo para visitar a Acrópole em Atenas (bad, bad boy) e contraiu cólera em Damasco, na Síria.

“Bastante doente às 4 da manhã”, escreve. “Nas últimas 24 horas (…) estive prostrado com um violento ataque de cólera, (…) e portanto tive uma boa chance e uma boa possibilidade de (…) ter um honesto descanso. Nada pra fazer a não ser ouvir o tamborilar das águas, tomar remédios e vomitar tudo de novo” (Mark Twain Notebooks, September 15, 1867).

“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui.

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