Diário de confinamento: 'Nazaré confusa e fila pra cerveja'

Apenas 20% dos bares e restaurantes de Barcelona abrem nesta segunda-feira

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #73 – Segunda, 25 de maio. Cena: Dios, como voa el tiempo.

"Mais pra cá! Aí, aí!"

Barcelona, Passeig de Fabra i Puig. Um pouco longe do centro turístico, essa "rambla" ou boulevard estava a toda no fim de semana —mas não pelos motivos usuais.

O amplo calçadão central ladeado por duas ruas de uma única faixa e pincelado por filas de árvores é um fenômeno urbano típico de Barcelona, onde os pedestres mandam tanto quanto os carros.

Quase todo bairro tem o seu, como uma espécie de espinha dorsal ou corazón da vida local, que concentra bares, restaurantes e pequeno comércio. É onde o morador vai tomar um café, fazer o vermute, passear com o cachorro.

Homem prepara bar na Plaza Mayor, em Madri
Homem prepara bar na Plaza Mayor, em Madri - Pierre-Philippe Marcou/AFP

No último domingo à noite, seguindo as regras ainda vigentes do confinamento, quase nenhum dos negócios ao longo dessa ampla avenida estavam abertos.

Mas Josep, 45, dono de um bar de "tapas" tradicional do bairro, podia ser encontrado agachado no cimento, concentrado, medindo a distância obrigatória entre as mesas sob uma cobertura de lona, com a ajuda de uma trena e de dois funcionários. Como eles, vi outros. Focados no tetris da nova fase.

"Precisamos fazer milagre aqui, mas é possível", disse. "Das seis mesas que tenho, na fase 1 só vou poder utilizar três. A gente conta com o freguês local... Depois de dois meses, todos queremos sair um pouco."

Cálculo simples, contas, nem tanto. Apenas 20% dos bares e restaurantes reabriram nesta segunda-feira na cidade. O motivo: para a maioria, não compensa (ou sequer têm terraço). Vão esperar a fase 2, em 15 dias, quando a lotação máxima de 50% será estendida para os salões interiores.

A novidade gerou confusões e dúvidas, ao se sobrepor às limitações de circulação ainda valendo na cidade. Haja régua de fluxograma e canetinha colorida.

Por exemplo: se eu só vou dar um rolê, não posso me afastar mais do que um quilômetro de casa; mas, se for tomar uma cerveja, posso atravessar a cidade?!

Ou: se eu for fazer esporte, só posso sair de manhã ou à noite; mas e se for almoçar com amigos, pode sair?

Lembrei do meme da Nazaré Confusa, que, não sei se vocês sabem, mas é um sucesso também na gringa. Usam sem nem saber de onde veio. Aqui chamam de "mujer calculando". :)

Pra celebrar a volta dos bares, alguns fizeram um intensivão. Começaram com um café, seguiram com a cerveja e terminaram com almoço.

É o caso de um amigo inglês, que me manda uma foto de um restaurante no bairro de Gràcia (numa linha reta, a uns 3 quilômetros de sua casa). Feliz da vida. "Minha primeira conversa que vai além do ‘una bolsita, por favor’ em mais de dois meses!”

Comemorava com colegas de trabalho a novíssima permissão de se reunir com outras pessoas (encontros entre grupos de até 10 pessoas são outra novidade desta nova fase da desescalada).

Em Madri, havia hoje filas de até uma hora e meia para tomar algo ou almoçar em um dos restaurantes do centro.

O Três Mares, um estabelecimento tradicional de frutos do mar, de preço tipo três-cifrões (40 euros, ou R$ 238, em média por pessoa), contava hoje com 40 cadeiras em vez das regulares 90. Na reabertura, estava ali a vice-prefeita.

Contraste grande com 70% dos bares com área ao ar livre de Barcelona, que têm no máximo quatro mesas cada um (e, portanto, podem habilitar duas nesta semana, com oito cadeiras no total).

Eu me levantei nesta manhã e fui caminhar pelo meu bairro, como tenho feito nas últimas semanas, dentro do horário permitido. Vagamente queria um café, mas as poucas mesinhas no caminho estavam tomadas.

Na minha imaginação, esperava encontrar caras exultantes, conversas entusiasmadas, encontros efusivos. Não vi nada disso.

Em vez disso, o cansaço e o tédio aparente habituais. Faltava só o encefalograma plano. Como se não houvesse passado dois meses e 12 dias desde a última vez. Como se nada.

Talvez seja o cansaço. Talvez seja o meu cansaço.

Um homem solitário, esparramado em uma cadeira dessas marca-bunda de alumínio, acompanhou-me com o olhar, a máscara arriada no queixo e um "cortado" (café curto) na mesa.

"Pode sentar comigo", convidou. O flerte é besta. Mas hoje até fez sentido.

“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui.

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