Diário de confinamento: 'Nos deram um pouco de liberdade e agimos como se o vírus não existisse'

Desrespeito às normas da quarentena começam a gerar primeiros novos surtos da desescalada

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #79 – Domingo, 31 de maio. Cena: muita gente na rua neste domingo em Barcelona.

Um amigo músico americano, vivendo a desescalada em New Orleans, me contou ontem um causo curioso. Convidado pra se apresentar há alguns dias numa festa de aniversário de um conhecido, tocou para —ninguém.

Ou, pra ser mais precisa: os três organizadores da festa se postaram na calçada em frente à casa enquanto os convidados passavam de carro, saudando com a janelinha aberta. Trocavam um dedo de prosa e, como um drive-thru de feliz-aniversário, davam lugar para o seguinte.

Enquanto isso, aqui na Espanha, com as primeiras liberdades pós-corona, começam a vir à tona os primeiros abusos e consequentes mini-novos-surtos de contágios.

Em Ceuta, uma única festa de aniversário com 80 pessoas (o máximo permitido na fase 2, na qual se encontra a região, são reuniões de 15) quase leva ao recuo da desescalada na cidade inteira. Estão todos de quarentena, junto com outras 191 pessoas.

Pessoas jantam em restaurante próximo à praia de Barceloneta, em Barcelona
Pessoas jantam em restaurante próximo à praia de Barceloneta, em Barcelona - Pau Barrena - 30.mai.20/AFP

Uma muy irregular festinha "pija" (ou seja, de gente, hmm, abonada) em Córdoba, na qual estava presente um jovem príncipe da realeza belga, resultou em quase 30 pessoas em quarentena e uma denúncia daquelas. A multa para infrações do tipo pode ir de 600 a 10 mil euros (R$ 3.554 a R$ 59,2 mil).

Já na Catalunha, a província de Lleida não vai avançar em sua desescalada por conta de quatro focos: uma festa de aniversário de 20 pessoas, com 4 positivos que acabaram infectando todos os presentes (a fase 1, na qual se encontra a região, só permite reuniões de até 10 pessoas); uma residência de idosos; contágios em centros de saúde; e quatro matadouros.

O setor agroalimentício, por sinal, é um dos que têm se mostrado especialmente vulneráveis no novo contexto. Nos supermatadouros de Lleida, onde trabalham muitos imigrantes, trabalhadores e organizações sindicais vêm denunciando más condições de alojamento e segurança sanitária.

Empresários e governo, por outro lado, asseguram que estão buscando cumprir as normas e que parte das contaminações se deve à falta de organização dos próprios funcionários.

Some-se a isso o fato de que algumas condições inerentes a esse ambiente de trabalho, como as baixas temperaturas, favorecem a transmissão do vírus, e temos um "gotejar diário de contágios de trabalhadores dessas companhias", segundo relatou um funcionário da Saúde da província a um jornal local.

Já na zona rural, entre os muitos imigrantes em situação legal ou irregular que vêm ao país para trabalhar nas colheitas de época, o grande desafio é controlar as aglomerações em pensões improvisadas e superlotadas.

Em Totana, uma cidade de 35 mil habitantes de Múrcia, no sudeste do país, onde quase 30% da população são "temporeros" de mais de 60 países, foram identificados na semana passada seis casos positivos e isoladas por volta de 50 pessoas.

As equipes de rastreamento estão trabalhando a toda durante a desescalada. A identificação rápida dos focos isolados de contágio é considerada uma das medidas mais importantes para conter novos surtos, por pequenos que sejam.

O perigo pode morar literalmente ao lado: na ilha de Tenerife, uma pessoa assintomática contaminou oito familiares, quase todos moradores de um mesmo edifício.

Como efeito colateral, agora há mais 30 casos suspeitos. Tudo por causa de um prosaico almoço em família em que, aparentemente, não se tomaram as precauções e o distanciamento social recomendados.

"Nos deram um pouco de liberdade e atuamos como se o vírus não existisse", lamenta Javier Guerrero, conselheiro de Saúde de Ceuta, após a divulgação dos novos surtos na cidade. "Os bares lotam dentro e fora, festas acontecem com mais gente do que o permitido e sem observar as medidas de precaução."

O espanhol clama ser "mediterrâneo", "latino" e gostar de abraçar, de tocar. Ora, como nós. O perigo, apontam os especialistas, mora no mix desse calor hermano cultural com o que-se-lixe em grande escala.

"Uma má ação pode botar em risco tudo o que conseguimos até agora", alertou o ministro da Saúde, Salvador Illa, ao comentar os novos casos.

Surtos isolados, até certo ponto, são considerados previsíveis nessa etapa de desescalada pós-confinamento, e não demasiado preocupantes, desde que controlados a tempo. Algo similar passou em países como Coreia do Sul e Alemanha.

"Há muitos terraços e bares que não estão cumprindo a normativa, e nós vamos começar a denunciar por atentados contra a saúde pública", alertou Guerrero.

Em Barcelona, a reabertura dos terraços de bares e restaurantes levou a uma horda viking de gente sedenta por "tapas" e sol na última semana.

A quantidade de garrafas de cerveja sobre algumas mesinhas assusta: o barcelonês parece estar tirando o atraso de dois meses e meio de confinamento com muchas ganas.

Num passeio pelo centro, é difícil crer que alguns negócios estejam respeitando o limite de 50% das mesas, com espaços reduzidos e grandes grupos. Trata-se de uma minoria, mas bastante gritante.

Nesta segunda-feira, feriado de segunda Páscoa ou Pentecostes na Catalunha e algumas outras localidades no país, a Espanha avança a desescalada, com 70% da população (em torno de 32 milhões de pessoas) na fase 2.

Barcelona permanece na fase 1 por mais uma semana, junto com Lleida, que também tá de castigo.

“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui.

DIÁRIO DE CONFINAMENTO

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