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Diário de confinamento: 'O ano que não houve'

Festivais cancelados e quarentena para turistas: assim será o verão espanhol

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #60 – Terça, 12 de maio. Cena: da janela de seu flat em Londres, um amigo testemunha um duelo de espadas dos vizinhos, com direito a capacetes medievais.

Aaaah, Barcelowna, essa terrinha mezzo tropical-metropolitana europeia que faz brilhar ozoinho dos viajantes de todo o planeta.

Mas não neste ano.

Ontem (11), caiu o último estandarte pop da nossa agenda cultural de verão: o festival de música Primavera Sound, que geralmente acontece na cidade em junho e havia sido adiado pra agosto, finalmente anunciou o cancelamento do que seria sua 20ª edição. Só volta em 2021.

Homem medita enquanto pratica ioga na praia de Barceloneta
Homem medita enquanto pratica ioga na praia de Barceloneta - Josep Lago - 8.mai.20/AFP

De qualquer forma, mesmo que não fosse cancelado e acontecesse em formato clipe-de-futuro-distópico-do-Pink-Floyd, ainda assim seria um #fail sem a usual horda de estrangeiros que costumam vir para o evento.

Aliás, mesmo que viessem, teriam primeiro que se submeter a uma quarentena de duas semanas em seus hotéis/albergues/quartinhos, só saindo pra funções essenciais.

Nada de fila pra ver a Sagrada Família, nada de paella no porto da Barceloneta, e muito menos de jogar as mãos pro alto e cantar o refrão com a multidão.

O Ministério da Saúde anunciou hoje que vai seguir a tendência europeia de impor essa quarentena a qualquer visitante que venha do exterior, inclusive cidadãos da União Europeia, para óbvia infelicidade do setor turístico.

A medida deve durar pelo menos até o final do estado de emergência, que por sua vez o governo quer estender até final de junho.

Ao lado de gigantes como Glastonbury e Tomorrowland, o Primavera Sound compõe a rota mais estrelada dos festivais europeus. Todos eles, cancelados neste ano. Ou, pra replicar o atenuador vocabulário dos organizadores: adiados para o ano que vem.

O anúncio vem quatro dias depois do cancelamento de outro evento icônico made in Catalunha, o Sónar, que reúne a nata do povo criativo tunado em música eletrônica, avant-garde, tecnologia e experimentação e tem vários "filhotes" em todo o mundo, incluindo São Paulo.

Trocando em miúdos, isso significa que Barcelona não vai receber seus milhares de turistas sedentos por música, estrobo e party party party em 2020.

E tampouco verá a cara ampliada em telão de artistas como Iggy Pop, Lana Del Rey, Strokes, Massive Attack, Beck, Chemical Brothers ou James Murphy, nomes escalados para os lineups deste ano.

Ou Pabllo Vittar, Arthur Verocai e Teto Preto, brasileiros que também estavam entre as atrações previstas para o ano-que-não-houve.

Um dos últimos grandes festivais que até este exato instante não anunciou cancelamento ou adiamento é o Mad Cool.

Está programado para acontecer em julho em Madri, epicentro máximo da coronacrise espanhola. A mais recente comunicação oficial via redes sociais apenas se desculpa pela ausência de uma das estrelas do ano, Taylor Swift, que cancelou sua turnê europeia.

Em teoria, a conclusão do desconfinamento no país se dará no final de junho, após o cumprimento de quatro etapas determinadas pelo governo.

Depois disso, coincidindo com o início do verão europeu, a gente adentraria a tal “nova normalidade”, com restrições sociais que perdurarão por tempo indeterminado.

Nesse cenário, é difícil pensar até em festa de boteco acontecendo –imagina então festivais que, como o Primavera, podem chegar a receber mais de 200 mil pessoas em quatro ou cinco dias.

Mas tudo bem. Este é um momentum de baixar expectativas e sorver a simplicidade dos pequenos prazeres. Etcétera. Finalmente podemos exercitar a fórceps o mindfulness tão almejado por nossos estressados espíritos ocidentais.

Meu sonho, como muitos de nós, é no momento poder sair livremente a passear. Ah: e abraços sem salamaleques esterilizantes.

Enquanto não dá, na Barcelona em fase zero, sigo haikumente contemplando as orquídeas de casa, que estão cada vez mais bonitas.

“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui.​

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