Diário de confinamento: 'O calor e o jogo do contente'

Madri, centro absoluto da crise sanitária, quer avançar já para a fase 1 do desconfinamento

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #55 – Quinta, 7 de maio. Cena: Não sei se se escuto Bill Withers ou a Elis cantando Aldir, “sentindo frio em minh’alma….”

É dia de lua cheia, e faz um calor “desgraciado” em Barcelona.

Ontem foi a primeira “noite tropical” do ano, em que a temperatura local ficou acima dos 20ºC. O serviço meteorológico da Catalunha, que monitora as variações de temperatura noturna há mais de um século, afirma que as noites quentes chegam cada vez mais cedo —e cada vez mais quentes.

E, com a primeira noite tropical da cidade, começa a temporada de socorro-não-consigo-dormir. De calor.

Pessoas com máscaras caminham por Madri durante a pandemia de coronavírus
Pessoas com máscaras caminham por Madri durante a pandemia de coronavírus - Susana Vera/Reuters

Já avisto vários barceloviventes saindo de shorts e camiseta pra curtir o passeio permitido pelas novas normas.

Eu ainda não cheguei lá porque sou “friolera” (como se diz aqui). Mas ontem voltei suando pra casa, depois de esquadrinhar uma parte nova do bairro. Cada dia planejo um percurso diferente. Às vezes são esquinas de que tinha saudade, outras, vontade de ir aonde nunca fui.

Tenho saído com um entusiasmo meio pollyanístico nesses primeiros dias de passeio pós-confinamento. Veramente.

Uma espécie de alegria infantil diante da liberdaaaaaadeeeee súbita (ainda que em esquema de prisão semiaberta) me leva a ir pelas ruas sussurrando hola-pájaros, hola-pterodáctilos, enquanto saltito lançando pétalas.

E noto cousas. Bobas, quem sabe, mas coletivas.

Por exemplo. O mini-pré-verão dos últimos dias combinado ao confinamento da população tem gerado um fenômeno ainda pendente de batismo: o bronzeado de janela (ou de varanda, se você tem especial sorte em sua vida encaixotada). Vejo um monte de gente assim na rua: lado A moreno, e as costas, pálidas.

Na avenida perto de casa, pouquíssimos carros. Quase dá pra fechar os olhos e atravessar o asfalto de um lado a outro. Mais provável que te atropele uma bicicleta ou hordas de gente passeante.

Ainda vou provar, e se sobrevivo venho contar. Só o som dos pássaros pontua o brubrubru incessante das mil conversas humanas a dois (dois é o número mágico das normas, embora eu veja vários grupelhos maiores, principalmente famílias e adolescentes).

Com a renovação do estado de emergência nesta quarta-feira (6), as comunidades autônomas espanholas preparam seus relatórios para que se decida em que fase da desescalada entrarão na próxima segunda (11).

Madri, centro absoluto da crise, quer avançar já para a fase 1.

A administração pilotada pelo PP, principal partido de oposição ao governo central, insiste que é preciso reabrir os negócios para "evitar a ruína de milhares de autônomos e trabalhadores".

Em contrapartida, compromete-se a distribuir duas máscaras de tipo FFP2 para cada madrilenho. "Teremos que viver 'pegados' às máscaras", vaticinou Ignacio Aguado, vice-presidente de Madri.

Aguado é membro do Ciudadanos, um dos três partidos que toparam apoiar o governo central nesta semana. Que cousa loka.

O gesto de "rebeldia" da principal capital da crise espanhola segue o tom crítico que culminou com a abstenção do PP durante a votação de prorrogação do estado de emergência nesta quarta.

Nesse caso, porém, a decisão de pedir pra saltar de fase partiu mais de Aguado do que da governadora Isabel Díaz Ayuso (PP) —ela concorda que é preciso desescalar, mas, conforme declaração recente, considera que é preciso antes reduzir a ocupação das UTIs.

Já Barcelona, segundo foco de infecções no país, deve seguir na fase 0 por mais tempo. Apenas três zonas sanitárias da Catalunha reúnem os requisitos para passar à fase 1.

Numa escala de 0 a 100, em que se analisam vários indicadores epidemiológicos e socioeconômicos, Barcelona somou 91 pontos, o que a situa no espectro de "risco moderado alto".

“Agora mesmo, não se pode botar uma data num caminho que nunca percorremos”, afirmou nesta quinta Alba Vergés, conselheira de Saúde da Catalunha. A ideia é monitorar todas as regiões dia a dia. “As cifras são boas, mas não podemos relaxar nem por um minuto.”

Chamada de Flower Moon, a lua cheia desta noite é a última “superlua” do ano. Pena que no céu barcelonês começam a se juntar umas nuvens cinzas e não dá pra ver uma estrelinha sequer. Hora de calçar os tênis e ativar o jogo do contente.


“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui.


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