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Diário de confinamento: 'O comandante e as ovelhas'

Votação decide se vamos seguir confinados ou não, e não há consenso claro no horizonte

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #53 – Terça, 5 de maio. Cena: Polícia fecha praça em município próximo a Barcelona por brigas entre idosos pelo uso dos bancos.

Um homem com a cara tapada por uma máscara azul e mãos enluvadas observa as ovelhas que se amontoam à sua volta numa granja. Os bichinhos, de cor cinza-barro-nuvem e sem respeitar a distância social de 2 metros, parecem observá-lo de volta, como se esperassem um comando. Uma voz. A senha.

Podia ser o começo de um episódio de "Black Mirror".

Mas, no mundo-de-verdade, o homem com as ovelhas nessa prosaica granja a 40 quilômetros de Madri sabe o que faz. É o commander-in-chief da oposição espanhola e está em modo guerra contra o governo.

O líder do PP, Pablo Casado, discursa durante sessão de abertura no Parlamento espanhol, em Madri
O líder do PP, Pablo Casado, discursa durante sessão de abertura no Parlamento espanhol, em Madri - Mariscal - 11.abr.20/AFP

Pablo Casado é líder do Partido Popular (PP) desde 2018. Então com apenas 37 anos, foi apelidado de "chico guapo" por parte da imprensa.

À parte o look jovial, também chamava a atenção pela carreira meteórica, o casamento com a herdeira de uma fortuna criada sobre um império de guloseimas (a empresa espanhola Damel, vendida a suecos por uma incógnita quantia), a polêmica sobre como haveria obtido seus títulos universitários e a seriedade com que se apresenta, seja no plenário ou na igreja, que tenta frequentar com a família sempre que pode.

Posar com animais numa granja, assim como outras aparições públicas recentes, sempre documentadas por um fotógrafo, faz parte do que já se considera abertamente uma criação-de-contornos para uma campanha eleitoral. O primeiro a admitir é o próprio partido.

“Espanha tem, sim, um plano B", afirmou no domingo (3) o secretário geral do PP, Teodoro García Egea. "Se chama Pablo Casado e esperamos poder 'aplicá-lo' o quanto antes."

O comentário é uma resposta (talvez mais uma declaração de guerra, de leve) ao premiê espanhol, Pedro Sánchez, personagem central da gestão da crise, que afirmou no último sábado (2), à guisa de reforçar a necessidade de se manter o estado de emergência por mais tempo: "Não há plano B".

O irredutível pé do governo na necessidade de prorrogar o estado de emergência para gerenciar a desescalada está gerando desconforto por todo lado, numa mescla molotov de questionamentos sãos/pertinentes e franco oportunismo político. Como sói ser nessas ocasiões.

Nesta quarta-feira (6) será votada a prorrogação do estado de emergência, e, ao contrário das outras vezes, não há consenso no horizonte.

Se sairmos do estado de emergência, todo o plano de desescalada traçado pelo governo vai ser suspenso, e as comunidades autônomas voltam a ter mais poder.

Medidas de controle sanitário teriam que passar por labirintos um tanto mais complexos e descentralizados, baseados, por exemplo, no ajuste de leis.

Que impacto teriam essas mudanças no controle da epidemia em escala nacional?

Nesta terça (5), cientistas, analistas políticos e jornalistas escrutinam exaustivamente os cenários do sim e do não, e, opiniões mil à parte, a preocupação é palpável nozoinho de todo mundo.

Na segunda-feira, Casado voltou à carga, dizendo que a falta de um plano alternativo do governo socialista de Sánchez "é um insulto a quem lhe pagamos o salário".

"O plano B são os testes em massa, a proteção garantida a todos os trabalhadores, que possam sair à rua, e medidas imediatas em matéria social e econômica", disse.

Declarações de senso comum que, lado a lado, não se distanciam muito da retórica governamental que acompanhamos dia sim, dia sim pela tevê. Estaremos vesgos? Cegos? Perdidos entre pêndulos demagógicos em surround estéreo?

"Noventa por cento desses discursos não acrescentam nada", revolta-se meu compi de apartamento, diante do terceiro, quinto, vigésimo pronunciamento oficial ou sessão no plenário em poucos dias.

"Eles têm que desenhar, falam a muita gente", contemporizo. Mas —inquietação, inquietação.

Algumas sugestões concretas enumeradas por Casado, como o “teste para todos [os cidadãos]”, não são acompanhadas de perspectivas sobre de onde sairia o dinheiro.

De fato, a questão dos fundos para concretização das diversas medidas propostas tanto pelo governo quanto pela oposição tem encontrado resposta parcial na forma dos apoios europeus. Mas e o nó górdio dessa incrível conta de mil pontas, fecha?

Com tudo isso e o país caminhando pra uma recessão digna de tempos de guerra, o líder do PP já semi-anunciou que pode não apoiar a prorrogação do estado de emergência —e isso não é pouco.

O prolongado confinamento decretado pelo governo há quase dois meses alcançou resultados importantes, sentidos nas últimas semanas com o arrefecimento progressivo da curva de contágios e mortes.

De 950 mortes num único dia no auge da crise, a Espanha registrou 185 nas últimas 24 horas, com uma proporção cada vez maior de curados.

Não há muitas dúvidas entre A e Z de que o confinamento foi a medida mais fundamental para o controle da epidemia no país.

Mas, a esta altura, para a oposição e alguns governos regionais, esse mesmo estado de emergência já se transformou quase em sinônimo de abuso de poder, inépcia administrativa ou excesso de centralização —para ficar em eufemismos não muito empregados nos discursos cada vez mais irascíveis de alguns parlamentares e governadores.

A alternativa, propôs Casado na última segunda-feira, seria adotar uma nova “arquitetura legal”. "O estado de emergência foi necessário para evitar o colapso das UTIs", disse. "[Mas] uma vez que o presidente do governo [premiê] diz que podemos sair para tomar um vermute, consideramos que se deve adaptar a normativa legal à situação."

Isabel Díaz Ayuso (PP), presidenta de Madri, ou seja, governadora da principal comunidade espanhola afetada pela crise, já declarou que não vai seguir o governo central. "Eu não compactuo com o desastre", disse.

Por motivos distintos, o presidente da Catalunha, Quim Torra, também se mostra reiteradamente descontente com a centralização do governo de Sánchez.

Quer liberdade para administrar a desescalada segundo as necessidades locais. A Catalunha é a segunda comunidade autônoma espanhola com mais casos e falecidos por coronavírus.

Entre diferentes frentes, há em comum críticas palpáveis à gestão da crise, como onde estão os "damned" testes que nunca chegam em número suficiente.

A saúde é atribuição principalmente das autonomias regionais, e a crise centralizou uma série de procedimentos, como a obtenção de material de proteção... e testes.

Com isso, ou apesar disso —porque há mil aspectos a ser ponderados—, o que deveria ser mais prático deu n'água. Até lote de testes ruins e máscaras com defeito da China vieram. Há culpados —e há muito o que fazer.

“Desententer-se em relação ao decreto de emergência é o mesmo que condernar-nos ao caos”, declarou o ministro dos Transportes, José Luís Ábalos, em uma tensa entrevista coletiva, acompanhado do ministro da Saúde, Salvador Illa.

Ambos buscavam, na véspera de um dia que pode mudar o rumo da crise espanhola, defender a continuidade do plano A.

O PP esteve no centro de um recente escândalo de corrupção que levou à destituição do então premiê Mariano Rajoy e à ascensão da coalizão socialista liderada por Sánchez em 2018.

Além da granja de ovelhas, Casado tem aparecido em pose de campanha política em uma série de outros lugares públicos —alguns repletos de gente, para desagrado de muitos espanhóis que, no dia de hoje, permanecem confinados em casa.

"Em que fase da desescalada está Pablo Casado?", ironiza um internauta. “Casado pode ir ver ovelhas, e nós não podemos ir ver nossas famílias”, diz outro. "Fazer campanha é atividade essencial?", reclamou um terceiro.

Na nação das ovelhinhas confinadas, o comandante e seu rebanho viralizaram.

“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui: https://soundcloud.com/kinglolaofficial

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