Diário de confinamento: 'O voo da discórdia'

No primeiro dia de desescalada parcial na Espanha, um avião lotado vira polêmica nacional

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #59 – Segunda, 11 de maio. Cena: fazendo sushi pra matar a saudade da comida da mãe.

O cacarejo coletivo é tão alto que não consigo entender ninguém. Mas a linguagem não verbal, com gente em pé gesticulando e um comissário de bordo inutilmente tentando acalmar a fúria geral, é eloquente: revoltaaaaaaa!

O cenário é um voo lotado da Iberia, rota Madri-Canárias, no último domingo (10). Lotado aka lotadíssimo. Os ocupantes estão apertados entre as fileiras, ombro com ombro, esquema como-sempre.

Soa a voz do comandante sobre as cabeças mascaradas: "É absolutamente legal voar com a plena ocupação do voo. Quem quiser descer que desça. Muchas gracias".

uma pessoas está sentada na praia, de máscara e roupa preta. ao fundo, uma mulher banha-se no mar
Pessoas vão à praia de Barcelona após a Espanha relaxar medidas de isolamento social contra o novo coronavírus - Nacho Doce - 8.mai.20/Reuters

E bota ocupação nisso. Com 155 assentos tomados dos 180 disponíveis (ou seja, 86% da capacidade máxima), a aeronave aterrissou no domingo à noite em Las Palmas, capital da principal ilha do arquipélago de Canárias, para revolta também dos que estavam em terra.

"Com apenas uma dessas pessoas infectada, todo o sacrifício que fizemos os canários nos últimos dois meses irá por água abaixo", reclama um internauta, numa das inúmeras threads do Twitter sobre o assunto.

"E essa gente não foi retida quando chegou a Gran Canária? Não realizaram testes ao chegar de Madri?", reclama outra.

O voo em questão, um dos três semanais da Iberia reabilitados para essa rota, basicamente levava pessoas do território mais atingido pelo vírus em todo o país —Madri— a Canárias, uma das comunidades autônomas com menos mortes e contágios ao longo de toda a crise (2.260 positivos, ou 1 para cada 1.000 habitantes, contra quase 65 mil contaminados em Madri, ou 9 por cada mil habitantes).

A polícia apareceu, a companhia será denunciada, e a celeuma é exemplar para os tempos de desescalada que se avizinham.

Desde esta segunda (11), foi reaberto o espaço aéreo dentro dos arquipélagos de Canárias e Ilhas Baleares —territórios que passaram à fase 1, ao ter pouca ou nenhuma atividade epidêmica.

As regras divulgadas para o transporte interno incluem manter até 50% da lotação máxima em trens, barcos e aviões civis. Mas e no caso dos voos que vêm do continente? O Boletim da União (que divulga as normativas nacionais atualizadas) não especifica.

Essa brecha pode ser a salvação legal da Iberia, mas o estrago está feito. A companhia é o Judas online deste primeiro dia de desescalada espanhola.

"Quando compramos o voo, confiávamos que se manteria a distância de segurança", escreve uma passageira que divulgou um vídeo mostrando o avião lotado. "Quem sabe, se tivéssemos sabido, não teríamos comprado, mas não nos deram essa opção."

Em seu perfil no Twitter, a Iberia alega que cumpre "com todas as normas de segurança" determinadas pelas autoridades.

Comunica que reforçou a limpeza e desinfecção diária, além de haver instalado um sistema de filtros que seriam "99,9% efetivos contra vírus e bactérias". Quero um desse a nível planetário, pode?

Com tanto auê a bordo e passageiros baixando a máscara pra vociferar contra o pobre comissário de bordo que aparece num dos muitos vídeos em circulação, uma das principais questões que ficam é: como bugalhos funcionaremos de fato com o grandioso Distanciamento Social uma vez que todo mundo começar a ir e vir novamente?

Esta segunda é o primeiro dia da fase 1-de-4 da desescalada para metade da população espanhola. A outra metade, devido a determinados parâmetros epidemiológicos e socioeconômicos estabelecidos pelo governo central e alinhados com orientações da OMS, permanece na fase zero, com mais restrições.

Por exemplo, aqui em Barcelona, como em Madri, seguiremos em casa por pelo menos uma semana mais.

Neste exato momento, inclusive, não sabemos com certeza quando passaremos à fase 1. Catalunha está entre os territórios mais cautelosos com a desescalada.

Por outro lado, Madri, epicentro da epidemia nacional, já insistiu hoje de novo que quer ser "promovida" na semana que vem, alimentando um impasse de forças com o governo central que provavelmente vai gerar seus frissons novelísticos nesta semana.

Antes do confinamento, eu nem lembrava que a gente tinha tevê. Digamos que não é muito a minha.

Fast forward de dois meses e agora, do sofá, ligo a caixa hipnótica só pra ver imagens de gente feliz sentada em uma mesinha ao ar livre em Sevilha desfrutando sua cervejinha da fase 1. Ô invejinha.

A mulher do tempo avisa que esta semana será de tempestades e inundações em muitas partes do país. São Pedro, esse pândego.

Já no quesito ver-diretamente-vendo com meuzóio, encarapitada na varanda de casa como uma comadre, avisto uns ciclistas passando a toda, super paramentados (tipo vestidos de ironmen, sabe).

Presumo, pela direção que tomam, que sobem rumo a alguma das muitas trilhas nas montanhas que rodeiam a cidade. Não tenho exatamente o perfil de "policía de balcón", mas bate uma indignação: são três da tarde e essa gente não deveria estar na rua. Ai ai ai...​

“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui.

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