Diário de confinamento: 'Parecia Copacabana'

Governo aprova 5ª prorrogação do estado de emergência, e Barcelona amanhece com praias lotadas

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #68 – Quarta, 20 de maio. Cena: a partir de quinta, máscaras passam a ser obrigatórias em toda a Espanha, não só em espaços fechados como em áreas ao ar livre onde não se possa manter a distância de 2 metros. A multa para desobedientes: 600 euros (R$ 3.750).

Olho meu calendário e lembro: hoje haveria show da Bebel Gilberto aqui em Barcelona. Tava marcado desde o final do ano passado.

Só por curiosidade, vou ao site da casa de espetáculos: cancelado, claro. Com um post scriptum que avisa que a devolução das entradas será feita no máximo uma semana depois do fim do estado de emergência.

Praia de Barceloneta, em Barcelona, fica cheia de frequentadores após relaxamento parcial das medidas de combate ao novo coronavírus
Praia de Barceloneta, em Barcelona, fica cheia de frequentadores após relaxamento parcial das medidas de combate ao novo coronavírus - Lluis Gene/AFP

O governo espanhol conseguiu, a muito custo e num clima de enfrentamento, negociar o apoio para uma prorrogação da emergência por 15 dias, em vez dos 30 que queria para abarcar todo o período planejado da desescalada (que deve terminar no final de junho). Com isso, se estenderá, a princípio, até 7 de junho.

O imbróglio de alianças para sustentar o estado de cousas está começando a parecer aquele jogo de infância com barbante chamado cama de gato —quando dá errado.

Entre os compromissos assumidos com um de seus principais aliados da vez, o centro-esquerdista Ciudadanos, está a prorrogação de moratórias sem juros e o pagamento asap dos chamados ERTEs (acordos de demissão temporária utilizados durante o 'lockdown').

Até o exato momento, pelo menos 1 de cada 5 afetados por um ERTE está sem receber nada desde março, num total estimado de 300 mil a 500 mil pessoas.

O texto oficial divulgado pelo Executivo não deixa claro se será pedida uma sexta prorrogação. Ao contrário, parece sugerir que a próxima quinzena vai servir como transição para ponderar as "reformas legislativas necessárias que permitam uma saída ordenada do estado de emergência e a gestão da pandemia neste momento".

Toda promessa é pouca para acalmar os ânimos da oposição, exacerbados ao longo dos últimos dois meses. As reiteradas acusações de totalitarismo magoam o ideal democrático pós-franquista, do qual o governo da aliança socialista (PSOE) com Unidas Podemos são familiares diretos.

Ainda que constitucional, o estado de emergência, em que se governa por decretos, começa a incomodar.

O governo insiste que a alternativa seria o "caos", com possíveis novos surtos de contágios. Na eventual suspensão súbita do estado de emergência, deixaria de existir a atual coordenação central dos deslocamentos territoriais, por exemplo.

Pouco a pouco, e sob muita pressão de todos os lados, o Executivo vem transferindo a co-gestão da desescalada aos territórios. Não é suficiente: Catalunha, por exemplo, já declarou seu "não" à prorrogação do estado de alarme via ERC, a Esquerda Republicana independentista. Isso distorcidamente a aproxima de Vox e PP, os principais partidos de direita.

Como insistem alguns membros da oposição, analistas jurídicos ponderam que neste momento já seria importante começar uma transferência gradual da gestão da crise a outros instrumentos legais, como a Lei Geral de Saúde, a Lei de Proteção Civil ou a Lei de Segurança Nacional.

Seja como for, a transição é inevitável e premente. Com o avanço da crise, crescem em todo o país os protestos contra o governo e contra o prolongado estado de emergência.

Em Madri, já duram 11 dias ininterruptos, com "caceroladas" (panelaços) cada vez mais estridentes.

Na segunda-feira (18), manifestantes se reuniram diante das casas do vice-presidente Pablo Iglesias e do ministro dos Transportes, José Luis Ábalos.

Diante da residência deste último, uma manifestante aparece num vídeo gritando: "Anda, sai, trabalha um pouco, vago [vagabundo]".

Em sessão no plenário no dia seguinte, Iglesias se mostrou preocupado. "Isso se sabe onde começa, mas não onde acaba", disse, diante da exortação de Santiago Abascal (Vox) de que se bata panela "mais forte do que nunca" contra um governo que seria uma "ditadura disfarçada".

Nas imagens das manifestações em diversas partes do país, grupos antagônicos se enfrentam, máscaras arriadas, e eu imagino a cusparada que não deve estar rolando. A polícia nacional faz um cordão para evitar enfrentamentos entre as pessoas, mas não interfere, e poucos são detidos.

Em Barcelona, também começam os protestos. Na terça (19), "grupos anticapitalistas" se reuniram sob o lema "Recuperemos as ruas". Uma manifestante foi presa, depois de se negar a se identificar e de cuspir num policial.

O principal partido por trás dos protestos, a CUP, identificado com a Esquerda independentista, reclamou da falta de apoio do governo catalão, exigiu um posicionamento oficial e tuitou: "Em democracia não há repressão por protestar na rua".

Ao contrário de Madri, as imagens em Barcelona mostravam pessoas seguindo o distanciamento social e protestando de forma mais ordenada —sem panelas.

O que esteve cheio, lotado mesmo, foram as praias da cidade: com o passeio na areia liberado a partir desta quarta, a população desencanou completamente do distanciamento social e estendeu a toalha ao sol. Parecia Copacabana —em outras épocas.

“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui.


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