Descrição de chapéu Diário de Confinamento

Diário de confinamento: 'Quentinhas de luxo'

Da alta gastronomia ao bar da esquina, os negócios recorrem a criatividade e muita resiliência

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #66 – Segunda, 18 de maio. Cena: Barcelona amanhece hoje mais ruidosa.

Parece um espetáculo desses tipo teatro-do-absurdo, uma coisa meio Finalmente Encontrando Godot.

Segunda, manhã de sol na minha varanda. Duas (conhecidas, amigas, familiares) se encontram na esquina. De luvas e máscaras, se saúdam a distância, fazendo mímica de abraço e dando saltinhos de alegria. Imagino que não se viam há tempos. Essa é a efusividade máxima permitida pela fase 0,5 de desconfinamento em Barcelona.

A partir de hoje, 70% da população espanhola (33 milhões) se encontram na chamada fase 1 de desconfinamento. É a segunda de quatro etapas, que devem ser concluídas até o início do verão no hemisfério norte, no final de junho.

Pessoas em restaurante de Málaga, na Espanha, no momento em que país passa por desconfinamento - Jorge Guerrero -18.mai.2020/AFP

Entre as principais novidades, os terraços de bares e restaurantes podem reabrir com 50% da lotação máxima, e as pessoas voltam a poder se reunir em grupos de até dez pessoas.

Pensa só se nós todos, saindo de um isolamento domiciliar de mais de dois meses, não estamos doidos por um dedo de prosa com café ou "caña" (cerveja) ao ar livre...

Em todo o país, os negócios vão se adaptando com criatividade. Para minimizar o contato, alguns criaram códigos QR para acesso aos menus.

Outros bares instalaram limite de tempo para ocupação das mesas e display de senha eletrônica para dar conta da fila de clientes —afinal, com pouco espaço disponível, o que já era uma odisseia (encontrar uma mesinha ao sol no país das mesinhas-ao-sol) ficou, em muitos lugares, ainda mais difícil.

Depois de um período de aproximadamente duas semanas funcionando só em modo delivery, a reabertura dos espaços ao ar livre traz um pouco de alívio às perdas econômicas de bares e restaurantes.

O "lockdown" levou até restaurantes com estrelas Michelin por aqui a adotarem as "quentinhas" de luxo em domicílio.

O restaurante Coque, biestrelado de Madri que oferece em seu menu degustação (R$ 1.235 ou R$ 1.983 com harmonização de vinhos) pratos como panna cotta de ouriço com molho de callos a la madrileña, estima uma perda de até 30% da clientela internacional em 2020 e de 10% a 20% dos clientes nacionais (uma porcentagem relativamente baixa, me parece, porque, né, quem sofre mais com tutto somos nóis, os mezzo-pra-baixo, e não os super duper abonados).

Até o premiadíssimo chef catalão Ferran Adrià, que andava um pouco distanciado da cena gastronômica desde que fechou o lendário El Bulli (eleito cinco vezes melhor restaurante do mundo) em 2011, reapareceu em seu perfil no Twitter durante o confinamento comentando em vídeo algumas receitas clássicas, como a sopa vichyssoise, em versão econômica.

Os setores de hotelaria, bares e restaurantes correspondem a 6,2% do PIB espanhol, com 314 mil estabelecimentos registrados. São isoladamente os que mais sofreram nesses dois últimos meses de "lockdown", com quase 20% dos ERTEs (dispositivos emergenciais de demissão temporária) do país até agora.

Em sua recente participação num importante congresso (virtual) de culinária em San Sebastián, no País Basco, Adrià falou sobre o futuro da alta gastronomia e sobre a necessidade de reinvenção do setor e citou o exemplo do premiado restaurante Noma, de Copenhagen, que se transformou em bar de vinhos para sobreviver pós-crise.

Apontou também "qualidade" e "boa gestão" como a dupla fórmula de salvação dos negócios, "seja um bar de sanduíches ou um três estrelas Michelin". Bonitas palavras.

Do lado de casa, a cafeteria italiana de toda-la-vida não tem área ao ar livre e está servindo paninis pra levar. Imagino que a funcionária deve passar horas mirando o infinito da ruazinha residencial, porque sempre que eu passo na frente o lugar está às moscas.

Ela, uma colombiana de olhar entre risonho e cansado (olhos, é só o que vejo), diz: é o que temos. Não sei até quando...

“Músicas para quarentenas” podem ser escutadas aqui.

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