Descrição de chapéu Coronavírus

Em assembleia geral da OMS, China promete fundos e EUA criticam entidade

Xi Jinping apoia investigação sobre origem do vírus; Trump chama organização de 'fantoche'

Bauru

No meio da disputa cada vez mais aquecida entre os EUA e a China, a Organização Mundial da Saúde (OMS) prometeu começar, assim que possível, uma revisão independente da resposta global à pandemia de coronavírus.

Dos chineses, a organização recebeu apoio e uma sinalização de liberação de fundos. Do lado americano, foi criticada por uma "aparente tentativa de ocultar esse surto por pelo menos um Estado-membro".

Em discurso transmitido por vídeo durante a assembleia anual da OMS em Genebra, na Suíça, nesta segunda-feira (18), o líder chinês, Xi Jinping, defendeu uma investigação sobre as origens do vírus e apoiou uma resolução enviada pela União Europeia que propõe avaliar a entidade e seu diretor-geral, Tedros Adhanom Ghebreyesus.

Xi disse que a pandemia de coronavírus é "a mais grave emergência mundial em saúde pública desde o final da Segunda Guerra Mundial" e que, "o tempo todo", a China agiu com "abertura, transparência e responsabilidade".

O presidente americano, Donald Trump, membros do alto escalão de seu governo e aliados dos EUA acusam a China, onde os primeiros casos da Covid-19 foram detectados, de omitir informações e ter perdido o controle sobre o avanço da doença.

Xi Jinping durante discurso gravado para a assembleia anual da Organização Mundial da Saúde (OMS) - Divulgação/OMS - 18.mai.20/AFP

Em Washington, mais tarde, Trump chamou a OMS de "fantoche da China", acusou a entidade de ter feito "um trabalho muito triste" em relação à emergência sanitária e disse que tomaria em breve uma decisão sobre o pagamento das contribuições dos EUA —que estão interrompidas há um mês.

"Os EUA pagam a eles 450 milhões de dólares por ano; a China paga a eles 38 milhões de dólares por ano. E eles são um fantoche da China", disse o presidente americano na Casa Branca.

Xi também usou sua fala na assembleia para defender a resposta de Pequim à pandemia. Ele se ofereceu para ajudar a melhorar a infraestrutura de saúde em países da África e anunciou uma doação de US$ 2 bilhões (R$ 11,6 bilhões) à Organização das Nações Unidas (ONU).

A quantia, que será doada ao longo de dois anos, é semelhante ao valor devido pelos EUA à ONU. Na sexta (15), o regime chinês cobrou que os países-membros "cumpram totalmente suas obrigações financeiras" com a organização e apontou que os EUA são o maior devedor às Nações Unidas, com um débito de mais de US$ 2,4 bilhões (R$ 13,8 bilhões).

Além disso, o dirigente chinês disse que quaisquer vacinas contra a Covid-19 produzidas em seu país serão consideradas um "bem público mundial e compartilhado".

"Neste momento crítico, apoiar a OMS é apoiar a cooperação internacional e a batalha para salvar vidas", disse Xi.

Em seu pronunciamento, o ministro da saúde dos EUA, Alex Azar, não citou a China nominalmente, mas deixou claro que Washington considera a entidade igualmente responsável pelo descontrole da disseminação da doença.

"Precisamos ser francos sobre uma das primeiras razões por que essa pandemia fugiu de controle", disse. "Houve uma falha desta organização para obter a informação de que o mundo precisava, e essa falha custou muitas vidas."

Outros chefes de Estado, presidentes e ministros devem falar no encontro até quarta-feira (20).

O responsável interino pela Saúde no Brasil, general Eduardo Pazuello, citou diálogo entre os três níveis de governo, ajuda às regiões Norte e Nordeste do país e no ajuste de protocolos do Ministério da Saúde "baseado em evidências", sem mencionar a intenção da pasta de ampliar o uso da cloroquina.

No discurso de abertura, o secretário-geral da ONU, António Guterres, criticou os países que "ignoraram as recomendações" da OMS para responder à pandemia de coronavírus e estimou que o mundo paga um "preço alto" por essas estratégias divergentes.

"Vimos expressões de solidariedade, mas pouquíssima unidade em nossa resposta à Covid-19. Os países seguiram estratégias divergentes e todos pagamos um preço alto por isso."

O projeto de resolução enviado pela União Europeia, que pede uma avaliação da resposta internacional e da OMS à pandemia, será examinado durante a assembleia.

Sem mencionar Wuhan ou China, ele pede à OMS que trabalhe com outras agências das Nações Unidas para "identificar a fonte zoonótica do vírus e a via de introdução à população humana, incluindo o possível papel dos hospedeiros intermediários".

De acordo com a agência de notícias Reuters, que teve acesso ao documento, 116 dos 194 países-membros já manifestaram apoio ao projeto. O Brasil é um dos patrocinadores.

Na manhã desta segunda (18), Trump compartilhou nas redes sociais o link da reportagem de um jornal australiano que cita alguns dos outros apoiadores da resolução, como Rússia, Índia e Japão. No Twitter, o presidente americano escreveu: "Nós estamos com eles!".

Os EUA, entretanto, não estão inscritos entre os patrocinadores.

A Austrália tem interesse especial na proposta porque teve parte de suas exportações boicotadas pelo regime chinês, depois de pedir uma investigação sobre a origem do coronavírus na China.

A tensão entre EUA e China continua sendo, entretanto, o tema que deve pautar, ainda que indiretamente, as próximas decisões da comunidade internacional na construção de uma resposta coordenada à pandemia.

Na semana passada, Trump ameaçou cortar relações com a China por causa da pandemia e disse que Pequim "nunca deveria ter deixado isso acontecer".

Esse foi o mais recente dos episódios da "guerra fria" entre as duas maiores economias do mundo desde que a pandemia se configurou na província chinesa de Hubei.

Entre conservadores americanos, a teoria prevalente é de que o novo coronavírus poderia ser uma arma biológica em estudo que escapou de forma proposital ou não de um laboratório em Wuhan. A afirmação foi desmentida por um estudo científico internacional.

Com informações de AFP e Reuters

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