EUA têm 2 mortos e centenas de presos em noite de protestos pelo assassinato de George Floyd

Manifestantes pediram fim da violência policial e do racismo no país em ao menos 30 cidades

Minneapolis e São Paulo | Reuters

Na semana em que as mortes por Covid-19 ultrapassaram a marca de 100 mil nos EUA, foi a violência policial que assassinou um homem negro que desencadeou protestos nas ruas de todo o país.

Na quarta noite consecutiva de atos devido à morte de George Floyd, que teve o pescoço prensado pelo joelho de um policial branco da cidade de Minneapolis, ao menos 30 cidades americanas registraram manifestações entre a noite de sexta-feira (29) e a madrugada deste sábado (30), com saldo de dois mortos e centenas de pessoas presas.

Estacionamento incendiado em Minneápolis na noite de sexta (29) - Chandan Khanna/AFP

Ativistas se reuniram em cidades como Atlanta, Nova York, Detroit, Los Angeles e Dallas, além da capital Washington —o que obrigou a Casa Branca a fechar todos os seus acessos por cerca de uma hora—, para pedir o fim da brutalidade policial e do racismo estrutural. Levavam cartazes com frases como “eu não consigo respirar”, dita por Floyd enquanto era sufocado e registrada no vídeo que viralizou.

Em Detroit, um homem de 19 anos que protestava foi morto por um tiro disparado a partir de um carro. Ocupantes do veículo, uma SUV, atiraram contra os manifestantes e fugiram.

Em Oakland, na Califórnia, dois policiais federais foram baleados durante os atos, e um deles morreu, segundo a CNN. Mais de 7.000 pessoas protestaram na cidade. Houve também atos em Sacramento e Los Angeles, onde vias expressas foram bloqueadas.

Em Nova York, manifestantes se reuniram no Brooklyn, perto da arena Barclays, mesmo com a cidade ainda sob restrição para aglomerações por causa do coronavírus. Houve ao menos 50 prisões.

Em Atlanta, mais de mil pessoas marcharam pela cidade. Houve confrontos perto da sede da emissora CNN, que acabaram se estendendo para dentro do prédio. Policiais tentaram conter os manifestantes jogando bombas de gás, e foram alvo de garrafas e pedras.

Explosões de granadas de fumaça no hall de entrada da emissora foram exibidas ao vivo na TV na noite de sexta. Do lado de fora, houve pichações em um logo gigante da CNN, e carros foram incendiados.

"Chega. Estamos todos com raiva. Isso machuca. Mas o que vocês estão mudando ao destruir a cidade? Não é assim que nós mudamos o mundo", disse a prefeita de Atlanta, Keisha Bottoms que é negra.

"Como meu pai explicou durante sua vida, o motim é a linguagem dos que não são ouvidos", postou Martin Luther King III, em uma rede social.

Em Minneapolis, cidade onde Floyd foi morto, os ativistas ignoraram o toque de recolher determinado pelo governador do estado de Minnesota e seguiram protestando.

Eles se reuniram perto de uma delegacia incendiada na noite de quinta (28), e partiram para outras partes da cidade, que viveu uma noite de caos. A presença da Guarda Nacional não conteve os atos.

Houve incêndios e destruição em muitos lugares, como um posto de gasolina, um banco e uma agência dos correios.

"A situação em Minneapolis não se trata mais do assassinato de George Floyd", disse o governador democrata Tim Walz, na manhã de sábado. "Trata-se de atacar a sociedade civil, de incutir medo e perturbação às nossas grandes cidades."

Ele pediu o envio de mais agentes da Guarda Nacional, e disse que considera solicitar a ajuda do Exército, que, por sua vez, segundo o jornal The New York Times, avisou a seus militares que fiquem a postos para uma convocação.

Em Portland, foi declarado estado de emergência e toque de recolher na manhã deste sábado.

Os atos também chegaram às portas da Casa Branca, que chegou a ter os acessos completamente fechados por cerca de uma hora, no fim da tarde. Manifestantes seguiram protestando do lado de fora durante a noite.

Na sexta, o presidente Donald Trump criminalizou os manifestantes, que chamou de "bandidos". Numa mensagem no Twitter, ele colocou os militares à disposição do governador de Minnesota e lançou uma ameaça: "Quando os saques começam, os disparos começam".

A postagem recebeu um selo de violação das regras do Twitter sobre enaltecimento à violência, mas foi mantida pela rede social por ser "de interesse público".

Na manhã deste sábado, Trump criticou os manifestantes, elogiou a atuação do Serviço Secreto ao defender o prédio e sugeriu que seus apoiadores podem ir para a a Casa Branca nesta noite.

"Os chamados 'manifestantes' gerenciados profissionalmente na Casa Branca tinham pouco a ver com a memória de George Floyd. Eles vieram só para causar problemas. O Serviço Secreto lidou facilmente com eles. Esta noite, eu entendi, é MAGA NOITE NA CASA BRANCA?", publicou, em referência ao seu bordão de campanha, Make America Great Again (Faça a América grande de novo).

Derek Chauvin, o agente que sufocou Floyd, foi preso na sexta. Caso condenado, poderá pegar ate 25 anos de prisão. Segundo o jornal The New York Times, a esposa de Chauvin entrou com um pedido de divórcio após o ocorrido.

Os outros três guardas que participaram da ação, Thomas Lane, Tou Thao e J. Alexander Kueng, também serão indiciados.

Floyd, 46, havia perdido o emprego como segurança em um restaurante por conta das medidas de isolamento social para conter a pandemia do coronavírus. Nascido em Houston e conhecido pelos amigos como "gigante gentil", foi acusado de assalto a mão armada em 2007 e, em 2009, condenado a cinco anos de cadeia.

Ao deixar a prisão, em 2014, mudou-se para Minneapolis e passou a atuar como segurança. Na última segunda-feira (25), a polícia foi chamada por um funcionário de uma loja que dizia que Loyd tentara fazer uma compra com uma nota falsa de US$ 20 (R$ 106).

Os agentes alegaram que ele resistira à prisão. As imagens da ação mostram o gigante já imobilizado.

O caso de Floyd foi mais um de uma longa série de outros negros mortos pela polícia durante abordagens violentas. A de maior repercussão foi a de Eric Garner, em 2014 em Nova York, que deu origem ao movimento Black Lives Matter (vidas negras importam). Esta ação se tornou a principal articulação dos negros nos EUA na atualidade.

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