Na África, funerais são tão importantes quanto casamentos. A pandemia os esvaziou

Medidas para tentar conter coronavírus impuseram duros limites a velórios no continente

Funeral em Soweto, na África do Sul, durante a pandemia de coronavírus Siphiwe Sibeko -24.abr.2020 /Reuters

São Paulo

Quando uma das tias de Ntsiki Ziintsikelelo morreu no final de março em decorrência de um câncer, a moradora de Soweto, subúrbio de Joanesburgo, não pôde ir ao funeral.

As medidas decretadas pelo governo da África do Sul para tentar conter a disseminação do coronavírus impuseram duros limites a uma das cerimônias mais tradicionais do país.

“Em tempos normais, mais de cem pessoas acompanhariam o caixão da minha tia. Agora, só somos autorizados a reunir 50”, relata Ziintsikelelo, 29.

Além do número restrito de pessoas, o cortejo foi acompanhado por um policial, responsável por dispersar os convidados após o enterro. O banquete tipicamente servido aos enlutados depois de fechada a cova também não aconteceu.

Familiares e funcionários de funerária carregam caixão de homem de 51 anos que morreu de Covid-19 na Cidade do Cabo, na África do Sul - Sumaya Hisham -12.mai.2020/Reuters

Em diversos países da África, o combate à Covid-19 alterou tradições funerárias que mesclam rituais de religiões locais com elementos cristãos introduzidos pela colonização europeia do século 19.

O funeral na África é algo comunitário, não individual. Porque, quando alguém morre, a comunidade toda sente o luto e divide a tristeza com a família do falecido", diz Sihawukele Ngubane, professor da Universidade de Kwazulu-Natal, na África do Sul.

"Você precisa que as pessoas venham, lhe confortem e lhe encorajem, para que a dor da passagem do ente querido seja curada."

Em todo o continente africano, velórios atraem centenas ou até milhares de pessoas em cerimônias que chegam a durar uma semana. Além de familiares próximos e distantes —muitos dos quais fazem longas viagens para acompanhar os eventos—, vizinhos e até mesmo estranhos se juntam à celebração.

Não há convite oficial: ao receberem a notícia da morte, os que moram perto aparecem para prestar apoio à família, trazer doações e ajudar os enlutados com a enorme lista de afazeres de funerais suntuosos e caros.

Os velórios incluem não só a compra de caixões de madeira nobre mas também as contratações de serviços de bufê para os presentes —a quem é servido um animal abatido para a ocasião, geralmente um boi— e de bandas para apresentações ao vivo. Há quem compre roupas novas para ir às cerimônias.

Some-se a isso o aluguel da estrutura do evento —cadeiras e tenda—, e o valor total do funeral para uma família sul-africana pode chegar a 80 mil rands (cerca de R$ 25,2 mil). O salário mínimo por hora trabalhada no país é de 20,76 rands (R$ 6,50).

A longa celebração, que culmina com o enterro após uma vigília noturna na qual os presentes contam histórias sobre o morto, é um momento tão importante na vida dos africanos quanto o casamento, afirma Gabriel Adams, professor de Relações Internacionais da ESPM Porto Alegre.

“Há o mito de que se o morto não ficar satisfeito com seu enterro, se não for devidamente honrado, pode voltar para assombrar os parentes vivos”, afirma.

Em países como Congo, Gabão e Angola, o morto passa a ser visto como um ancestral que cuida dos que ficaram. Daí a necessidade de uma despedida com toda a pompa e circunstância.

Um exemplo da celebração dos velórios africanos é o famoso vídeo em que dançarinos de Gana carregam um caixão nos ombros, acompanhados por uma banda. As imagens viraram um meme que rodou o mundo.

As medidas impostas por governos para tentar conter o risco de contágio devido a aglomerações em eventos do tipo, no entanto, estão tornando o ritual de passagem a um só tempo menos comunitário e mais barato.

Na África do Sul, o país mais atingido pelo coronavírus no continente, com 247 mortes até a tarde de sexta (15), as vigílias foram proibidas, e o limite de pessoas por funeral agora é de apenas 50, incluídos os funcionários da funerária.

Só pode participar quem estiver em uma lista aprovada pela polícia local, e as pessoas precisam manter distância de 1,5 metro umas das outras.

O aspecto festivo da cerimônia também murchou: as bandas e os corais foram substituídos por caixas de som, e o serviço de comida está banido. A duração do velório e do enterro se limita a poucas horas, de tal modo que o processo seja o mais rápido possível.

Regras semelhantes estão sendo aplicadas nos Camarões. Em outros países, as medidas foram ainda mais estritas: em Gana, 25 pessoas podem acompanhar os velórios; na Nigéria, 20, e, no Quênia, 15.

Em Soweto, Ziintsikelelo conta que, embora a maioria das pessoas respeite os decretos do governo, algumas famílias, preocupadas com possíveis maldições de ancestrais, tentaram burlar as regras e acabaram presas.

Para o professor Ngubane, a população, mesmo contrariada, adapta-se ao novo contexto, pois entende a letalidade do coronavírus e a importância das medidas sanitárias e de distanciamento social.

Em Gana, para evitar aglomerações, a maior funerária privada do país passou a oferecer transmissões ao vivo online dos velórios.

Na África do Sul, sobretudo nas classes médias urbanas, tanto por questões sanitárias quanto pelo custo mais baixo (R$ 1.500), houve aumento no número de cremações, prática menos comum no país.

Como os velórios passaram a ser muito mais simples, em geral realizados em um único dia, são menos dispendiosos para a família, evitando o endividamento em um momento no qual as economias do continente sofrem com os efeitos das quarentenas.

Um estudo recente da União Africana afirma que 20 milhões de empregos podem ser extintos devido à pandemia, e o Banco Mundial aponta para a primeira recessão em 25 anos na África subsaariana.

No longo prazo, contudo, o que o coronavírus não deve alterar é o espírito comunitário do adeus.

“Em funerais, nós celebramos a vida de quem morreu. É parte da nossa cultura, é assim que honramos as pessoas. Com a Covid-19, não podemos exercitar quem somos”, conclui Ntiski.

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