Descrição de chapéu Deutsche Welle Coronavírus

Pandemia de coronavírus impulsiona mercado de maconha nos EUA e no Canadá

Classificada como produto essencial em alguns estados americanos, venda quase dobrou

Nicolas Martin
DW

A cannabis é tão importante quanto leite ou pão? Apesar de parecer uma piada ruim, a maconha vem recebendo a bênção de autoridades durante a pandemia de Covid-19.

Em alguns estados americanos, lojas de cannabis puderam permanecer abertas durante a quarentena, exatamente como os supermercados e as padarias.

"Isso mostra o quanto a cannabis está enraizada na sociedade", avalia Stephen Murphy, um analista do setor, sobre a decisão de alguns estados americanos de classificá-la como um "produto essencial".

A Prohibition Partners, firma de Murphy, é uma das que simbolizam a fama da planta. A empresa, que se define como independente, possui 40 funcionários em Londres, Barcelona e Dublin e analisa o mercado mundial da cannabis, realizando estudos econômicos, científicos e políticos.

A crise do coronavírus teria mostrado como investidores de todos os setores ficaram mais cautelosos, uma tendência que, naturalmente, também é percebida no setor da cannabis.

"A indústria ainda é nova, precisa de muito dinheiro para lobby, maquinário, tecnologia e pessoal. Vemos que algumas empresas têm muito mais dificuldades para conseguir recursos", diz Murphy.

Essa dificuldade pode ter relação com a imagem negativa associada aos produtores de maconha. Além da má fama de maconheiras, várias empresas já afundaram —e, com elas, o dinheiro de muitos investidores.

Especialmente no Canadá, onde a maconha foi completamente legalizada em 2018, o retorno para a indústria acabou sendo decepcionante, sem a esperada explosão de lucros. Também por esse motivo, as ações de quase todas as empresas do setor despencaram.

"Os investidores voltaram a ser realistas sobre o potencial da cannabis", afirma Murphy. Muitas empresas congelaram planos de expansão e demitiram funcionários. A companhia mais valiosa da planta, Canopy Growth, reduziu suas atividades na América Latina e na África, por exemplo.

Desde o início da pandemia do novo coronavírus, porém, o setor vem fornecendo notícias positivas.

Em alguns dias de março, antes do anúncio do isolamento nos Estados Unidos, as vendas de maconha quase dobraram em comparação aos meses anteriores. No Canadá, as compras também aumentaram, num momento em que bares e restaurantes estão fechados.

Até o momento, o Canadá é o único país desenvolvido no qual a cannabis é totalmente legalizada. A Nova Zelândia quer realizar um referendo popular sobre o tema em 19 de setembro. E os EUA poderão ser os próximos depois da eleição presidencial, em novembro, afirma Murphy.

A cannabis é legalizada totalmente ou apenas para fins medicinais em 33 dos 50 estados americanos, mas continua sendo proibida no âmbito federal. "Ninguém vai querer desperdiçar o potencial eleitoral desse assunto, nem mesmo [o presidente americano Donald] Trump", diz Murphy.

Na Alemanha, o consumo recreativo de maconha é proibido. Mas, há mais de três anos, pacientes podem consumir medicamentos à base da planta para tratar algumas doenças. Em alguns casos, o seguro-saúde arca com os custos.

Segundo dados do Instituto Federal de Produtos Farmacêuticos e Medicinais da Alemanha (BfArM, na sigla oficial), os números cresceram continuamente até o final de 2019.

No total, o lucro com a cannabis medicinal na Alemanha somou 120 milhões de euros (R$ 723milhões) no ano passado. Mas o mercado é cada vez mais disputado: até agora, mais de 50 empresas têm permissão para importar o produto, segundo a revista especializada Marijuana Business Daily.

Ainda não se sabe se a crise do coronavírus influenciou os lucros do setor no país europeu. Mas Jürgen Neumeyer, presidente da Associação das Empresas da Indústria de Cannabis, que visa representar os interesses das companhias deste ramo, destaca que "faz tempo que o número de pacientes não aumenta".

Segundo Neumeyer, a falta de vestuário de proteção na Alemanha pode ter deixado cicatrizes no mercado.

As plantas de cannabis são verificadas nas farmácias do país, e a divisão em porções também é realizada localmente. Como muitos pacientes que usam a maconha medicinal pertencem ao grupo de risco, farmacêuticos precisam usar equipamentos de proteção neste trabalho.

Além disso, menos pacientes estão indo ao médico, o que pode influenciar negativamente o número de prescrições de cannabis para uso medicinal.

A Alemanha ainda recebe muita cannabis da Holanda e do Canadá. Mas, para Murphy, a pandemia do coronavírus também tem efeitos na logística do produto.

Antes da disseminação do vírus, farmacêuticos e pacientes já reclamavam de gargalos no fornecimento, que deverão ser solucionados por meio do plantio controlado de maconha no país.

No momento da liberação para uso medicinal, em 2017, o governo alemão iniciou uma licitação neste sentido, mas o processo empacou várias vezes e precisou ser reiniciado. Em abril do ano passado, o Instituto Federal de Produtos Farmacêuticos e Medicinais escolheu três empresas para o plantio.

Até o final de 2020, essas empresas têm obrigação de fornecer a primeira colheita de cannabis à agência, ou seja, ao governo federal.

À agência DW o BfArM respondeu que a pandemia não mudou nada nesse objetivo. Porém, Neumeyer se diz menos otimista. Ele continua enxergando os objetivos como "muito ambiciosos".

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