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Violência volta a Hong Kong e testa plano de controle da China

Manifestantes e polícia se mostram inflexíveis enquanto Pequim planeja esmagar ativistas pró-democracia

São Paulo

O primeiro embate entre os ativistas pró-democracia em Hong Kong e o governo leal à China após Pequim decidir apertar o controle sobre o território autônomo mostra que o impasse iniciado no ano passado não só permanece, mas pode recrudescer.

Milhares de manifestantes foram à elegante região de Causeway Bay, dona do metro quadrado comercial mais caro do mundo, neste domingo (24).

Manifestantes pró-democracia na região de Causeway Bay, em Hong Kong, neste domingo
Manifestantes pró-democracia na região de Causeway Bay, em Hong Kong, neste domingo - Isaac Lawrence/AFP

Os manifestantes, que já adotavam máscaras e proteção facial, não se mostraram intimidados pelo novo coronavírus —a pandemia foi bastante mitigada em Hong Kong, com apenas 142 casos por milhão de habitantes (o Brasil tem 1.644) e 0,5 mortes por milhão (164 entre brasileiros).

"A hora de revidar é agora", disse por mensagem de aplicativo Joshua Wong, o jovem de 23 anos que desde 2014 está na linha de frente de protestos contra o domínio chinês sobre a antiga colônia britânica.

Diferentemente de outros 120 ativistas, segundo a mídia local, ele não foi preso. Mas as cenas de barricadas nas ruas, gás lacrimogêneo e quebra-quebra lembraram os momentos mais tensos dos protestos iniciados em junho do ano passado que abalaram a dinâmica economia da região.

A dureza da repressão, também. Policiais foram breves na exibição da famosa faixa azul pedindo para que atos ilegais sejam dispersados. Vídeos na internet mostraram várias cenas de violência, de lado a lado, aliás: um advogado foi espancado por manifestantes sem motivo aparente.

Em 2019, os atos, que anabolizaram protestos semelhantes de anos anteriores, tiveram como estopim uma lei que facilitava a extradição de honcongueses para a China comunista. O texto foi retirado, mas as demandas por liberdades como eleições universais aumentaram.

No território, o Judiciário é autônomo, há liberdade de expressão e o sistema é capitalista, tudo graças ao arranjo de devolução de seu controle pelo Reino Unido aos chineses, em 1997.

Assim, toda e qualquer mudança legal que sugira perda dos direitos adquiridos até 2047, quando expira o arranjo, é motivo de tensão. Inclusive o artigo 23 da Lei Básica de Hong Kong, que versa sobre medidas do governo para impedir subversão e secessão, que nunca foi regulado.

Em 2003, honcongueses foram à rua contra a hipótese. Agora, Pequim se agarra a essa desobediência para implantar, via Congresso Nacional do Povo, as mesmas medidas —segundo seus próprios termos.

O fará de forma que os manifestantes consideram ilegal, sem consulta ao Conselho Legislativo local. Há uma brecha legal tortuosa para isso, via o chamado Anexo 3 da Lei Básica, mas o mecanismo foi condenado por 200 políticos e especialistas de 23 países em manifesto divulgado no sábado (23).

A disposição dos ativistas, vistos pelo regime comunista como agentes apoiados pelos Estados Unidos para desestabilizar a China, será testada até a data em que se espera a imposição da lei de segurança, a próxima quinta (28).

Ativista pró-democracia é preso por policiais durante protesto em Causeway Bay, Hong Kong
Ativista pró-democracia é preso por policiais durante protesto em Causeway Bay, Hong Kong - Isaac Lawrence/AFP

A primeira amostra foi de que a resistência continuará. Isso tem dois lados. O mais óbvio, dará a publicidade que os ativistas querem de sua causa ao mundo. Outro, reforçará a noção da ditadura continental de que Hong Kong virou apenas um peão na Guerra Fria 2.0 que trava com Washington.

Isso porque o governo de Donald Trump, que já vinha dando apoio aos manifestantes desde o ano passado, tem dito que vai revisar sua relação com Pequim a partir dos desenvolvimentos na cidade-Estado.

Se isso virá em forma de algum tipo de sanção, é incerto. O ato aprovado pelo Congresso e pelo governo americanos em novembro passado já prevê punições a autoridades honconguesas que cometerem abusos contra ativistas —a rigor, a lista pode chegar até à executiva-chefe local, Carrie Lam.

Pequim parece contar com os limites da retórica americana neste caso. A repressão deste domingo demonstra que o caminho escolhido por Xi Jinping foi o de aproveitar o desarranjo mundial decorrente da pandemia do novo coronavírus para tentar esterilizar os protestos que lhe tiram o sono.

Hong Kong, afinal de contas, é um lembrete ao mundo sobre as contradições da ditadura instaurada em 1949 no colosso asiático. Seu regime de liberdades é incompatível com o de Pequim, ao mesmo tempo em que é um útil instrumento econômico.

A criação de uma dúzia de zonas econômicas especiais no continente ainda não tirou a prevalência que o mercado acionário e financeiro de Hong Kong tem para a economia chinesas.

Cerca de 60% dos investimentos que entram e saem da China passam por instituições da desregulada região, que viu o status da rival Singapura crescer como centro de negócios na Ásia já no ano passado.

O recrudescimento eventual da crise, que já afetara os mercados financeiros do mundo todo na sexta (22), poderá colocar em xeque o plano chinês. O embate que estava previsto para a eleição parlamentar de setembro em Hong Kong já está nas ruas.

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