Com força entre eleitores brancos, Biden amplia vantagem sobre Trump em estados-pêndulo

Respostas de presidente à pandemia e a atos antirracismo ajudam a explicar erosão nas pesquisas

Nate Cohn
The New York Times

O presidente Donald Trump perdeu terreno significativo nos seis estados-pêndulo —ora tendem a democratas, ora a republicanos— que lhe garantiram sua vitória no Colégio Eleitoral em 2016, segundo pesquisas do New York Times/Siena College.

Joe Biden, por sua vez, está mais de dez pontos à frente do republicano em Michigan, Wisconsin e Pensilvânia.

A dianteira antes dominante de Trump entre os eleitores brancos praticamente desapareceu, e, se essa situação persistir, vai praticamente excluir a possibilidade de o presidente ser reeleito.

Biden hoje tem vantagem de 21 pontos entre os eleitores brancos com formação universitária, e o atual líder americano está perdendo entre os eleitores brancos em três estados indecisos do norte do país —não por muito, mas são estados em que ele venceu por quase dez pontos de diferença em 2016.

Joe Biden, candidato pelo Partido Democrata à presidência dos EUA, durante evento de campanha em Lancaster, na Pensilvânia - Mark Makela - 25.jun.20/Reuters

Quatro anos atrás, a força de Trump nos estados-pêndulo, com população desproporcionalmente branca e de classe trabalhadora, permitiu que ele vencesse no Colégio Eleitoral apesar de perder no voto popular.

As pesquisas indicam que o presidente continua a se sair melhor nesses estados indecisos, de maioria branca, do que no país como um todo.

Uma pesquisa Times/Siena divulgada na quarta-feira (24) mostrou Biden liderando por 14 pontos em todo o país, com 50% a 36%.

Biden conquistará a Presidência com pelo menos 333 votos eleitorais, muito mais que os 270 necessários, se vencer em todos os seis estados pesquisados e conservar os estados em que Hillary Clinton venceu quatro anos atrás.

A maioria das combinações de quaisquer três dos seis estados indecisos —que incluem Flórida, Arizona e Carolina do Norte— lhe daria a vitória.

A pouco mais de quatro meses para a eleição, ainda há tempo para o presidente recuperar sua posição política, como aconteceu em tantas ocasiões quatro anos atrás.

Ele conserva uma vantagem substancial na economia, que pode se tornar uma questão ainda mais central em um ciclo eleitoral que já vem sendo volátil. E muitos dos eleitores indecisos nesses estados tendem a votar no Partido Republicano e podem acabar apostando em Trump.

Por enquanto, porém, os resultados das pesquisas confirmam que a posição política do presidente se enfraqueceu nitidamente desde outubro, quando pesquisas Times/Siena mostraram Biden com vantagem de apenas dois pontos percentuais nos mesmos seis estados (a diferença agora é de nove pontos).

Desde então, o país vem enfrentando uma série de crises que representariam um desafio político grave para qualquer presidente que quisesse se reeleger. As pesquisas sugerem que os eleitores dos estados indecisos pensam que o presidente vem tendo dificuldade em reagir à altura do momento.

Ao todo, 42% dos eleitores nos estados-pêndulo aprovam o modo como Trump vem fazendo seu trabalho de presidente, enquanto 54% desaprovam.

Juntos, esses seis estados —que abrangem grandes cidades, velhos centros industriais, subúrbios em crescimento e até terras agrícolas— fizeram uma avaliação negativa de Trump em relação a problemas recentes que vêm abalando a vida americana.

A resposta dele à pandemia e aos protestos desencadeados pela morte de George Floyd ajudam a explicar a erosão que o presidente vem sofrendo em áreas disputadas, tanto novas quanto antigas.

Trump conta com índices de aprovação melhores em relação a questões do tipo que poderiam dominar a temporada eleitoral em circunstâncias mais normais. Seu índice de aprovação de 56% em relação à economia, versus 40% de desaprovação, é quase o oposto a seu índice de aprovação sobre empregos.

Os eleitores dizem, com margem superior a 10%, que ele faria um trabalho melhor que Biden na economia, e eles também prefeririam ver Trump cuidar das relações com a China.

Ainda há tempo para fatos caírem no esquecimento ou para a discussão nacional voltar a enfocar assuntos mais favoráveis para o presidente.

Joe Cook, 35, gerente de uma padaria em Orlando, na Flórida, votou em Trump em 2016 e desaprova o modo como o presidente vem lidando com a pandemia de coronavírus. Ele diz que Trump não deveria ter deixado a economia fechar durante a pandemia e deveria ter reprimido manifestantes.

Mas ele vai votar em Trump mesmo assim porque o presidente defende a redução dos impostos e da regulamentação. “Quanto menor a presença do governo na minha vida, melhor”, disse Cook.

Por ora, porém, a coalizão do presidente vem sofrendo deserções importantes, erodindo as divisões demográficas familiares das eleições recentes.

Trump conserva o apoio de 86% dos entrevistados que disseram ter votado nele em 2016. Em outubro, ele ainda tinha o apoio de 92% desses eleitores.

Biden, enquanto isso, emergiu de uma primária disputada com uma coalizão democrática unificada. Ele conta com 93% dos eleitores que apostaram em Hillary Clinton quatro anos atrás e 92% dos que se identificam como democratas.

Biden também desfruta de uma vantagem importante entre os eleitores que não votaram nem em Trump nem em Clinton em 2016. Ele tem uma vantagem de 35 pontos entre os eleitores dos estados indecisos que votaram em um candidato de um partido menor ou escreveram outro nome na cédula.

Tomadas em conjunto, essas mudanças de posição conferem a Biden uma dianteira de seis pontos entre os eleitores que participaram da eleição de 2016, segundo registros eleitorais.

Os mesmos eleitores disseram ter apoiado Trump sobre Clinton por 2,5 pontos percentuais em 2016, um pouco melhor para Trump do que o resultado real dos seis estados, fato que aponta para certa confiabilidade dos resultados da pesquisa.

Biden também está 17 pontos à frente de Trump entre os eleitores registrados que não votaram em 2016.

A vantagem antes decisiva de Trump entre os eleitores brancos se perdeu, apesar da atenção nacional que vem sendo voltada ao tipo de questões raciais que muitos analistas consideram que deram a Trump sua força entre os eleitores brancos, em primeiro lugar.

Se as atitudes em relação à raça foram fundamentais para a atração que Trump exerce sobre eleitores brancos, uma das bases de sua força foi fortemente abalada.

Pesquisas nacionais sugerem que o movimento "Black Lives Matter" ganhou popularidade significativa desde a eleição de 2016.

As sondagens Times/Siena apontam que os eleitores brancos nos estados-pêndulo apoiam os protestos recentes e concordam com as principais queixas do movimento contra o sistema de justiça criminal, incluindo a ideia de que a morte de Floyd faz parte de um contexto mais amplo de violência policial excessiva e que o sistema de justiça criminal é enviesado contra os afro-americanos.

Eles desaprovam a resposta do presidente tanto aos protestos recentes quanto às relações raciais de modo mais amplo.

Os avanços de Biden entre eleitores brancos têm sido maiores entre os eleitores brancos jovens e com formação universitária, os que têm probabilidade maior de apoiar o ponto de vista dos manifestantes em relação a questões raciais.

Nos seis estados, Biden tem dianteira de 55% contra 34% entre os eleitores brancos com pelo menos um diploma de um curso universitário de quatro anos; é um avanço de 11 pontos em relação a outubro.

Hoje os eleitores brancos de até 35 anos apoiam Biden por margem de 50% a 31%, sendo que em outubro a situação era de virtual empate.

Os eleitores brancos com atitudes mais conservadoras sobre questões raciais parecem ter azedado em relação a Trump nos últimos meses, mas ainda não aderiram a Biden.

Os eleitores brancos sem formação universitária, que estão no cerne da coalizão vencedora do presidente, apoiam Trump por uma margem de 16 pontos percentuais nos estados indecisos.

Essa vantagem era de 24 pontos em outubro e de 26,1 nas últimas pesquisas de intenção de voto antes da eleição passada. Apesar dessa queda de Trump, o apoio a Biden entre os eleitores brancos sem formação universitária aumentou apenas um ponto desde outubro.

Uma eleitora com essas características que Biden conquistou é Samantha Spencer, 29, de Beloit, Wisconsin. “Há tantas coisas que me deixaram visceralmente enojada”, diz ela.

“Sou cristã. Conheço muitas pessoas que também são cristãs e ainda apoiam Trump, mas devido à minha fé não posso mais justificar a defesa deste tipo de porcaria.”

Biden lidera entre os eleitores de 65 anos de idade ou mais, invertendo uma vantagem que foi dos republicanos durante décadas.

Mas desde outubro ele avançou relativamente pouco entre os eleitores com mais de 50 anos, e não avançou nada entre os eleitores brancos com mais de 50 anos e sem formação univesitária.

As atitudes relativamente conservadoras desses eleitores em relação às questões raciais e aos protestos podem ser parte da razão da resiliência do presidente: os eleitores brancos nos estados-pêndulo que têm 50 anos ou mais são contra as manifestações recentes e dizem que muitas delas desandaram em tumultos violentos.

Eles estão divididos em relação a se a discriminação contra brancos é um problema tão grande quanto a discriminação contra minorias e, por uma margem de dez pontos percentuais, opinam que os protestos são um problema maior do que o tratamento dado pela polícia aos afro-americanos.

Fato talvez mais surpreendente é que Biden avançou pouco ou nada entre os eleitores não brancos, apesar da atenção nacional voltada à justiça criminal e ao racismo no último mês.

Ao todo, nos estados indecisos, Biden lidera por 83% a 7% entre os eleitores negros, um aumento apenas leve em relação a outubro.

Os eleitores hispânicos apoiam Biden por uma margem de 62% a 26%, que também se conservou essencialmente igual. Nenhuma dessas vantagens excede a margem de Hillary nas pesquisas finais de 2016.

A vantagem ampla de Biden constitui mais um reflexo da fraqueza do presidente que da força do próprio candidato democrata.

Ao todo, 55% dos eleitores de Biden dizem que seu voto é mais um voto contra Trump que um voto por Biden. Já no caso de Trump, 80% de seus apoiadores dizem que vão votar no presidente principalmente por ele ser quem é.

E os ganhos de Biden aconteceram sem qualquer melhora de seu índice de favorabilidade, ao mesmo tempo que o de Trump caiu vertiginosamente.

Tradução de Clara Allain 

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