Descrição de chapéu Financial Times

Como funciona o 'modelo japonês' que controlou o coronavírus

Sem instrução oficial, população passou a lavar as mãos, a usar máscaras e a manter distanciamento

Tóquio | Financial Times

Quando Shinzo Abe encerrou o estado de emergência no Japão na semana passada, com apenas 16.724 infecções e 894 mortes pela Covid-19, ele não resistiu a se gabar do "modelo japonês" para lidar com o coronavírus.

"De uma maneira tipicamente japonesa, quase controlamos a epidemia no último mês e meio", declarou o primeiro-ministro. Seus comentários levantaram uma pergunta: qual é o modelo japonês, e ele poderia funcionar em outro lugar?

Estudantes do ensino médio durante cerimônia de reabertura de escola no Japão - 1º. jun.2020/Jiji Press/AFP

Embora tenha havido um aumento dos casos em Tóquio, entender as razões do relativo sucesso do Japão no controle da Covid-19 tem importância global. Afinal, o país não impôs um bloqueio obrigatório e aplicou poucos testes do vírus, dois elementos que outros países consideram cruciais.

Grande parte do debate público no Japão havia girado em torno de fatores culturais, como altos padrões de higiene, obediência às solicitações do governo e até afirmações de que a ausência de consoantes aspiradas no idioma japonês reduz a propagação de gotículas de vírus.

Mas especialistas locais afirmam não acreditar que seu país tenha um poder mágico para derrotar o vírus.

Em vez disso, apontam outros três fatores prosaicos: uma estratégia especial de rastreamento de contatos, a conscientização precoce, que produziu uma reação positiva do público japonês, e a declaração a tempo do estado de emergência.

O Japão foi atingido logo no início da epidemia por causa de seus laços estreitos com a China. O país relatou seu primeiro caso em 15 de janeiro, e a primeira infecção doméstica, em 28 de janeiro.

No início de fevereiro, quando a maioria do mundo ainda tratava a Covid-19 como um problema chinês, Tóquio enfrentou um surto no navio de cruzeiro Diamond Princess.

"O Japão percebeu o que estava acontecendo e começou a reagir antes que o vírus se instalasse", disse Satoshi Hori, especialista em controle de infecções e professor na Universidade Juntendo. "Foi uma vantagem local."

Sem nenhuma instrução oficial, a população começou a esterilizar as mãos, a usar máscaras e a praticar distanciamento social por vontade própria.

"Todo mundo usou máscaras para se proteger, mas o efeito real foi reduzir a propagação por portadores assintomáticos da Covid-19", disse o professor Hori. "Pode ter sido sorte, mas fez a diferença."

O Japão usou uma abordagem específica para rastrear contatos. "A maioria dos outros países adotou o que chamamos de rastreamento prospectivo", disse Shigeru Omi, chefe do grupo de especialistas que aconselha o governo sobre o vírus.

"A abordagem baseada em grupos usa rastreamento retrospectivo completo de contatos para identificar fontes comuns de infecção."

No rastreamento prospectivo, os contatos próximos de um caso de Covid-19 são monitorados para que possam ficar em quarentena se apresentarem sintomas.

A abordagem japonesa também tenta descobrir onde eles foram infectados, seja uma boate ou um hospital, e depois monitora as pessoas que visitaram o mesmo lugar.

Quatro em cada cinco pacientes com coronavírus não infectam mais ninguém, por isso Omi disse que encontrar os superpropagadores é uma maneira mais eficaz de controlar a doença.

Kenji Shibuya, especialista em saúde pública do King's College, em Londres, disse que o controle de grupos funcionou bem até o início de março, mas depois o coronavírus começou a circular nas grandes cidades do Japão.

A desaceleração do crescimento do surto ajudou o primeiro-ministro a declarar o estado de emergência no momento certo, quando o número de casos ainda era administrável.

"Se a decisão tivesse sido tomada uma semana depois, o número de casos teria explodido", disse Shibuya, comparando o momento da declaração do Japão com os bloqueios na Itália e no Reino Unido.

O estado de emergência não obrigava as pessoas a ficarem em casa, mas muitas respeitaram o pedido. "O bloqueio moderado no Japão parece ter tido um efeito de bloqueio real", disse ele.

Outros países podem não ter o mesmo nível de aceitação a uma solicitação não compulsória, disse o professor Hori.

Shibuya disse que a abordagem do Japão não é perfeita e que outros países asiáticos se saíram melhor. Segundo ele, é vital aplicar mais testes.

"Como não tinham os testes, não puderam impedir o crescimento exponencial em Tóquio e nas grandes cidades", explicou.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves  

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