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Diário de confinamento: 'A verdade é que é uma incerteza para todos'

Na semana que vem, não vou poder aproveitar os luxos da fase 2 da desescalada que avança em Barcelona

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #85 – Sábado, 6 de junho. Cena: na segunda-feira, mais de metade da Espanha entra na fase 3, última etapa da desescalada.

Vamos começar assim: quarentena não são férias. E, sim, como contei nesta sexta (5), tive sorte de ter acesso a um teste de coronavírus na Espanha, onde moro.

Sou a única pessoa que conheço que fez um PCR, a não ser pelos pais idosos de um amigo, que foram hospitalizados com quadro grave de coronavírus e felizmente passam bem.

Estar de quarentena depois de um resultado positivo de infecção por coronavírus não é exatamente uma brisa, principalmente a esta altura do desconfinamento na Espanha, quando todos começam a sair de casa. "Veja pelo lado bom, você pode ficar em casa" não cola.

Na semana que vem, não vou poder aproveitar os luxos da fase 2 da desescalada que avança em Barcelona: encontrar amigos, em grupos de até 15 pessoas; pedir um drinque ou um café num bar, seja dentro ou ao ar livre; tomar um banho de mar, ir a consultas médicas de rotina e, por sinal, nem fazer coisas que já eram permitidas desde o início do desconfinamento, como passear em horários predeterminados.

Na realidade, nem ir ao mercado. E, claro, nem pensar em fazer outra coisa que não seja trabalho remoto.

Em suma, o que eu imaginava estar acabando, para mim, está só começando.

Mulher usa equipamentos de proteção durante visita a loja de Barcelona
Mulher usa equipamentos de proteção durante visita a loja de Barcelona - Nacho Doce - 4.jun.20/Reuters

E como é a experiência de um coronapositivo assintomático como eu? Muita gente, ao saber do meu caso, me perguntou. Pois bem. Com o papel do laboratório na mão, começa a via-crúcis. E que via-crúcis: extensa, embora certeira.

Primeiro passo em meu caso: comunicar o sistema de saúde, uma vez que meu teste foi realizado em um laboratório privado.

Passei um dia inteiro topando com linhas congestionadas do posto de saúde de minha zona; depois de tentar umas 15 vezes e mandar e-mail, resolvi arriscar o 061, linha de emergências utilizada como suporte para consultas sobre Covid-19 durante a pandemia.

Após uma breve entrevista, a atendente me encaminha para uma enfermeira. Escuto pacientemente as recomendações que já ouvi outras vezes: isolamento total de 14 dias em um quarto sem contato com o exterior. Desinfecção constante de superfícies. Não compartilhar banheiro (impossível em casa, e impossível, na realidade, para a maioria dos apartamentos em Barcelona e no universo).

Detenho um verme de egotrip, mas ele assoma a cabezita mesmo assim: me sinto de repente La Infectada do pedaço.

A sensação de vitimismo ou desproporcionalidade da situação (por que eu, por que agora? e os outros todos que não fizeram o teste e seguem perambulando por aí?!) se dissipa rapidamente, com um devido suspiro de concentra-Susana.

Tenho sorte: sou das poucas que passaram da dúvida à certeza do diagnóstico, e da certeza à atenção sanitária.

O passo seguinte é conseguir falar, finalmente, com minha médica de cabeceira. Atenciosa, essa catalã de cabelos vermelhos (que eu não vejo, porque estamos ao telefone) vai repassando todas as informações sobre o meu caso, enquanto verifica meu histórico no computador, e me pergunta por todas as pessoas com quem tive contato físico "por mais de 15 minutos" nos últimos 15 dias.

Em seguida, num intervalo de dois a três dias mais ou menos, todas as seis pessoas que vi nos últimos dias receberão uma ligação de um rastreador, cuja função é mapear e acompanhar a evolução dessa rede de "contatos estreitos" com positivos, procurando sintomas e dando recomendações conforme o caso.

Todos dessa rede são tratados como potencialmente contaminados e devem seguir a quarentena preventivamente. Depois de 14 dias assintomáticos, estão livres pra voar.

Eu converso com cada um. No geral, são compreensivos e entendem que por acaso eu fui diagnosticada, mas poderia ter sido contaminada por qualquer um deles. Ainda assim, as dúvidas deixam alguns angustiados.

"Isso quer dizer que tenho que cancelar a festa de aniversário da semana que vem, com meu amigo que acabou de ter filho?", exclama um.

"Tenho que ver como fazer para me manter, porque sou freelancer e preciso sair de casa para trabalhar", preocupa-se outro.

"Ah, não tem problema... Espera, estou indo encontrar uma amiga", diz uma terceira, para preocupação da minha parte.

Por um momento, parece que são todos meus "filhos", filhotes-de-uma-situação-incontrolável. Shoot me, tô louca.

"Por favor, pede à tua médica que me façam o teste!", roga um amigo. Infelizmente, ela é categórica: teste, só para casos graves. Nos dias de hoje, a Espanha segue com escassez de recursos diagnósticos.

Segundo o protocolo atual aqui, depois de sete a oito dias de um primeiro teste PCR positivo, realiza-se outro teste. A coronacartilha do sistema público espanhol reza que o ápice infeccioso arrefece depois desse período. Se der positivo, repete-se o teste depois de mais sete dias.

"O PCR indica que há restos do vírus no organismo, mas no dia de hoje não somos capazes de diferenciar facilmente se são infecciosos ou não", explica minha médica.

E o que dizer de um teste sorológico (de anticorpos) negativo de dois dias antes, feito no Instituto de Oncologia que acompanha meu caso?.

A médica diz que "há distintas possibilidades", como uma janela imunológica no momento da prova. Pra complicar, "parece que algumas pessoas com sintomatologia muito leve podem acabar não desenvolvendo anticorpos apropriadamente, e com isso o teste sorológico pode sair negativo".

"Mas, com essa enfermidade, vamos aprendendo a cada dia. A verdade é que é uma incerteza para todos, para vocês e para nós também."

Silêncio ao telefone. Medito sobre suas palavras, arrisco um fluxograma mental. E me despeço, agradecendo muito.

Ela vem trabalhando muito mais do que seu horário normal para dar conta do momento estratégico de Diagnósticos Massivos em que entrou a Espanha pós-confinamento.

Levanto os olhos e vejo, do terraço de casa, que começam a sair as pessoas para seus passeios permitidos das 20h, dia ainda claro. Não pra mim. Aqui, o confinamento segue mais um pouco.

“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui.


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