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Diário de confinamento: 'Cada dia, ao chegar em casa, me isolava da minha família'

Uma equatoriana de meia-idade muito simpática passou dois meses no hospital; por sorte, não como paciente

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #95 - Terça, 16 de junho. Cena: barceloneses curtem a última semana sem turistas, ocupando as ruas do centro para jogar bola e visitando lugares geralmente abarrotados como o Parc Güell, o museu Picasso e o mercado histórico da Boquería.

Geni é uma equatoriana de meia-idade muito simpática. Pelo menos na minha imaginação, porque tudo o que já vi de seu rosto são os olhos.

Estamos em Barcelona, é dia de chuva. O centro da cidade, usualmente pululando de turistas e demais passeantes, é quase silencioso nesta terça-feira, com o chap-chap ocasional dos sapatos sobre as calçadas molhadas.

São em sua maioria entregadores levando mercadorias para pequenos mercados, um ou outro morador da residência de pessoas com deficiência da esquina ou trabalhadores dos poucos bares e lojas abertos, as caras cansadas ou distraídas.

Membro da equipe de apoio técnico auxilia profissional de saúde a colocar equipamento de proteção em Barcelona
Membro da equipe de apoio técnico auxilia profissional de saúde a colocar equipamento de proteção em Barcelona - Josep Lago - 1º.mai.20/AFP

Hoje não há clientes à vista e, em muitos casos, sequer o vendedor do estabelecimento vizinho com quem trocar ideia.

Estamos em uma lojinha de bairro. Enquanto passa o espanador nos produtos com gestos quase etéreos, ela me pergunta: "E como foi a quarentena pra você?".

Eu, que francamente tô meio cansada de responder essa pergunta, me limitei a dizer: foi duro, mas também não foi, sabe? Sorrimos debaixo das máscaras.

Um dedo de prosa mais e fico sabendo que, enquanto vivi o confinamento no conforto do lar, Geni passou o seu no hospital. Dois meses inteiros.

Por sorte, não como paciente. Ela foi recrutada pela empresa de limpeza para a qual presta serviço, que por sua vez foi contratada para reforçar a manutenção de um dos maiores hospitais públicos da cidade durante a epidemia.

Ou mais ou menos sorte: "Eu tinha muito medo pela minha família", diz. "À minha volta havia gente muito doente, alguns tossiam e cuspiam sangue", lembra.

Segundo ela, estava no andar reservado aos pacientes que saíam das UTIs. Nessa situação, segundo o médico que entrevistei, há dois tipos de situações: os que já estão melhor —e os que não melhorarão.

"Havia mucha, mucha gente", lembra. "Houve um caso que me tocou muito, de uma senhora. Eu lhe perguntei: 'Como está, como se sente?'. E ela me disse: 'Eu estou melhor, mas não sei como estará meu marido, porque ele está na UTI'. Eu só pude responder: 'Tranquila, tudo irá bem'."

Soube o que passou? “Nunca mais a vi, foi transferida pra um desses hotéis de isolamento depois que se recuperou.”

Mãe de dois filhos, de 11 e 13 anos, Geni passou esses dois meses de trabalho no hospital isolada da família dentro da própria casa.

"Foi uma decisão nossa", conta, para além das recomendações da equipe da ONG Médicos Sem Fronteiras, que esteve no hospital instruindo as equipes sobre como proceder durante e após o trabalho.

"Eles nos ensinaram que o mais importante ao chegar em casa era nos desinfectar", lembra. "Cada dia, ao chegar em casa, eu guardava a roupa de rua numa sacola, tomava banho e me isolava em um quarto longe dos meus filhos e marido. Na hora de comer ou de ver tevê, eu sentava bem longe deles."

Ela me mostra fotos de seu uniforme de trabalho durante a pandemia. É igual ao dos médicos e dos enfermeiros: dupla máscara, plástico de proteção facial, touca, óculos, macacão, bata, plástico nos pés, luvas etc.

"Estava vestida de ir pra Lua", comenta, rindo. E agora, de volta à Terra, o que nos espera?, pergunto.

"Viver, toca viver", responde simplesmente. Com um amplo sorriso debaixo da máscara azul —ou será minha imaginação?

“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui.

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