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Diário de confinamento: 'Dinheiro pode estar com os dias contados no pós-pandemia espanhol'

Pagar com cartão vem sendo a recomendação, enquanto apps de pagamento instantâneo se popularizam

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #93 - Domingo, 14 de junho. Cena: em toda a Espanha, houve 1.737 infectados e 26 mortes por coronavírus na última semana.

O dinheiro vivo —moedas, notas, troco, caixinha, cofrinho, fezinha, enfim, a vil e ultraviajada bufunfa foliometálica em todas as suas variações materiais, a não ser plásticas— pode estar com os dias contados por aqui.

Funcionária usa proteção facial em supermercado em Barcelona
Funcionária usa proteção facial em supermercado em Barcelona - Pau Barrena/AFP

A proposta “não-de-lei” partiu nesta semana do Executivo espanhol, que meteu a ideia de “eliminação gradual do pagamento em espécie, com horizonte de sua desaparição definitiva” em meio ao anúncio de gordas medidas tributárias relacionadas a fraudes fiscais.

Em toda a parte desde o advento do vírus, pagar com cartão vem sendo a recomendação ululante, e essa tendência parece que veio mesmo para ficar.

A preferência por esse modo de pagamento, reiterada por cartazes e recadinhos do corazón em zilhares de estabelecimentos comerciais por todo o país, inclui o tal NFC ou "contactless" por celular, e sofreu um um boom durante o "lockdown" espanhol, junto com as compras virtuais.

O aumento do limite para transações sem PIN, de 20 para 50 euros (R$ 117 para R$ 294), também ajudou nisso. O negócio era/é não tocar, flutuar.

Eu mesma praticamente deixei de carregar dinheiro em espécie durante o confinamento, algo impensável apenas alguns meses atrás, seguindo recomendação do Ministério da Saúde e de alguns epidemiologistas.

Uma das únicas exceções nessa neopaúra ao dinheiro vivo são as lojas de produtos orientais, chamadas aqui de “tiendas chinas”.

Tanto os magazines de variedades quanto as lojas alimentícias do tipo continuam, não raro, só aceitando cartão em transações a partir de determinado valor, para driblar as tarifas desse tipo de serviço.

No mercado de produtos frescos orientais perto de casa, inclusive, nem isso: várias vezes a maquineta não está nem funcionando. E ai de ti se insistir: pode levar uma dardada do olhar implacável da chinesa dona do negócio, imune a mesuras cotidianas tipo "oi", "tudo bem" e "gracias".

Outro dia, vencida por um duelo de 0,0005 milissegundos de olhares 43, tive que abandonar a acelga japonesa e ir tirar dinheiro no caixa eletrônico —uma atividade cada vez mais rara em minha vida e na de outros muitos conhecidos nesses tempos pós-Covid.

Creio que ao longo do confinamento fui só uma vez no banco.

Outro fenômeno que se popularizou enormemente foi a utilização de apps de pagamento instantâneo entre particulares.

O mais conhecido nacionalmente é de longe o Bizum, um aplicativo espanhol lançado em 2016 por uma rede de 24 bancos que cobrem 96% do mercado nacional. No final de maio, contabilizava 8 milhões de usuários.

Entre eles, uma amiga, professora de ioga, que nunca havia dado aula virtual até a quarentena, provou, com muita reticência, e triunfou: agora, recebe por Bizum, muy feliz, o pagamento de uma média de 15 a 20 alunos por sessão.

Durante o confinamento, muita gente recorreu à app para fazer compras para outras pessoas em supermercados e farmácias.

E também pra pagar cursos online, jogos virtuais coletivos e assinaturas compartilhadas (Netflix pra 48.709 pessoas, alguém?).

Embora a maioria dos usuários do Bizum seja da ala mais jovem (60% estão entre 25 e 44 anos), o “dinheiro alternativo” também está triunfando, pouco a pouco, entre as gerações mais velhas.

Na Espanha, por exemplo, 36% das pessoas entre 61 e 65 anos afirmaram haver aumentado o uso de pagamentos digitais durante o confinamento, e 30% a partir de 66 anos.

Seja como for, dinheiro de plástico, papel ou virtual, a OMS já avisou que o problema maior não é o infinito circuito de passa-dinheiro, e, sim, não lavar a mão depois de tocar qualquer coisa. Vocês sabem: lavem.as.mãos.

Terminado o confinamento, vou reintegrando pouco a pouco o dinheiro vivo na minha rotina.

Recebo de troco, trago para casa e, por algum até agora não muito sondável/sondado motivo psicológico, vou guardando tudo em tilintantes bolsinhas, como um corvo diligente, o olho vítreo perdido no augúrio de dias melhores. Até o fim dos tempos. Croaac.


“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui.

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