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Diário de confinamento: 'Sem pressa, mas sem pausa'

Em Barcelona, banhos de mar e de sol controlados nos lembram: ainda estamos em estado de alarme

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #80 – Segunda, 1o de junho. Cena: ginástica na sala ao som de Gloria Groove, "Coisa Boa".

Praia de Bogatell, Barcelona, manhã de sol. Eu e uma amiga inglesa, primeiro encontro em três meses, contemplamos a orla. Em pé, na areia, como muitos dos circunstantes.

"Adoro paddle (aqui, "pádel") surf", digo, enquanto observo as silhuetas sobre a água piscinosa mediterrânea deslizando em grandes pranchas, remo na mão. Ela não curte. Não consegue ficar em pé.

Pena, porque o esporte —que no Brasil eu comecei a praticar anos atrás, e sempre ouvi chamar de "stand up", pela posição em pé— tem sido uma boa alternativa para quem quer estar na praia nesses tempos de muitas regras e proibições.

Visitante tem a temperatura corporal medida antes de entrar no museu Guggenheim, em Bilbao
Visitante tem a temperatura corporal medida antes de entrar no museu Guggenheim, em Bilbao - Vincent West/Reuters

O mar de Barcelona é bastante tranquilo em comparação aos dias mais tranquilos do Atlântico. Às vezes tem onda, sobretudo nível marola, mas não hoje.

"Não faz diferença", diz minha amiga, que acaba de voltar de um banho de mar. "Cheguei a estar uma hora tentando ficar em pé, e com a mínima vibração já me agarro à prancha."

9h45. Vemos dois agentes da polícia se aproximarem pelo lado esquerdo da praia. A caráter, com seus uniformes azul-escuro, devem estar passando um calor danado nesses dias de pré-verão tropical, penso.

Avançam mansamente, sem quase interpelar os banhistas, mais fazendo um gesto de "levantaí" de vez em quando ou respondendo alguma pergunta.

Sem muito esforço e com confronto zero, a presença policial cumpre seu efeito Moisés da manhã. Dez minutos depois, a praia está vazia —e pronta para receber os passeantes seguintes, os maiores de 70 anos, que têm circulação privilegiada até o meio-dia.

Bom, mais ou menos: os chiringuitos (quiosques de praia), que reabriram na última semana, estão lotados, lotadíssimos de gente de todas as idades. É hora do vermute.

Na atual Barcelona em quarentena (sim, somos lembrados diuturnamente que ainda estamos em estado de emergência, com mobilidade limitada e atividades suspensas), não é permitido tomar sol nem ficar chapinhando em banhos recreativos na praia.

A ambiguidade das normas tem nos deixado um pouco confusos. Por via das dúvidas, numa espécie de consenso tácito sobre o que configuraria tomar sol, o que tenho visto é que quase ninguém deita na toalha.

As pessoas preferem ficar sentadas ou em pé (ainda que por 41.387.089 horas e, alguns, até com uma cervejinha na mão), mais vigilantes. Na minha cabeça, preparadas pra correr, fingir que caiu o lápis, dizer desculpe-seu-gualda.

Quanto ao banho de mar: em Bogatell, nesta manhã, a água estava salpicada de boias laranjas dos nadadores. Eu mesma trouxe a minha, vamos ver se tenho coragem —em tempos de entusiasmo, costumo descer ao mar pra nadar. Testo a água com o pé. Gelada de doer o saco do paiaço!!!

Além dos nadadores e das pranchas de "stand up" aqui e ali, grupos de jovens, casaizinhos, duplinhas de amiguis entram na água. Alguns poucos arriscavam dar umas braçadas. E aí... acho que burlei a regra.

Ou não, porque nadei um crawl por dez minutos. Esporte, né, gente. Até que vi os policiais vindo lá longe e, confesso, apressei o arremate do meu momento Baywatch.

As prefeituras estudam como preparar as praias para o avanço de fase da desescalada, quando o acesso ao mar e à areia vai ser mais relaxado.

Barcelona, cidade ultraturística que costuma ser insuportavelmente cheia no verão, agora mesmo está vazia —com o decreto do estado de alarme, além do mais, em dois dias perdeu 1 milhão de seres que debandaram, ou por serem turistas, ou por viverem fora do perímetro urbano.

Estamos sofrendo com a falta do turismo por motivos econômicos, mas ouvi da boca de muitos: que paraíso está essa cidade assim. Vai fazer falta.

Entre as ideias para controlar o inevitável crescente fluxo de pessoas nas praias e motivar o distanciamento social, alguns municípios estão pensando em instalar sensores e câmeras; em Valência, também utilizarão drones.

Há ainda quem esteja considerando a ideia italiana recém-inaugurada: um aplicativo que indica em tempo real o grau de lotação de cada trecho de praia. Separação de espaços já se considera uma medida básica, junto com a sinalização de corredores de passagem que está começando a ser implementada em Barcelona. E pode ser que, em breve, a gente tenha que marcar hora pra poder ir à praia.

De qualquer maneira, como comentou recentemente o vice-prefeito de Valência, Sergi Campillo, é imprescindível que "cada pessoa seja responsável e adote medidas de autoproteção". "Não há polícia suficiente para controlar todos os comportamentos."

Depois de varrer a orla com seu passo tortoise, os policiais desta manhã, braços cruzados nas costas, contemplam o horizonte enquanto nós metemos as coisas na sacolinha e nos mandamos. Sem pressa, "pero sin pausa", como reza o "dicho (ditado) callejero" da tartaruga sábia.​

“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui.

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