Em meio ao caos da repressão policial nos EUA, homem abriga 70 ativistas em sua casa

Manifestantes fugiam de cerca de 20 policiais fortemente armados em Washington

Washington

Khizer Khaderi tinha ouvido dizer que os manifestantes eram baderneiros. Que saíam às ruas para depredar, incendiar e saquear. Mas, ao abrigar 70 desconhecidos em sua casa na noite desta segunda-feira (2), em Washington, não se preocupou em esconder a carteira.

No dia seguinte, tudo estava no lugar, e flores e mantimentos estavam sendo entregues à sua porta.

"Eles poderiam ter brigado, batido, quebrado minha casa, mas não. Estavam chorando e tentando se ajudar. Estavam com medo e tinham razão para estar", conta Khaderi.

Manifestante encara policiais durante protesto no dia 1º de junho, em Washington D.C
Manifestante encara policiais durante protesto no dia 1º de junho, em Washington D.C - Drew Angerer - 1º.jun.2020/Getty Images/AFP

Pouco depois das 21h de segunda-feira, duas horas depois do início do toque de recolher na capital dos EUA, o americano de 44 anos viu uma movimentação estranha no seu quarteirão. Cerca de 20 agentes da polícia estavam parados no fundo da rua, todos fortemente armados.

Esperavam parte dos manifestantes que havia sido reprimida por bombas e tiros de borracha momentos antes, em frente à Casa Branca, a menos de 3 km dali.

O presidente Donald Trump tinha feito um pronunciamento público dizendo que mandaria "milhares e milhares" de homens do Exército para as ruas caso os prefeitos e governadores não conseguissem conter os atos contra o racismo e a violência policial que já atingem cerca de 140 cidades no país.

"As pessoas começaram a aparecer, e a polícia as encurralou aqui na rua. Os manifestantes pediram que eu os deixassem entrar na minha casa", afirma Khaderi.

Ele diz que ainda estava reticente quando ouviu uma explosão, que resultou em correria e muitos gritos. Foi então que deu dois passou para trás, escancarou a porta e autorizou a entrada.

Dezenas de ativistas correram de olhos fechados e tossindo, tentando encontrar a porta no meio do caos.

Segundo Khaderi, os policiais seguiam atirando bombas e spray de pimenta nas pessoas a poucos metros da sua casa.

"Era um protesto pacífico, os manifestantes levantavam as mãos para mostrar que estavam desarmados, não conseguiam enxergar por causa do gás e do spray de pimenta, tossiam, e ainda assim a polícia continuava os atacando na minha porta."

Em menos de dez minutos, cerca de 25 pessoas estavam no primeiro andar da construção amarela e azul perto de Logan Circle, área nobre da capital americana. Outras duas dezenas correram para o segundo piso, e o restante, diz Khaderi, ficou no quintal.

Ele pegou água, leite e alguns travesseiros para acomodar os visitantes. "Quando percebi que eles mal se conheciam e me dei conta de que o toque de recolher iria até as 6h, decidi que ficariam todos ali até amanhecer."

A prefeita de Washington, a democrata Muriel Bowser, impôs toque de recolher na cidade com a escalada dos protestos no fim de semana e o aumento do confronto entre policiais e manifestantes.

Os atos têm seguido de forma pacífica durante o dia, mas a noite leva à divisão dos grupos, e o clima muda em diversas regiões.

Khaderi disse que, depois que a situação se acalmou e os policiais deixaram sua região, diversas pessoas começaram a levar pizza e outros mantimentos durante a noite para os manifestantes. "Eu só abri a porta. De resto, eles se organizaram e fizeram tudo."

Os ativistas deixaram a casa de Khaderi perto das 8h desta terça. Ele disse que não dormiu nada durante o dia e que ainda tem a sensação de que tem gente na sua casa. "E me sinto bem com isso."

Nesta terça-feira (2), os protestos que pedem justiça pela morte de George Floyd entram em seu oitavo dia nos EUA e quinto na capital americana.

Apesar do ultimado de Trump, os atos em Washington seguiram nesta terça ainda maiores que na segunda.

Em frente à Casa Branca, as grades que protegiam a sede do governo ficaram mais altas, e a distância que elas imprimiam do prédio aos ativistas também aumentou.

O presidente colocou tanques blindados e cavalaria nos arredores, mas, até o fim da tarde, não havia confusão.

Em Washington há 17 anos, Khaderi disse que nunca havia visto algo desse tipo. Afirma que, em meio à pandemia e à crise econômica que o país vive —das quais os negros são as principais vítimas—, não é possível fazer comparações desse momento com o 11 de Setembro, por exemplo.

"Não estamos falando de ameaça externa, somos nós que estamos frágeis", afirma da porta de casa, enquanto aponta a bandeira dos EUA na janela. "É por isso que eu a prendi só de um lado, está bamba."

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