Enquanto críticas de militares a Trump crescem, atos ficam menores e mais pacíficos

Manifestantes tentam transformar os protestos contra morte de Floyd em um movimento renovado de direitos civis

Washington

Donald Trump foi contrariado. Após ameaçar aumentar com as Forças Armadas a repressão aos protestos contra o racismo e a violência policial nos EUA, o presidente assistiu em quatro dias à escalada de reações surpreendentes que emergiram das ruas ocupadas no país.

Enquanto os atos têm ficado menores e mais pacíficos, na tentativa de se consolidarem como um movimento social de escopo mais amplo e perene, militares foram a público em um gesto raro para endereçar fortes críticas à postura de Trump.

Pintura com a frase Black Lives Matter (vidas negras importam) em rua perto da Casa Branca durante protesto contra a morte de George Floyd em Washington nesta sexta (5)
Pintura com a frase Black Lives Matter (vidas negras importam) em rua perto da Casa Branca durante protesto contra a morte de George Floyd em Washington nesta sexta (5) - Joshua Roberts/Reuters

Na segunda-feira (1o), o presidente afirmou que enviaria milhares de militares para as ruas caso prefeitos e governadores não conseguissem conter manifestações que já tomavam centenas de cidades americanas após o assassinato de George Floyd por um policial branco, em Minnesota.

Em seguida, Trump atravessou a pé a praça Lafayette, em frente à Casa Branca, e posou para uma foto na fachada da histórica igreja de St. Johns, que havia sido parcialmente vandalizada nos atos um dia antes.

O trajeto do presidente só foi possível porque oficiais reprimiram com bombas de gás lacrimogêneo e cassetetes o protesto pacífico que acontecia diante da sede do governo.

Trump queria demonstrar controle e força e fez o percurso acompanhado do secretário de Defesa dos EUA, Mark Esper, e de Mark Milley, presidente do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas.

A ação gerou críticas de autoridades e religiosos e desencadeou uma reação em série de ao menos sete militares de alta patente.

O primeiro foi Mike Mullen. Na terça-feira (2), o almirante aposentado da Marinha publicou um artigo na revista The Atlantic com o título "Não posso manter o silêncio", em que dizia que os cidadãos americanos não são inimigos das Forças Armadas.

No dia seguinte, veio o petardo mais inesperado e poderoso: James Mattis, ex-secretário de Defesa do governo Trump. Em artigo na mesma publicação, o general afirmou que o presidente é uma ameaça à Constituição e que tenta deliberadamente dividir o país.

"Donald Trump é o primeiro presidente da minha geração que não tenta unir o povo americano —e nem finge tentar. Em vez disso, ele tenta nos dividir."

A declaração de Mattis foi considerada emblemática porque, além de ter o apoio de diversos republicanos por seus anos de serviço militar, o general linha-dura costumava ser discreto desde que saiu do governo, em 2018, apesar de ter sido diversas vezes pressionado a falar sobre as condutas de Trump.

Mattis disse que a tentativa de militarizar a repressão aos protestos foi seu limite e que o que acontece nos EUA hoje é consequência de três anos "sem uma liderança madura" na Casa Branca.

Nesta sexta-feira (5), John Kelly, ex-chefe de gabinete de Trump, fez coro a Mattis.

Disse que concordava com as críticas do ex-colega ao presidente e que teria argumentado contra a ação de segunda-feira, caso ainda estivesse no governo. "O resultado final disso era previsível."

Outros três militares de carreira, Douglas Lute, Robert Gates e John Allen, ex-comandante da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) que chefiou as tropas dos EUA no Afeganistão, juntaram-se à indignação pública contra a tentativa do republicano de politizar as Forças Armadas.

Diante da repercussão negativa, o atual secretário de Defesa precisou reorientar sua rota em aceno a seus pares, o que irritou Trump.

Esper disse que não queria usar militares nas ruas para conter os protestos e que isso deveria ser um recurso apenas na pior das situações, o que não é o caso agora.

Um dia depois das ameaças do presidente —e de sua foto com a Bíblia na mão—, os atos em Washington foram os maiores desde a semana passada. Na quinta e na sexta, diminuíram de tamanho, mas continuaram transcorrendo de forma pacífica.

A determinação dos manifestantes agora é tentar transformar os protestos despertados pela morte de Floyd em um movimento renovado de direitos civis.

Os atos tomaram mais de 400 cidades no país e são vistos por muitos analistas como os maiores desde a década de 1960, com a morte do líder negro Martin Luther King.

Os ativistas não querem apenas a responsabilização dos policiais envolvidos na morte de Floyd, mas também a reforma do sistema de justiça criminal, com mais transparência, prestação de contas e o fim do financiamento para as polícias.

Especialistas afirmam que eles têm uma janela temporal pequena para conseguir efeitos práticos, enquanto ainda há atenção política sobre o assunto.

A prefeita de Washington, a democrata Muriel Bowser, tentou nesta sexta capitalizar parte dessa atenção ao divulgar uma carta a Trump pedindo a retirada dos militares da capital.

Além disso, promoveu uma ação que pintou o asfalto e trocou o nome da rua em frente à Casa Branca pela frase que é tema dos protestos: "Black Lives Matter."

O movimento, porém, não reagiu bem. Disse que a performance da prefeita era uma forma de tirar o foco das reais mudanças de políticas públicas e que Bowser "sempre esteve do lado errado da história do Black Lives Matter", ignorando suas demandas na cidade.

Trump, por sua vez, fez nova investida para politizar os atos e publicou um vídeo de campanha com uma homenagem a Floyd em seu Twitter.

O clipe, que mostra imagens dos protestos com a narração do presidente —com algumas passagens de violência— foi tirado do ar pela plataforma sob alegação de violação de direitos autorais.

Com esse pano de fundo, os manifestantes chegaram ao oitavo dia consecutivo de atos em Washington nesta sexta, e o 11o em todo o país.

Eles se dizem satisfeitos com a ampliação das acusações dos policiais no caso de Floyd. Derek Chauvin, agente que aparece no vídeo com o joelho sobre o pescoço do homem negro por quase nove minutos, está sendo acusado de homicídio de segundo grau, o equivalente a homicídio doloso (com intenção de matar) na lei brasileira. Os outros três foram indiciados como cúmplices.

Mas a acusação não basta. Os ativistas querem condenação e também mudanças estruturais no sistema.

Nesta sexta, a cidade de Minneapolis, onde Floyd foi morto, anunciou que os policiais estão proibidos de usar todas as formas de contenção de pessoas pelo pescoço, como estrangulamento e mata-leão, durante as abordagens. E passa a ser obrigação dos agentes reportar o uso de força desnecessária ou não autorizada.

Reverendo que conduziu o memorial de Floyd nesta quinta, Al Sharpton resumiu o sentimento de quem saiu às ruas inicialmente pedindo justiça.

"Quando eu olhei e vi manifestações em que, em alguns casos, jovens brancos superavam em número os negros marchando, eu soube que essa é uma época diferente [...] Vá para casa, George. Descanse. Você mudou o mundo."​

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