Estados americanos começam a rever condutas policiais após mais um dia de protestos

Atos em memória de George Floyd pedem fim da violência policial e denunciam racismo estrutural nos EUA

Washington | Reuters

Após 11 dias consecutivos de protestos contra o racismo nos Estados Unidos, lideranças políticas começam a anunciar reformas com o objetivo de aperfeiçoar o treinamento e de coibir a violência e o uso excessivo de força por policiais durante abordagens.

Estados como Nova York e Califórnia anunciaram planos para rever o treinamento dado aos policiais, assim como medidas para aumentar a transparência sobre registros disciplinares dos agentes.

A morte de George Floyd, homem negro asfixiado por um policial branco no último dia 25, foi o gatilho para as mudanças.

Em um vídeo feito por testemunhas e compartilhado nas redes sociais, o policial Derek Chauvin aparece usando o joelho para pressionar o pescoço de Floyd contra o chão, ignorando os avisos de que ele não conseguia respirar.

"I can't breathe" (não consigo respirar) se tornou o slogan das manifestações que se espalharam por mais de 400 cidades americanas, ecoando pedidos por justiça e escancarando a tensão racial nos EUA.

Manifestante grita diante de uma fileira de policiais durante manifestação em Washington - Olivier Douliery - 1.jun.20/AFP

Os atos que se seguiram à morte de Floyd começaram pacíficos. À medida que se alastraram pelo país, entretanto, houve inúmeros embates entre policiais e manifestantes, prédios foram incendiados, e lojas, saqueadas, gerando críticas aos ativistas, como as do presidente Donald Trump, que os chama de "bandidos".

Centenas de cidades decretaram toques de recolher para tentar impedir os protestos. As regras foram ignoradas pelos manifestantes, embora a escalada de violência tenha diminuído nos últimos dias.

A mudança de humor refletiu uma determinação expressa por muitos ativistas nos últimos dias em transformar a indignação pela morte de Floyd em um movimento renovado de direitos civis, buscando reformas no sistema de justiça criminal dos Estados Unidos.

Os manifestantes se dizem satisfeitos com a ampliação das acusações dos policiais no caso de Floyd.

Chauvin está sendo acusado de homicídio em segundo grau, o equivalente a homicídio doloso (com intenção de matar) na lei brasileira. Ele pode pegar até 40 anos de prisão. Os outros três policiais que acompanharam a abordagem foram indiciados como cúmplices.

Mas a acusação, dizem, não basta. Os ativistas querem condenação e também mudanças estruturais no sistema.

Na sexta (5), a cidade de Minneapolis, onde Floyd foi morto, anunciou que os policiais estão proibidos de usar todas as formas de contenção de pessoas pelo pescoço, como estrangulamento e mata-leão, durante abordagens. E passa a ser obrigação reportar o uso de força desnecessária ou não autorizada.

No estado da Califórnia, o governador, o democrata Gavin Newsom, disse que impediria uma agência estadual de treinamento da polícia de ensinar uma técnica de contenção que envolve a restrição da artéria carótida, responsável pela circulação de sangue na cabeça.

A técnica deixa a vítima inconsciente e pode levar à morte, como no caso de Floyd.

O também democrata Andrew Cuomo, governador de Nova York, disse que vai aprovar um conjunto de reformas que incluem a disponibilização pública de registros disciplinares da polícia, a proibição de estrangulamentos e a criminalização de chamadas de emergência à polícia baseadas em aspectos raciais de possíveis suspeitos.

Chauvin, o policial que matou Floyd, foi alvo de pelo menos 18 inquéritos disciplinares, dos quais 16 não resultaram em nenhum tipo de punição.

Em 2014, Eric Garner, um homem negro de 43 anos, morreu após ser estrangulado por um policial em Nova York. Sua morte também foi filmada e deu início ao movimento "Black Lives Matter" (vidas negras importam), que ganhou ainda mais força com os atos em memória de Floyd.

"O assassinato de Floyd foi o ponto de ruptura. As pesssoas estão dizendo basta, precisamos mudar", disse Cuomo, em comunicado.

Medidas contra a violência policial durante a contenção dos protestos também estão sendo anunciadas.

Em Denver, no Colorado, um juiz federal proibiu a polícia de usar gás lacrimogêneo, balas de borracha, granadas de atordoamento e outros dispositivos considerados não letais.

A decisão, em caráter liminar, foi a resposta a uma ação judicial movida por manifestantes.

"São manifestantes pacíficos, e jornalistas e médicos que estão sendo alvo de táticas extremas destinadas a reprimir rebeliões, e não para conter manifestações", escreveu o juiz R. Brooke Jackson na decisão.

Em Buffalo, no norte do estado de Nova York, todos os 57 policiais da equipe de resposta a emergências abandonaram suas funções nesta sexta-feira (5).

O pedido de demissão coletiva é um protesto contra a decisão de suspender dois agentes que foram filmados empurrando um homem de 75 anos durante a dispersão de um ato ocorrido em frente à prefeitura da cidade.

O vídeo, feito por um repórter da rádio americana WBFO, mostra um idoso caminhando em direção aos policiais. Ao ser empurrado pelos agentes, ele cai e bate a cabeça, que imediatamente começa a sangrar.

De acordo com representantes de uma associação de policiais de Buffalo, os dois agentes estavam "simplesmente cumprindo ordens".

O homem idoso segue internado em condição críticas depois de ter sofrido uma concussão. Neste sábado, os dois policiais foram denunciados por agressão e podem pegar até sete anos de prisão, mas responderão pelo crime em liberdade.

Grandes cidades americanas, como Atlanta, Denver, Los Angeles, Minneapolis, Miami, Nova York e Washington, foram palco de manifestações na 11ª noite consecutiva de atos antirracismo.

A capital americana se prepara, neste sábado (6), para o que estimam ser a maior manifestação desde os primeiros atos em Minneapolis, no dia seguinte ao assassinato de Floyd.

De acordo com a agência de notícias Reuters, pelo menos seis ônibus cheios de militares equipados com escudos e armaduras chegaram no início do dia para reforçar a segurança da Casa Branca, residência oficial do presidente dos EUA.

"Temos muitas informações públicas que sugerem que o evento deste sábado pode ser um dos maiores que já tivemos na cidade", disse Peter Newsham, chefe da polícia de Washington, à imprensa local.

Newsham não fez uma estimativa de público, mas ativistas esperam que o ato deste sábado reúna um milhão de pessoas na capital americana.

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