Estátua do padre jesuíta António Vieira é vandalizada em Lisboa

Corrente de historiadores atribui a religioso certa condescendência com escravidão africana

Lisboa

O movimento global de protestos contra estátuas associadas ao racismo e à escravidão chegou a Portugal, país que dominou o tráfico negreiro durante séculos.

Uma estátua do padre António Vieira, no centro de Lisboa, foi vandalizada na madrugada de quinta-feira (11). O monumento recebeu um banho de tinta vermelha e teve a palavra “descoloniza” grafitado em sua base.

Um dos mais influentes padres jesuítas do século 17, António Vieira (1608-1697) passou um longo tempo no Brasil, com atuação forte na catequização de indígenas. Foi também escritor e é conhecido ainda hoje por uma série de sermões.

Uma corrente de historiadores atribui a ele, paralelamente à relativa “defesa” dos indígenas contra a escravização, uma certa condescendência com o trabalho forçado dos africanos.

Funcionário da Câmara Municipal de Lisboa limpa estátua do padre António Vieira após vandalismo
Funcionário da Câmara Municipal de Lisboa limpa estátua do padre António Vieira após vandalismo - Câmara Municipal de Lisboa/Divulgação

“O padre António Vieira atribuía o comércio de escravos a um grande milagre de Nossa Senhora do Rosário porque, segundo ele, tirados da barbárie e do paganismo na África, os cativos teriam a graça de serem salvos pelo catolicismo no Brasil”, escreve Laurentino Gomes, em um trecho do livro “Escravidão”, lançado em 2019.

Instalada em 2017 no largo Trindade Coelho, no coração de Lisboa, a estátua do padre António Vieira, que aparece rodeada de três crianças indígenas, esteve desde o início imersa em polêmicas.

No dia da inauguração, em junho daquele ano, houve tensão entre dois grupos de manifestantes.

Enquanto uma ala desejava fazer um protesto contra o monumento, justamente à sua ligação ao passado escravocrata, representantes de um grupo neonazista impediram a manifestação.

A Câmara Municipal de Lisboa (equivalente à Prefeitura) já limpou o monumento após a ação desta quinta. A polícia agora está investigando o caso.

A vandalização da estátua rapidamente gerou reações nas forças políticas portuguesas, especialmente nos partidos à direita.

Líder do partido de direita CDS, Francisco Rodrigues dos Santos comparou a pintura da estátua aos ataques terroristas a sítios arqueológicos perpetrado pelo Estado Islâmico.

“Não há diferença alguma entre a dinamitação dos Budas de Bamiyan pelos Talebans, da destruição do museu de Mossul e de Palmira pelo Estado Islâmico, e a onda de vandalismo e terrorismo cultural que parece ter agora chegado a Portugal, pela mão covarde de uma certa extrema esquerda que não dá a cara.”

Líder do partido de direita-radical Chega, o deputado André Ventura chamou os manifestantes de marginais “perpetrando ações vergonhosas” contra a história de Portugal.

O PCP (Partido Comunista Português) divulgou uma nota em que diz condenar o ato.

“Importa não permitir que este ato sirva para animar e inculcar na sociedade portuguesa um clima de conflitualidade racial sem sentido, iludindo o que o colonialismo representou do ponto de vista econômico e de classe em toda a dimensão”, afirmam os comunistas.

No início da semana, quando a discussão sobre raça e preconceito também se intensificou em Portugal, na esteira do movimento mundial provocado pelo assassinato de George Floyd, nos EUA, a declaração do líder do principal partido de oposição no país causou polêmica.

Em uma entrevista à emissora TVI, Rui Rio, líder do PSD (Partido Social Democrata), segunda maior bancada do Parlamento, afirmou que “não há racismo na sociedade portuguesa”.

Ao comentar sobre uma manifestação antirracista ocorrida em Portugal, Rio atribuiu o protesto a forças políticas de esquerda.

"Ainda entendo na América onde aquilo aconteceu, agora aqui em Portugal, mas a que propósito? Ainda ficamos racistas com tanta manifestação antirracista. Não noto isso na sociedade portuguesa, não há racismo na sociedade portuguesa", afirmou.

Nos últimos anos, Portugal tem discutido mais abertamente as questões raciais e o papel do país no tráfico internacional de pessoas escravizadas. Mesmo assim, discutir racismo na sociedade portuguesa ainda é um tabu.

Como o país não tem uma questão racial incluída em seu censo, não é possível saber com clareza quantos negros existem no país.

Em 2017, um inquérito do European Social Survey, feito em 20 países, mostrou Portugal com um elevado grau de racismo na sociedade.

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