Estrago causado pelo vírus no sistema de saúde da Itália pode causar mais vítimas que Covid

Além de espera longa para exames e consultas, pacientes temem contaminação ao irem a hospitais

Milão

A Itália superou seu pior momento da crise do coronavírus, mas o estrago que a Covid-19 provocou no sistema sanitário é tão grande que, segundo médicos especialistas, pode causar mais vítimas do que a própria pandemia, que já matou 34,6 mil pessoas desde fevereiro.

Depois de quatro meses do primeiro caso de transmissão local, sendo dois sob quarentena total, o Serviço Sanitário Nacional, que garante atendimento universal aos cidadãos, precisa recuperar milhões de consultas e exames diagnósticos e milhares de cirurgias adiadas, além de convencer pacientes de patologias graves de que não serão contaminados se pedirem socorro.

Profissionais de saúde colocam máscara termoplástica em paciente no centro de câncer San Pietro, em Roma
Profissionais de saúde colocam máscara termoplástica em paciente no centro de câncer San Pietro, em Roma - Yara Nardi - 25.mai.20/Reuters

Durante a emergência, muitos hospitais, especialmente na região norte, a mais afetada, atenderam exclusivamente pacientes de Covid-19 e transformaram salas cirúrgicas em alas de terapia intensiva.

Médicos e enfermeiros de diferentes especialidades foram deslocados para o combate à pandemia.

Quase tudo o que não era urgente foi cancelado. Segundo cálculos do departamento de economia e gestão em saúde da Universidade Carlo Cattaneo, deixaram de ser realizadas, durante os dois meses do confinamento, quase 14 milhões de consultas com médicos especialistas, 12,5 milhões de exames de imagem e mais de 20 milhões de exames de sangue.

Outra pesquisa, do instituto Nomisma, estima em 410 mil o número de internações para cirurgias —sem contar as urgentes e oncológicas— que precisarão ser remarcadas depois de dois meses de "lockdown" e outros dois meses para a reorganização do sistema.

Algumas áreas pararam quase totalmente, como as cirurgias de otorrinolaringologia, dermatologia e endocrinologia, com percentuais acima de 90%.

Os números são semelhantes aos captados pela Associação dos Cirurgiões Hospitalares Italianos (Acoi), que observou redução entre 70% e 90% nas intervenções eletivas.

"Foram adiadas cerca de 600 mil operações, incluindo 50 mil oncológicas. Mas o câncer não entra em quarentena. Temos um problema sério", diz à Folha o médico Pierluigi Marini, presidente da associação e professor da Universidade Sapienza de Roma.

Segundo ele, a Itália tem, em média, mil novos casos de câncer por dia. "Imagine quantas pessoas com tumor ficaram sem diagnóstico e tratamento adequados durante 90 dias de paralisação? Isso pode se tornar um fenômeno mais pesado do que o Covid-19", afirma.

A avaliação é a mesma de Ciro Indolfi, presidente da Sociedade Italiana de Cardiologia. "A saúde bloqueada pelo vírus provavelmente causará mais mortes do que o próprio vírus."

Os efeitos na cardiologia foram imediatos no auge da emergência. Segundo um levantamento em 54 hospitais italianos, entre 12 e 19 de março, o número de pacientes cardiopatas internados em terapia intensiva caiu pela metade, enquanto a mortalidade hospitalar por infarto triplicou.

"Foi um impacto devastador. Isso significa que os pacientes com infarto foram internados mais tarde. Eles esperavam muito antes de chamar o sistema de emergência e chegavam tarde demais aos hospitais. A cardiologia italiana retrocedeu 20 anos nesse período", explica Indolfi.

Ainda que situações urgentes tivessem, em tese, garantia de atendimento, muitos pacientes evitavam procurar ajuda, assustados com a possibilidade de serem contaminados pelo coronavírus.

E, além disso, durante os piores dias da epidemia nos lugares mais atingidos, ambulâncias demoravam mais para chegar, e hospitais estavam superlotados.

O mesmo aconteceu na oncologia. "Muitos ficaram em casa voluntariamente, aterrorizados com a possibilidade de se contaminarem", relata Marini, da Acoi, que representa os cirurgiões hospitalares.

A associação lançou, no fim de maio, uma campanha nas redes sociais em que médicos pedem para os pacientes retomarem seus exames e tratamentos.

Uns não voltam por medo, outros porque entraram numa longa lista de espera. Conseguir marcar um exame ou uma consulta está bem mais difícil e atinge tanto os procedimentos mais simples quanto os mais complexos.

No último dia 18, a reportagem tentou remarcar uma consulta oftalmológica pediátrica programada originalmente para ocorrer em março, mas cancelada devido à pandemia.

A espera por uma vaga passou de 39 dias (quando agendada pela primeira vez, em janeiro) para 284 dias. A atendente avisou que a primeira data disponível era 29 de março de 2021.

Segundo a pesquisa da Nomisma, quem precisa programar uma operação de ponte de safena esperava entre 20 e 25 dias antes da crise sanitária, mas agora a demora pode chegar a quatro meses. O prazo para colocar uma prótese no quadril dobrou e supera os seis meses.

Além da fila causada pelo bloqueio quase total durante a quarentena, ambulatórios, consultórios e hospitais precisam seguir agora protocolos mais rigorosos para diminuir chances de contaminação, mas que resultam em menor capacidade e maior lentidão.

Casos de Covid-19 precisam de alas e percursos exclusivos. É obrigatória a distância de segurança em corredores, salas de espera e entre leitos. O agendamento virou regra até para exames de sangue.

E, mais do que antes, é preciso sanitizar salas, móveis e equipamentos após cada atendimento, causando intervalos maiores entre uma e outra consulta.

"O sistema sanitário está tentando, com muita dificuldade, retomar as atividades normais. Se aumentarmos hoje nossa capacidade em 20% em relação ao que era na época pré-Covid, precisaremos de 11 meses para trazer de volta o equilíbrio", diz Marini.

Como solução, especialistas pedem investimentos em telemedicina e na rede de assistência local (atenção primária) e contratação de mais operadores sanitários. Na Lombardia, a região mais atingida, está em discussão a adoção de turnos noturnos e nos finais de semana.

Ao mesmo tempo em que tenta reorganizar seu sistema sanitário, a Itália acompanha a discussão sobre a chegada da segunda onda de contágios, cogitada para o outono no hemisfério norte.

"Seria uma coisa desastrosa. Esperemos que não aconteça nas mesmas dimensões, mas mesmo assim será um problema importante", afirma Marini.

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