George Floyd, cuja morte escancarou racismo da polícia dos EUA, é enterrado em Houston

Cerimônia foi ápice de cinco dias de homenagens públicas à vítima de violência policial

Houston e São Paulo | Reuters

Duas semanas após ser morto em uma ação policial e se tornar o rosto de uma onda de protestos contra o racismo em todo o mundo, George Floyd foi enterrado nesta terça-feira (9), em Houston, cidade em que cresceu, ao lado do túmulo de sua mãe.

Centenas de pessoas lotaram a igreja Fountain of Praise durante a cerimônia, o ápice de cinco dias de homenagens públicas em três cidades diferentes ao homem negro assassinado por asfixia após ter o pescoço prensado no chão por um policial branco em Minneapolis, nos Estados Unidos.

O memorial foi muito mais do que um simples funeral. A igreja foi tomada por música gospel, enquanto um vídeo com memórias da vida do ex-segurança era exibido. Do lado de fora, as ruas foram decoradas com bandeiras americanas, e flores deixadas pelos enlutados ornavam a porta do templo.

Pessoas observam caixão de George Floyd durante funeral na igreja Fountain of Praise, em Houston - David J. Phillip/Reuters

A família de Floyd, toda vestida de branco e de máscaras, entrou na igreja acompanhada do reverendo Al Sharpton, ativista de direitos civis e encarregado do principal discurso religioso da homenagem.

Em sua fala, ele destacou a longa história de homens negros mortos nos EUA e repreendeu líderes políticos e empresariais por expressarem apenas tardiamente que maus tratos a negros são inaceitáveis.

Um por um, nomeou parentes de outros homens negros mortos pela polícia e pediu que eles ficassem de pé —entre eles, a mãe de Eric Garner, que, assim como Floyd, morreu asfixiado e dizendo "eu não consigo respirar". Outros também se levantaram, até que todos na igreja estavam de pé e aplaudindo.

Os parentes de Floyd se revezaram no microfone em discursos carregados de emoção. Brooklyn Williams, sobrinha do homenageado, referiu-se diretamente ao presidente Donald Trump. "Alguém disse: 'Faça a América grande de novo'. Mas quando é que a América foi grande? América, é hora de mudar."

O cantor Dray Tate fez uma versão de "A Change Is Gonna Come" (uma mudança virá), canção de Sam Cooke famosa na voz de Aretha Franklin, enquanto um artista pintava o rosto do ex-segurança no palco. Faixas traziam ilustrações de Floyd com um boné de beisebol e uma auréola sobre a cabeça.

Joe Biden, virtual candidato democrata à Presidência dos EUA, participou do evento por meio de um vídeo.

"Por que nesta nação muitos americanos negros acordam sabendo que podem perder a vida apenas vivendo a própria vida?", disse o ex-vice-presidente. "Não devemos nos omitir. Não podemos sair deste momento pensando que podemos mais uma vez dar as costas ao racismo."

Ao falar diretamente à filha caçula de Floyd, Gianna, disse: “Nenhuma criança deveria fazer a pergunta que muitas crianças negras tiveram que fazer por gerações: 'Por quê? Por que papai se foi?'. Quando houver justiça para George Floyd, estaremos realmente no caminho da justiça racial na América."

Cerca de 500 pessoas foram convidadas para esta última homenagem, incluindo o prefeito de Houston, Sylvester Turner, alguns deputados, o rapper Slim Thug e o boxeador Floyd Mayweather.

A Bolsa de Valores de Nova York ficou 8 minutos e 46 segundos em silêncio nesta terça —o período corresponde ao tempo em que o pescoço de Floyd ficou prensado sob o joelho do policial.

Depois da cerimônia, houve um cortejo de 24 km no qual o corpo de Floyd foi carregado a bordo de uma carruagem branca puxada por cavalos.

A morte do ex-segurança gerou uma onda de protestos que se espalhou por dezenas de cidades dos EUA e outras partes do mundo. Floyd foi lembrado em atos na África, na Ásia, na Europa e também no Brasil.

Durante a primeira semana de manifestações, foram registrados incêndios em carros e prédios, saques e conflitos com policiais de costa a costa nos EUA. O mesmo ocorreu em cidade europeias.

Em Bruxelas, no domingo, houve confrontos na repressão a saques e quebra-quebras, após manifestação pacífica. Nas redes sociais, há vídeos de uma menina de três anos atingida por gás lacrimogêneo e de policiais imobilizando um homem com o joelho, a mesma tática que provocou a morte de Floyd.

Também há imagens de grupos de pessoas jogando pedras na polícia, quebrando vitrines e saqueando lojas. Nos últimos dias, entretanto, os atos seguem, em sua maioria, pacíficos.

As manifestações levaram autoridades a repensar a atuação da polícia. Nesta terça, o prefeito de Houston, Sylvester Turner, acompanhando decisão tomada pela cidade de Minneapolis, onde Floyd foi morto, anunciou a elaboração de um decreto para proibir estrangulamentos.

O Congresso dos EUA debate uma lei para reformar o sistema policial. A proposta, encabeçada por democratas, inclui a criação de um registro nacional sobre má conduta policial e de meios para tornar mais fácil a penalização de agentes acusados de más práticas.

Para que a proposta de lei seja aprovada, entretanto, será necessário apoio dos republicanos, maioria no Senado, o que não deve acontecer. Parlamentares do partido, sem dar detalhes, afirmaram estar trabalhando em um projeto próprio sobre o tema.

Em outro movimento, monumentos em homenagem a figuras históricas que enriqueceram com o comércio de escravos negros são questionados. Em Bristol, na Inglaterra, manifestantes derrubaram uma estátua de um escravocrata. Um protesto em Oxford pede a retirada de um monumento similar.

Agora, o prefeito de Londres, Sadiq Khan, ordenou uma revisão das estátuas e dos nomes das ruas locais.

"É uma verdade desconfortável que a nossa nação e a nossa cidade deve uma grande parte de sua riqueza ao comércio de escravos, e enquanto isso é refletido em nosso patrimônio público, a contribuição de muitas de nossas comunidades para a vida em nossa capital tem sido intencionalmente ignorada", disse.

O Parlamento britânico prestou um minuto de silêncio em homenagem a Floyd nesta terça. Na França, a família de Adama Traoré, morto durante uma abordagem policial em 2016, convocou protestos para o próximo sábado. Os agentes envolvidos no caso não foram processados.

Em Nova York, o prefeito Bill de Blasio prometeu transferir parte do orçamento da polícia a serviços sociais. Também prometeu rebatizar uma rua de cada um dos cinco distritos da cidade para "Black Lives Matter" (vidas negras importam), nome do movimento mais forte atualmente contra o racismo nos EUA.

Em Minneapolis, 9 dos 13 membros do Conselho Municipal se comprometeram a desmantelar o Departamento de Polícia local e criar um novo sistema de segurança púbica liderado pela comunidade.

Floyd foi abordado por quatro agentes da cidade depois que o atendente de uma loja acionou a polícia acusando-o de tentar utilizar uma nota falsa de US$ 20.

Durante a abordagem policial, ele teve o pescoço prensado no chão pelo agente Derek Chauvin, e o vídeo que registrou o momento viralizou nas redes sociais.

Chauvin ignorou não só os avisos de Floyd de que não estava conseguindo respirar, como os apelos das testemunhas, que apontavam uso excessivo de força.

Os quatro policiais foram demitidos assim que o caso veio à tona. Agora, Chauvin é acusado de homicídio em segundo grau, o equivalente a homicídio doloso, quando há intenção de matar. Ele pode pegar até 40 anos de prisão. Os outros três policiais foram indiciados como cúmplices. ​

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