Descrição de chapéu The New York Times

Li Zhensheng, fotógrafo da Revolução Cultural chinesa, morre aos 79 anos

Fotojornalista produziu poderoso testemunho visual dos excessos brutais do período

Amy Qin
The New York Times

Li Zhensheng, fotógrafo chinês que assumiu grandes riscos para documentar o lado sombrio da Revolução Cultural de Mao Tsé-tung, morreu aos 79 anos.

Ele produziu uma poderosa compilação de imagens em preto e branco que formam um testemunho visual raro dos excessos brutais daquele episódio turbulento da história.

Sua morte foi confirmada na terça-feira (23) por Robert Pledge, fundador da Contact Press Images e editor do livro de Li “Red-Color News Soldier” (soldado vermelho das notícias). Pledge disse que o fotógrafo, morador do bairro do Queens, estava hospitalizado em Nova York.

Não foram divulgados outros detalhes, incluindo a data da morte.

O governador da província chinesa de Heilongjiang Li Fanwu tem o cabelo cortado em praça pública por jovens da Guarda Vermelha, em Harbin, por ser acusado de tentar se parecer com Mao Tsé-tung
O governador da província chinesa de Heilongjiang Li Fanwu tem o cabelo cortado em praça pública por jovens da Guarda Vermelha, em Harbin, por ser acusado de tentar se parecer com Mao Tsé-tung - Li Zhensheng/Contact Press Images

Li era um jovem fotógrafo de um jornal local no nordeste da China quando Mao lançou a Revolução Cultural, em maio de 1966. Usando uma faixa vermelha no braço com os dizeres “soldado vermelho das notícias”, ele teve acesso extraordinário a eventos oficiais.

“Fiquei empolgado, como todo mundo”, recordou ele em entrevista ao New York Times em 2003. “A felicidade era real. Nos sentíamos pessoas de sorte por estarmos vivendo aquele momento.”

Mas a empolgação não demorou a dar lugar à ansiedade. Algo que começou como campanha política visando consolidar o poder em pouco tempo tomou conta do país inteiro, desencadeando uma década de turbulência que virou a sociedade chinesa do avesso.

Facções de jovens radicais conhecidos como Guardas Vermelhos percorriam o país enfrentando umas às outras e combatendo pessoas que viam como “inimigos de classe”.

Em nome da erradicação da cultura “feudal” e “burguesa” do país, incontáveis sítios históricos e relíquias foram destruídos.

Li começou a ter dúvidas depois de testemunhar Guardas Vermelhos na província de Heilongjiang, no nordeste do país, depredando igrejas e templos, queimando livros religiosos e criticando monges.

“Percebi que eu precisava documentar esse período tumultuado”, escreveu. “Não sabia realmente se o estava fazendo pela revolução, por mim mesmo ou pelo futuro, mas sabia que precisava usar a câmera como ferramenta para documentar essa época.”

Li fez não apenas as fotos de propaganda encomendadas pelo jornal para o qual trabalhava —os punhos erguidos, o fervor revolucionário, as assembleias de massa—, mas também outras menos elogiosas.

Ele acumulou cerca de 100 mil fotos nessa época, escondendo muitos dos negativos debaixo do piso de sua casa em Harbin, capital da província mais setentrional da China.

Seu acervo de imagens ainda forma uma das crônicas visuais mais completas e nuançadas de como a Revolução Cultural subverteu a vida diária dos chineses longe da capital, Pequim.

Entre as fotos há várias imagens das chamadas “sessões de luta”, nas quais pessoas eram criticadas, vilipendiadas e obrigadas a passar horas em pé de cabeça baixa diante de uma multidão de acusadores.

Até o final da Revolução Cultural, em 1976, dezenas de milhões de pessoas tinham sido perseguidas e, segundo estimativas, até 1,5 milhão foram mortas. Muitas delas, levadas a cometer suicídio.

“Nenhum outro movimento político na história recente da China durou tanto tempo, teve impacto tão amplo ou causou trauma tão profundo quanto a Revolução Cultural”, disse Li ao New York Times em 2018.

Em 1988 a China estava no meio de um período breve de abertura quando Li expôs em Pequim, pela primeira vez, 20 de suas imagens previamente mantidas em segredo. Sua série de fotos, “Deixemos o Passado Falar com o Futuro”, recebeu o primeiro prêmio do concurso.

Desde então a Guerra Cultural foi se tornando um tabu cada vez maior na China. Dentro de um esforço mais amplo do Partido Comunista para camuflar esse capítulo turbulento da história, as autoridades bloquearam várias vezes as tentativas de Li de publicar suas fotos.

“Li Zhensheng conferiu um rosto, uma imagem e uma textura aos horrores de um período de importância incrível na história chinesa moderna”, disse o sinólogo australiano Geremie Barmé.

“Ele faz parte de um conjunto grande de homens e mulheres chineses de consciência que fazem e fizeram pressão para preservar a memória e promover a reflexão sobre um período da história que as autoridades prefeririam distorcer ou silenciar.”

Em 2003, Li publicou um livro de suas fotos intitulado “Red-Color News Soldier”. Desde então, as imagens já foram expostas em mais de 60 países.

“Acho que precisamos tentar, por meio da reflexão séria e da contemplação, proporcionar alívio àqueles cujas almas foram torturadas”, escreveu ele no livro.

“Quero mostrar ao mundo o que realmente aconteceu durante a Revolução Cultural.”

Li Zhensheng nasceu na cidade portuária de Dalian, no nordeste da China, em 22 de setembro de 1940, filho de uma família pobre. Seu pai, Li Yuanjian, havia sido cozinheiro num barco a vapor.

Li tinha 3 anos quando sua mãe, Chen Shilan, morreu.

Estudou cinematografia na Escola Changchun de Cinema em Jilin, província do nordeste do país. Mas, devido às políticas econômicas desastrosas adotadas por Mao durante o programa conhecido como o Grande Salto Adiante e a fome em massa que se seguiu, havia poucas oportunidades de trabalho nesse campo.

O fotógrafo chinês Li Zhensheng durante entrevista à Folha, em 2013
O fotógrafo chinês Li Zhensheng durante entrevista à Folha, em 2013 - Bruno Poletti - 16.set.19/Folhapress

Depois de se formar, acabou encontrando emprego como fotojornalista no Diário de Heilongjiang, em Harbin.

Ele se casou em 1968 com Zu Yingxia, uma editora do jornal. Naquele ano, dois anos depois de iniciada a Revolução Cultural, Li foi acusado de ser um “novo burguês”. Foi criticado perante 300 funcionários do jornal durante mais de seis horas e rebaixado de função.

No ano seguinte, ele e sua esposa foram enviados ao campo para “reeducação” e obrigados a fazer trabalhos forçados. Quando foram autorizados a voltar a Harbin, em 1971, a Revolução Cultural já havia passado do auge.

Li voltou ao jornal. Mas foi apenas depois da morte de Mao, em 1976, que ele finalmente se sentiu em segurança.

Em 1982, começou a ensinar fotografia numa universidade de Pequim, onde em 1988 conheceu Pledge, da Contact Press Images. Eles continuaram em contato e dez anos mais tarde começaram a trabalhar no livro de Li.

Em setembro de 2013, veio ao Brasil para participar do festival de fotografia Paraty em Foco.

Quando Li morreu, eles estavam trabalhando em um novo livro de autorretratos que o fotógrafo chinês fez durante a Revolução Cultural —um ato arriscado numa época em que se esperava que as pessoas priorizassem o partido, e não elas mesmas.

Li também documentou os protestos pró-democracia em Pequim que levaram à repressão na Praça da Paz Celestial, em 1989, mas nunca publicou as fotos.

“Testemunhar e registrar a história foi a obsessão de toda sua vida”, disse Pledge.

Em seus últimos anos, Li dividia seu tempo entre Nova York e Pequim, onde podia estar mais perto de seu filho, Xiaohan, e sua filha, Xiaobing.

Não foi possível obter informações imediatas sobre os familiares que ele deixou.

Tradução de Clara Allain 

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